Imagine-se uma assembleia de condomínio convocada às pressas porque a caixa-d’água rachou, o elevador vive parado entre o quarto e o quinto andar e a infiltração do telhado já desenha, no teto do último apartamento, um mapa do Brasil — com as regiões e tudo. Imagine-se que, aberta a sessão, ninguém fala da caixa-d’água. Fala-se do síndico anterior, que teria sumido com o dinheiro da pintura; responde-se que o atual pôs o cunhado na portaria; treplica-se que o cunhado ao menos aparece para trabalhar, coisa que o sobrinho do outro jamais fez. Três horas depois, encerra-se a reunião com a ata assinada, a voz rouca, dois moradores rompidos pelo resto da vida — e a água pingando, pontual, no mesmo lugar.
Ninguém sai dali achando que o prédio melhorou. Mas saem todos convencidos de que ganharam o debate.
Pois o Brasil virou essa assembleia, com a diferença de que ela não termina nunca e de que a gente participa mesmo sem ter sido convocado.
Pensava eu, até não faz tanto tempo, que discutir educação era comparar currículos, métodos de alfabetização, a formação e o salário do professor, o que se ensina lá fora e o que se deixa de ensinar aqui. Hoje a discussão cabe inteira num boato de grupo de mensagens: se a escola da esquina doutrina, se o livro tal traz ilustração indecente, se a professora veste a camisa do partido errado. Na universidade, o país que precisa desesperadamente de engenheiros, médicos, técnicos e pesquisadores gasta o fôlego querendo saber se o campus defende a maconha ou se o reitor é comunista — e ninguém pergunta que profissional o Brasil vai precisar daqui a vinte anos, nem quem vai formá-lo.
Na segurança, o mesmo roteiro. Programa, método, estudo sério, experiência que deu certo em outra cidade, polícia que investiga em vez de apenas reagir? Nada disso rende curtida. Rende saber se a polícia deve matar mais, se bandido bom é bandido morto, se o outro lado passa a mão na cabeça de criminoso. E quando se fala das instituições da República — que precisariam, convenhamos, de reforma, de fiscalização, de controle social que funcionasse de verdade —, o assunto encolhe até caber numa única pergunta, repetida em todos os tons: o seu ministro é mais ladrão que o meu?
É a disputa pelo título de menos pior. Um campeonato em que ninguém quer ser o primeiro da tabela, só não quer ser o último.
Compreende-se, claro, a engenharia disso. O ódio mobiliza mais do que o projeto, a acusação cabe num vídeo de trinta segundos e o plano de governo não cabe nem num livro que alguém vá ler. Quem tem voto a ganhar descobriu que sai mais barato apontar o dedo do que apresentar a conta. E o Congresso Nacional — onde, reconheça-se, uma ou outra lei relevante ainda consegue atravessar o lamaçal — passa a maior parte do tempo produzindo discurso para rede social, não para o Diário Oficial. Rara é a proposta que alguém consiga defender dizendo o que ela vai mudar na vida de quem acorda às cinco da manhã.
Enquanto isso, no sinal de trânsito, gente que não tem o que comer balança a bandeirinha de candidato o dia inteiro, debaixo de sol, por cinquenta reais no fim da tarde. Não é militância. É o retrato mais honesto do debate: a miséria contratada para abanar o nome de quem, no palanque, só fala da miséria alheia — a do adversário, bem entendido.
O problema é que o pântano não fica no palanque. Ele sobe pelo ralo e entra em casa.
Entra no almoço de domingo que deixou de acontecer, porque o tio e o sobrinho não conseguem mais sentar à mesma mesa. Entra no grupo da família, que virou trincheira, e na amizade de trinta anos que acabou por causa de um vídeo que nenhum dos dois conferiu. Entra no vizinho que a gente deixou de cumprimentar pela cor da camisa. Entra na desconfiança generalizada, que faz o sujeito duvidar do médico, do professor, do jornal, da vacina, do pedreiro e da urna — e uma sociedade em que ninguém confia em ninguém paga mais caro por tudo, porque tudo precisa ser conferido duas vezes.
E entra, sobretudo, no que deixa de acontecer. No buraco da rua que continua lá, na fila do posto de saúde que é a mesma de sempre, na escola que segue formando criança que lê mas não entende o que leu, no emprego que não nasce porque ninguém investe onde não se sabe o que será amanhã, no filho que termina a faculdade e já pesquisa passagem só de ida. Cada hora gasta decidindo quem é o bandido maior é uma hora que ninguém passou resolvendo o problema menor — aquele que, por acaso, é o nosso.
Há quanto tempo não se lê uma notícia dizendo que o país chegou a algum lugar? Não que escapou do pior, não que o índice podia ter caído mais — que chegou. O ufanismo que nos restou é o do copo que, afinal, não se quebrou por inteiro.
Rezava-se, antigamente, pedindo o pão de cada dia e o livramento do mal. Mudou a oração. Recebemos o pântano, pontualmente, todo santo dia — e já nem pedimos para ser livrados do mal.
Contentamo-nos com o menor.









