Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
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Desça do pódio

Há um detalhe cruel no salto em altura que passa despercebido de quem assiste distraído: é a única prova em que todos os atletas, do último colocado ao campeão olímpico, terminam falhando. O sujeito corre, salta, passa por cima do sarrafo, comemora — e a recompensa pela façanha é o sarrafo subir mais alguns centímetros, e subir de novo, e de novo, até que ele o derrube três vezes seguidas e vá embora para o vestiário. A prova nunca termina quando o atleta acerta; termina, sempre e para todos, quando ele erra.

No esporte, isso tem nome: regulamento. Na vida, tem outro: ansiedade.

Pois há muita gente vivendo a própria vida como uma prova de salto em altura que não acaba nunca — cada conquista, em vez de ser celebrada e guardada, vira imediatamente a nova altura mínima obrigatória, o sarrafo cada dia mais elevado, a festa de arromba do ano passado transformada em régua para medir (e reprovar) o aniversário simples deste ano, a viagem espetacular convertida em tribunal que condena as férias no quintal, o resultado excepcional de um projeto erguido em acusação permanente contra todos os resultados apenas bons que vieram depois. E o que era mérito vira dívida, eis que ninguém avisou a essa gente que recorde não é obrigação de todo dia — é exceção, e por isso mesmo tem esse nome.

É o que costumo chamar de síndrome do topo do pódio. Chegar lá em cima, quando se chega, já cobra um preço alto — trabalho, renúncia, sorte, aquele alinhamento raro de esforço e circunstância que não se repete por decreto nem por merecimento. Mas o problema não está em subir; está em querer morar lá. Permanecer no topo para sempre é impossível, e a tentativa drena esforços e recursos que ninguém tem em estoque permanente, exige que a sorte compareça todos os dias no mesmo horário, como se sorte batesse ponto, e transforma cada dia comum — que é, convenhamos, a quase totalidade dos dias — numa derrota por comparação.

O pódio, repare-se, não tem cadeiras. Não foi feito para ficar.

Vale lembrar que até Sergei Bubka, o maior saltador com vara da história, que quebrou o recorde mundial trinta e cinco vezes, subia o próprio sarrafo com uma parcimônia de contador: um centímetro de cada vez — e as más línguas juram que era para embolsar trinta e cinco vezes o prêmio pago por recorde. Verdadeira ou não a maldade, a lição aproveita: o dono do recorde sabia que sarrafo se sobe aos centímetros, com calma e estratégia. Nós, amadores, queremos subi-lo aos palmos, todo santo dia, sem plateia, sem medalha e sem prêmio — cobrando de nós mesmos o que nem o regulamento olímpico cobra de atleta nenhum.

Não se prega aqui, que fique claro, o elogio da mediocridade. As grandes conquistas existem, são legítimas, trabalhamos por elas e merecemos cada uma quando decorre do nosso esforço ou daquele conjunto de fatores a que damos o nome de sorte. Que venham as festas de arromba, as viagens espetaculares, os resultados fantásticos — e que sejam comemorados com o barulho que merecem. O problema não é subir ao pódio; é mudar o endereço para lá. Pódio é lugar de passagem: sobe-se, recebe-se a medalha, tira-se a foto — e desce-se, porque a vida, a de verdade, acontece lá embaixo.

Porque a vida — e aqui está o que a ansiedade, esse mal do milênio, nos faz esquecer — não é o jantar de gala; é o café bem coado com um bolinho na mesa de quem nos atura a existência inteira. Não é o êxtase do título internacional do nosso time; é a vitória apertada de domingo, alternada com derrotas que doem e empates que ensinam — e é exatamente nos empates, nesse placar sem glória que ninguém emoldura, que avaliamos o que nos cerca, aprendemos com os nossos erros e com os alheios, e vamos, sem estardalhaço, nos aperfeiçoando. Os grandes momentos são um por cento da vida, se tanto; quem despreza os outros noventa e nove por cento — as pessoas comuns, as coisas comuns, os dias comuns — não está exigindo excelência de si: está apenas se condenando a perder todos os dias, na comparação desonesta entre o dia de hoje e o melhor dia que já viveu. E autoestima nenhuma sobrevive a um campeonato em que o adversário é a nossa própria melhor lembrança.

E dessa derrota diária, repetida em silêncio, nasce o efeito mais tóxico de todos: a frustração — que não é, como se costuma pensar, a tristeza pelo que faltou, mas a raiva surda pelo que havia e não se soube ver. E frustração, ao contrário da medalha, ninguém guarda na gaveta: ela transborda, azeda o humor, respinga na mesa do jantar, irrita-se com o cônjuge que não tem culpa, impacienta-se com o filho que só queria contar o dia, despreza o amigo cuja vida comum passa a parecer pequena — quando pequena, convenhamos, está ficando é a capacidade de enxergar. E produz ainda um estrago mais discreto e mais grave: a paralisia de quem, convencido de que só o extraordinário vale a pena, deixa de fazer o ordinário — não escreve porque não será a obra-prima, não convida porque não será a festa do ano, não tenta porque não será o recorde. A frustração começa cobrando a perfeição e termina impedindo o começo.

Frustrado não é quem perdeu. É quem venceu uma vez e nunca mais se perdoou por ser gente.

A foto já foi tirada. A medalha já é sua — ninguém a toma de volta.

Desça do pódio: lá embaixo tem café passando, bolinho na mesa e gente que gosta de você exatamente na altura em que você está.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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