Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
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Desonestidade com diploma

Ao feirante que pesa o dedo na balança, ao guarda que quebra a lanterna do carro para cobrar propina em troca da multa que não lavra, ao empreiteiro que maquia a planilha para receber pelo que não fez e ao síndico que reforma o próprio apartamento com o dinheiro do condomínio — e a lista, convenhamos, não cabe numa coluna — nós destinamos uma alcunha só: ladrão. Pelas lentes do Código Penal, várias dessas condutas têm nome próprio e artigo próprio, mas foi “ladrão” a palavra que o povo escolheu como sinônimo de desonesto.

É assim que funcionamos. Usamos vocábulos, nem sempre depreciativos na raiz, para rotular quem agride a nossa percepção do correto, aqueles mandamentos que carregamos sem saber de onde vieram e que tratamos como se fossem absolutos. Desonesto, por óbvio, é quem não é honesto: quem quebra a regra moral ou a regra legal em vigor.

As duas regras cobram de formas diferentes. A legal é imposição escrita: prescreve, antes do ato, a sanção para quem o praticar — tantos anos de cadeia para quem rouba, tantos para quem corrompe — e a pena já estava lá, à espera, quando o infrator resolveu merecê-la. A moral não tem código, mas tem cobrança, e cobra em moeda social: o marido flagrado com a amante, que até ontem era “homem decente”, amanhece “safado” na boca da rua, sem processo, sem defesa e sem recurso.

E as regras morais mudam. Mudam com o lugar e mudam, sobretudo, com o tempo: a filha que em 1970 foi morar com o namorado sem casar era o escândalo da família; hoje é a mãe da noiva, e ninguém se lembra de ter se escandalizado. O que não muda é o conceito. Desonesto é quem quebra a regra que vigora, criminosamente ou não, e a distinção independe da definição legal do ato: quem furta um celular e quem dá um golpe monumental no sistema financeiro são, ambos, desonestos — a diferença é de tamanho, não de natureza.

Convém não esquecer, nem sublimar, que a vida em sociedade nos impõe concessões que, examinadas com rigor, são pequenas desonestidades. O neto surpreendido pela avó com um bolo solado, ruim de gosto e de textura, agradece à querida idosa em vez de dizer “credo, vó, que coisa ruim”. O marido, ou a esposa, perguntado pelo cônjuge, ambos atrasados, se aquela calça é bonita, sorri e aquiesce em vez de dizer “credo, fulano, que coisa cafona”. E assim vamos sobrevivendo, uma hipocrisia aqui, outra acolá.

Mas note-se quem paga a conta dessas mentiras: quem mente. É o neto quem engole o bolo. É o marido quem sai de casa ao lado da calça cafona.

A conta muda de mão quando somos chamados a agir ou opinar como profissionais, como especialistas — reconhecidos pela sociedade como tal, ou nos atribuindo essa condição — e dizemos ou assinamos o que sabemos errado para cair nas graças de alguém, para “lacrar”, para garantir uma vantagem que, agindo de outro modo, não alcançaríamos. Aí a mentira não custa a quem mente. Custa a quem confiou. E isso tem nome: desonestidade intelectual.

Ela nivela, sem desconto, o batedor de carteiras e o doutor. O advogado que sabe muito bem que determinada decisão foi processualmente regular e, mesmo assim, a chama de devaneio, de autoritarismo ou de dolo do juiz, porque o cliente, ou a plateia, quer ouvir isso. O engenheiro que assina um laudo mais falso que nota de três reais porque o laudo verdadeiro desagradaria quem o contratou. O comentarista que, sem ter lido uma página dos autos, sentencia na televisão o caso da semana, certo de que a audiência já decidiu o veredicto e só quer um diploma para confirmá-lo. O professor que sabia que o contrário do que disse é que faria justiça a quem confiou na sua renomada e respeitada sabedoria.

Quem rouba uma carteira leva o dinheiro. Quem faz isso leva a confiança, e cobra em aplauso.

Vivemos tempos que um sujeito chamado Bauman rotulou de modernidade líquida, e deles decorre uma moral igualmente líquida, que vai tomando a forma da conveniência e do interesse, por mais degradantes que sejam — ao outro, claro, nunca a quem se adapta. E num grande edifício chamado sociedade, sustentado por pilares que muitos chamam de decência, de dignidade, de caráter, nada pior do que sabê-los construídos com tijolo mole, cimento falso, areia salitrada e ferragem muito aquém da bitola de segurança.

O diploma na parede não segura o teto. E teto, convém lembrar, cai sobre a cabeça de todos os que vivem debaixo dele — inclusive do mestre de obras que resolveu fazer vistas grossas, ou vender seus valores, para ficar bem na fita do fornecedor.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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