Advogadas são apontadas como elo entre líderes de facção presos e criminosos em liberdade

Com formação voltada à defesa da Justiça, duas advogadas são apontadas como suspeitas de transformar o acesso ao sistema prisional em uma ponte de comunicação entre integrantes de uma facção criminosa. Laís Santos de Paula e Monique Lopes Guerra foram presas durante uma investigação que apura a suposta participação delas no transporte de mensagens, cartas e orientações entre líderes do grupo presos e comparsas que atuavam em liberdade.

Segundo a Polícia Civil (PCES), áudios e documentos reunidos durante o inquérito indicam que as profissionais teriam utilizado a prerrogativa de acesso aos presídios para levar recados entre integrantes da organização criminosa. A investigação aponta que as mensagens envolviam orientações relacionadas ao tráfico de drogas e ordens para ataques.

De acordo com o chefe da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori, um áudio obtido durante as investigações mostra Laís Santos de Paula negociando valores para transportar mensagens após atendimentos realizados em unidades prisionais.

Segundo o delegado, o material reforça a suspeita de que a advogada atuava como elo entre os chefes da facção que estavam presos e os integrantes que permaneciam em liberdade.

Em um dos áudios, Laís fala sobre os valores cobrados para levar os recados:

“Como vão ser os dois no mesmo dia, aí eu vou fazer uma única viagem, eu consigo deixar os dois por R$ 500,00, porque o meu atendimento na Máxima é R$ 300,00 e no Provisório é R$ 250,00. Te dou esse desconto de R$ 50,00, ok?”

A advogada também afirma que começou a transportar cartas durante a pandemia:

“Já tem muito tempo que eu estou nessa também, desde a pandemia, quando começou esse negócio de carta, que eu não parei mais”.

Segundo Sandi Mori, as investigações apontaram que os ataques registrados em outubro do ano passado partiram de ordens emitidas de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima 1, em Viana.

Conforme o delegado, Pedro Cortes Falcão, conhecido como Pedrinho, continuava exercendo influência sobre a organização criminosa mesmo preso e utilizava as advogadas para repassar mensagens e determinações.

“A Laís era o elo de comunicação entre os integrantes da organização criminosa presos e os que estavam em liberdade. Ela é a pessoa que levou a ordem do homicídio e diversas cartas relacionadas ao tráfico de drogas. Nós, junto com a equipe de inteligência da Polícia Penal, verificamos que essa advogada realizou 25 atendimentos a Wesley e 20 a Pedro Cortes Falcão entre 2025 e 2026, alguns deles simultâneos aos dois.”

Ainda segundo Sandi Mori, um desses atendimentos ocorreu em 11 de outubro de 2025, apenas 11 dias antes do primeiro homicídio registrado no bairro Maringá.

O delegado também afirmou que a investigação identificou movimentações financeiras consideradas suspeitas.

“Outro fato que chamou a nossa atenção foi que Laís utilizava a própria chave Pix para transferir valores que eram provenientes do tráfico de drogas para terceiros.”

Segunda advogada é apontada por intimidação

A segunda advogada presa é Monique Lopes Guerra. Segundo a investigação, ela teria usado a profissão para intimidar um homem que monitorava o local onde um dos ataques seria realizado.

Ao todo, 13 pessoas foram identificadas entre mandantes, articuladores, executores e integrantes da rede de apoio da facção. Todos foram presos e indiciados. Dois adolescentes também responderão por atos infracionais.

Ataques tinham como alvo integrantes de facção rival

Os ataques aconteceram em distribuidoras de bebidas nos bairros Maringá e Bairro das Laranjeiras. Conforme a investigação, o objetivo era atingir integrantes de uma facção rival, mas os criminosos erraram os alvos e mataram Luiz Gustavo Pratti Corvello, Mislene Ferreira dos Santos e Wagner da Costa Jardim, pessoas sem ligação com atividades criminosas.

O delegado Rodrigo Sandi Mori destacou que as vítimas foram atingidas por uma ação que tinha outro objetivo.

“Estamos tratando de três vítimas inocentes, que foram mortas de forma covarde por indivíduos inconsequentes e irresponsáveis. Luiz Gustavo não tinha qualquer envolvimento com atividades criminosas, estava trabalhando e acabou sendo morto simplesmente por possuir características físicas semelhantes às do alvo dos criminosos.”

Ao detalhar o segundo ataque, no bairro Laranjeiras, o delegado afirmou que as vítimas também não tinham relação com crimes.

“No caso do duplo homicídio no bairro Laranjeiras, Mislene tinha acabado de chegar ao local para comprar uma cerveja. Ela era faxineira, foi atingida por quatro disparos — nas pernas, nas nádegas e na cabeça — e deixou sete filhos, sendo quatro menores de idade sob a responsabilidade da filha de 21 anos. Wagner também não tinha envolvimento com atividades ilícitas. Ele havia acabado de chegar ao estabelecimento para acompanhar o resultado de um jogo de futebol”.

A Polícia Civil aponta Pedro Cortes Falcão, de 35 anos, o “Pedrinho”, como mandante dos crimes. Wesley Magno Uchoa Braz, de 38 anos, conhecido como “Neném” ou “2N”, teria dado suporte à ação e era apontado como liderança do tráfico em Chácara Parreiral.

No núcleo responsável pelo planejamento aparecem Paulo Sérgio F. Costa, o “Paulinho” ou “PL”, Gilson da Costa Silva, Yuri Andrews de A. Barcellos e José Roberto S. Oliveira Junior, o “Juninho”.

Já Vitor de Faria R. Costa e José Ferreira C. Filho são apontados como responsáveis pelo monitoramento e apoio operacional. Na execução dos atentados, o inquérito cita João Pedro V. de Souza, conhecido como “Tiroteio”, e Brendo Magalhães Silva, o “Perna”, como autores dos disparos. Tiago Laurindo, o “Neguim KMK”, é apontado como motorista do veículo utilizado na ação e segue foragido.

Investigação detalha dinâmica dos ataques

Segundo Sandi Mori, a investigação conseguiu reconstruir a dinâmica do primeiro ataque e identificar a participação dos envolvidos.

“Tiago, João Pedro e Breno saíram de Chácara Parreiral em um veículo Tucson e seguiram até Maringá. Eles ficaram aguardando na distribuidora e, depois, foram até a Redonzeza Distribuidora. O João Pedro desceu do carro usando uma jaqueta verde e uma calça jeans e efetuou disparos contra Luiz Gustavo. Quando a vítima correu, Breno também efetuou tiros, atingindo-a pelas costas e fazendo com que ela caísse.”

O delegado afirmou que a vítima foi atingida mesmo sem possibilidade de defesa.

“Após a vítima estar caída e sem possibilidade de defesa, João Pedro voltou a atirar. Foram sete disparos, sendo três deles na região da cabeça de Luiz Gustavo, que morreu no local.”

Sobre a sequência da ação, Sandi Mori explicou:

“Depois do crime em Maringá, eles retornaram para Chácara Parreiral no mesmo veículo. Breno continuou dirigindo e, em seguida, eles seguiram para o Parque das Laranjeiras, onde pegaram dois adolescentes e realizaram diversos disparos contra as pessoas que estavam em frente à distribuidora.”

Segundo o delegado, os ataques foram planejados, mas atingiram pessoas que não eram os alvos.

“Os ataques foram planejados, mas os criminosos erraram os alvos. Pedro Cortes Falcão é apontado como mandante. Ele entrou no sistema penitenciário em 2011, possui condenação por homicídio e, em 2022, após retornar ao controle do tráfico, teria ordenado a morte de Márcio e da esposa para retomar o comando da atividade criminosa”.

Advogadas são apontadas como elo entre líderes de facção presos e criminosos em liberdade

Resposta às famílias das vítimas

O delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), Jordano Bruno, destacou o trabalho realizado após os ataques e afirmou que a operação representa uma resposta às famílias e à sociedade.

“Após quase um ano de trabalho, identificamos ações criminosas violentas que trouxeram insegurança para bairros da Serra. Foi fundamental atuar de forma rigorosa, produzindo provas para chegar a esse resultado e retirar esses indivíduos de circulação. É uma resposta às famílias das vítimas, à comunidade local e à sociedade. O objetivo é evitar que novos crimes voltem a acontecer, novos ataques sejam realizados por esses integrantes ou até possíveis retaliações”.

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