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Uma crônica de Natal

Esta ceia acontece em certa rua e certo bairro. Como em outros anos, reúne na mesma noite diferentes indivíduos e histórias em torno de uma mesa. O primeiro a chegar é Tio Rogério. Homem forte, que trabalhou a vida toda sem ajuda para sustentar seus filhos e se tornou comerciante de sucesso. Com visão pragmática do mundo, não é ligado a muitas leituras ou questionamentos. Ultimamente, inclusive, começou acreditar que a terra é plana. E poucos conseguem ter com ele uma conversa mais amena. Mas, como negar sua companhia, seus filhos e tudo que esta família passou junta conectada pelos laços do parentesco e do amor?

Julia e Helena são irmãs de Rogério e tem origem semelhante, mas escolhas diferentes: Julia casou-se nova, teve filhos cedo e hoje é mãe realizada. Helena viajou o mundo, estudou e viveu diferentes culturas. Teve filhos só depois de se tornar do doutorado. Católica e tradicional, Julia surpreendeu a família quando há alguns anos separou-se do e casou com Vanessa, advogada que ajudou inclusive no divórcio.

Livre e humanista, Helena também surpreendeu quando casou-se com Henrique, evangélico e negro. Cada uma a sua maneira, Julia e Helena trazem para o cardápio ingredientes que vão muito além do chester e da farofa e são mais polêmicos do que o gosto pela uva-passa.

As crianças ainda são o brilho e a alegria da casa. Mas, os adolescentes mal conseguem conversar com os parentes mais velhos porque, para eles, o que importa é o que acontece nas telas dos celulares. Tudo bem. Como disse Machado de Assis, não há defeito da juventude que o tempo não cure. E em breve, eles devem se juntar aos jovens adultos da casa. Os filhos que chegaram aos 20 e poucos anos e representam o que há de mais atualizado, revigorante e inovador da família. Pedro: fundador de uma startup, Fernanda: estudante de biologia e vegetariana, João Paulo, investidor financeiro com menos de 30 anos e Mari: influenciadora digital.

Preocupados com questões sociais e sem rótulos tradicionais, para este observador, essa turma só tem menos desejo de mudar o mundo do que duas pessoas que participam da noite: Idalina e Cida. Duas mulheres que deixaram de estar com as suas famílias para servir neste noite como funcionárias.

Pois como você já deve ter reparado, nossa ceia fictícia, que tenta representar o mosaico absurdamente humano e complexo que são nossas famílias e comunidades, é um retrato da classe média do Brasil. Mas para Idalina e Cida, que representam uma parte muito maior da nossa população, mudar o jogo é uma questão de deixar de ser invisível.

O final da noite não importa. Esta crônica fica com o exercício de imaginarmos como essas pessoas poderão dividir suas vidas e a rabanada com respeito, diálogo e harmonia. Dando a todos a chance, inclusive das duas empregadas, de viverem as suas verdades com paz e dignidade. Até porque, essa certa rua e esse certo bairro hoje podem ser em qualquer cidade do Brasil. E apesar de não sabermos o desfecho, mesmo com tantas dificuldades estamos nos acostumando a isso. Boa sorte. E Feliz Natal.

Helio Gualberto Neto
Helio Gualberto Neto
Helio Gualberto Neto é publicitário, designer estratégico e sócio da Persona. Escreve sobre comunicação e comportamento.

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