“No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado (…)”
Na saída do Shopping, na curva da Jurema, um menino vende paçoca. Quanto anos tem? Não mais que dez, com certeza.
Meu primeiro impulso é dar uma esmola daquelas, talvez comprar a caixa toda de paçoca, tentar alentar os olhos tristes da criança, acalentar um pouco aquela criança de infância tão diferente da minha Laura.
Saciar naquele momento aquele menino.
Mas sou travado pela lembrança dura e cortante de São Gregorio de Nissa e seu Sermão sobre a Opulência que li uma vez em Paulo Freire e diz assim:
“Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbulo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”
O que faz uma sociedade obrigar um menino vender paçoca na rua e onde “ficar bonita é mais caro que ser inteligente” (Ligia depois de comprar dois produtos de beleza e uns 6 livros)?
Qual nosso caminho?
E isso tudo se mistura na minha cabeça junto com a notícia da morte de um adolescente atropelado por um ônibus instantes após furtar um celular de um idoso e sair correndo pelo meio da rua na zona leste de São Paulo.
“Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que ‘tá rindo
Acho que ‘tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá”.
Sabe, hoje, quando escrevo, tomei um rum havana club, que vem de uma terra que tem pobreza mas não tem miséria e as crianças ainda só estudam e brincam felizes nas ruas, como devem fazer as crianças.
E de repente o menino acorda e canta Wilson das Neves:
“vai ser uma única escola, uma só bateria
que desfile assim não vai ter nada igual
ninguém sabe a força desse pessoal”
Mas hoje a lua estava linda e tudo isso me fez pensativo e nesse sábado, tendo tomado uma só dose de havana club, olho pra lua, pra Ligia, parodio Drumond e penso:
“Eu não devia te dizer
Mas essa lua esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo”









