Ao feirante que pesa o dedo na balança, ao guarda que quebra a lanterna do carro para cobrar propina em troca da multa que não lavra, ao empreiteiro que maquia a planilha para receber pelo que não fez e ao síndico que reforma o próprio apartamento com o dinheiro do condomínio — e a lista, convenhamos, não cabe numa coluna — nós destinamos uma alcunha só: ladrão. Pelas lentes do Código Penal, várias dessas condutas têm nome próprio e artigo próprio, mas foi “ladrão” a palavra que o povo escolheu como sinônimo de desonesto.
É assim que funcionamos. Usamos vocábulos, nem sempre depreciativos na raiz, para rotular quem agride a nossa percepção do correto, aqueles mandamentos que carregamos sem saber de onde vieram e que tratamos como se fossem absolutos. Desonesto, por óbvio, é quem não é honesto: quem quebra a regra moral ou a regra legal em vigor.
As duas regras cobram de formas diferentes. A legal é imposição escrita: prescreve, antes do ato, a sanção para quem o praticar — tantos anos de cadeia para quem rouba, tantos para quem corrompe — e a pena já estava lá, à espera, quando o infrator resolveu merecê-la. A moral não tem código, mas tem cobrança, e cobra em moeda social: o marido flagrado com a amante, que até ontem era “homem decente”, amanhece “safado” na boca da rua, sem processo, sem defesa e sem recurso.
E as regras morais mudam. Mudam com o lugar e mudam, sobretudo, com o tempo: a filha que em 1970 foi morar com o namorado sem casar era o escândalo da família; hoje é a mãe da noiva, e ninguém se lembra de ter se escandalizado. O que não muda é o conceito. Desonesto é quem quebra a regra que vigora, criminosamente ou não, e a distinção independe da definição legal do ato: quem furta um celular e quem dá um golpe monumental no sistema financeiro são, ambos, desonestos — a diferença é de tamanho, não de natureza.
Convém não esquecer, nem sublimar, que a vida em sociedade nos impõe concessões que, examinadas com rigor, são pequenas desonestidades. O neto surpreendido pela avó com um bolo solado, ruim de gosto e de textura, agradece à querida idosa em vez de dizer “credo, vó, que coisa ruim”. O marido, ou a esposa, perguntado pelo cônjuge, ambos atrasados, se aquela calça é bonita, sorri e aquiesce em vez de dizer “credo, fulano, que coisa cafona”. E assim vamos sobrevivendo, uma hipocrisia aqui, outra acolá.
Mas note-se quem paga a conta dessas mentiras: quem mente. É o neto quem engole o bolo. É o marido quem sai de casa ao lado da calça cafona.
A conta muda de mão quando somos chamados a agir ou opinar como profissionais, como especialistas — reconhecidos pela sociedade como tal, ou nos atribuindo essa condição — e dizemos ou assinamos o que sabemos errado para cair nas graças de alguém, para “lacrar”, para garantir uma vantagem que, agindo de outro modo, não alcançaríamos. Aí a mentira não custa a quem mente. Custa a quem confiou. E isso tem nome: desonestidade intelectual.
Ela nivela, sem desconto, o batedor de carteiras e o doutor. O advogado que sabe muito bem que determinada decisão foi processualmente regular e, mesmo assim, a chama de devaneio, de autoritarismo ou de dolo do juiz, porque o cliente, ou a plateia, quer ouvir isso. O engenheiro que assina um laudo mais falso que nota de três reais porque o laudo verdadeiro desagradaria quem o contratou. O comentarista que, sem ter lido uma página dos autos, sentencia na televisão o caso da semana, certo de que a audiência já decidiu o veredicto e só quer um diploma para confirmá-lo. O professor que sabia que o contrário do que disse é que faria justiça a quem confiou na sua renomada e respeitada sabedoria.
Quem rouba uma carteira leva o dinheiro. Quem faz isso leva a confiança, e cobra em aplauso.
Vivemos tempos que um sujeito chamado Bauman rotulou de modernidade líquida, e deles decorre uma moral igualmente líquida, que vai tomando a forma da conveniência e do interesse, por mais degradantes que sejam — ao outro, claro, nunca a quem se adapta. E num grande edifício chamado sociedade, sustentado por pilares que muitos chamam de decência, de dignidade, de caráter, nada pior do que sabê-los construídos com tijolo mole, cimento falso, areia salitrada e ferragem muito aquém da bitola de segurança.
O diploma na parede não segura o teto. E teto, convém lembrar, cai sobre a cabeça de todos os que vivem debaixo dele — inclusive do mestre de obras que resolveu fazer vistas grossas, ou vender seus valores, para ficar bem na fita do fornecedor.









