Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Vice não é brincadeira

Nenhuma equipe de Fórmula 1 entrega o segundo carro ao primo do sobrinho do diretor — nem mesmo as que vendem o assento, e há as que vendem, todo mundo sabe e ninguém se escandaliza, dispensam do comprador a superlicença, os anos de categoria de base, a demonstração mínima de que, quebrando o titular na primeira curva, o segundo saberá ao menos manter o carro na pista, porque ali circulam milhões, patrocinadores e reputações, e nesse ambiente até o piloto pagante precisa saber pilotar, o que já é mais do que se exige em outras paragens de que falaremos adiante.

O mesmo se diga da empresa séria, que não nomeia vice-presidente por gentileza — e quando a empresa é familiar e o cargo é honorífico, ao menos ninguém finge o contrário, o que é uma forma rudimentar porém respeitável de honestidade —, da companhia aérea, que não escala copiloto porque ele é cunhado do maior acionista mas porque, passando mal o comandante em pleno Atlântico, alguém terá de pousar o avião, e do navio, cujo posto de imediato não se confia a alguém pelos seus belos olhos, posto que, adoecendo o comandante ou caindo ele ao mar no meio do curso, o substituto que não estiver à altura joga o barco nas pedras — talvez distraído, quem sabe, com as comemorações da própria e súbita ascensão.

No privado, portanto, o número dois é coisa séria.

Agora olhemos para o público, e recomendo que o leitor se sente antes.

A cada eleição, o cargo de vice — de prefeito, de governador, de presidente da República — é tratado como moeda de troca no fechamento da chapa, valendo alguns segundos a mais de televisão, valendo a pretensa força política do grupo que o sugere ou, com mais frequência do que a liturgia recomendaria, o impõe, valendo o cheque que ajudou a pagar a campanha, valendo tudo, enfim, menos a pergunta elementar que qualquer dona de casa faria antes de contratar alguém para tomar conta da própria casa: essa pessoa tem capacidade, credibilidade e preparo para, amanhã, exercer o cargo principal?

Porque é disso que se trata, e de mais nada.

Vice não é adorno de palanque nem sócio figurativo — vice é quem assume na ausência, na licença e, como a vida não costuma pedir licença, na morte do titular, e que ninguém venha alegar hipótese de laboratório, visto que a história republicana brasileira é uma generosa coleção de vices que viraram presidentes, Café Filho, Sarney, Itamar, Temer, de modo que este país foi governado, por anos e anos somados, por homens que o eleitor jamais escolheu para o cargo que acabaram exercendo — estatística que deveria constar, em letras garrafais, de todo manual de fechamento de chapa, e não consta.

No Senado, a coisa consegue ser pior, porque são dois suplentes por candidato — dois nomes que o eleitor raramente conhece, quase nunca lê e jamais escolheu, com frequência o financiador da campanha ou o representante de algum grupo de interesse que enxerga no mandato eventual uma conveniente sucursal de lobby —, e quando o titular se licencia para virar ministro, lá está ele, o senador que ninguém votou, votando em nome de todos nós, com a desenvoltura de quem sempre esteve em casa.

Detalhe que a história registra mas que a engenharia eleitoral prefere esquecer: nem sempre foi assim, e já houve candidatura avulsa a vice neste país, tanto que em 1960 o eleitor elegeu Jânio Quadros presidente e, na mesma urna, João Goulart vice — de chapas adversárias, note-se, o que prova que o eleitor, quando lhe dão a caneta, sabe perfeitamente o que fazer com ela.

Podia escolher. Hoje, engole.

Ao votar no titular, o cidadão leva o vice de brinde, sem direito a troca, como esses acessórios que vêm no pacote e cuja inutilidade só se descobre no dia em que precisam funcionar — e compreende-se, claro, a engenharia política, sabe-se que a legislação exige apenas requisitos formais e objetivos, sabe-se que muitas vezes o vice é a própria condição de viabilidade, quando não de elegibilidade, do candidato titular, e sabe-se, sobretudo, que há quem resuma tudo naquela frase de rara pobreza moral segundo a qual em política feio é perder — mas feio, com todo respeito a quem a cunhou e a quem a repete, é outra coisa: feio é o desrespeito ao eleitor, a afronta ao cidadão, o deboche com a instituição.

Por qual razão se dá ao público o tratamento que jamais se daria ao privado?

É aviltante imaginar que possamos ser governados por alguém que, fosse candidato por si só, talvez não alcançasse votos para figurar numa lista de dez, vinte suplentes — e no entanto lá está ele, a um infarto, a uma renúncia, a um impeachment de distância do cargo principal, sorrindo na foto oficial da chapa como quem já mediu as cortinas do gabinete.

Vice não é brinde. Vice é seguro de vida institucional — e seguro, qualquer corretor explica, a gente só descobre se era bom no dia do sinistro.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]