Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Quem pintou a zebra

A célebre expressão “não quero saber quem pintou a zebra” remonta a uma gíria comum nos esportes, usada no mundo dos esportes para designar um resultado inesperado, como, por exemplo, a vitória de uma equipe fraca sobre outra considerada superior: “deu zebra!”.

Em poucas palavras, essa frase encapsula uma habilidade milenar: a arte de fugir da responsabilidade.

Afinal, perguntar “quem pintou a zebra?” seria cair na armadilha da accountability, conceito que exprime a responsabilidade de prestação de contas por ações, decisões e resultados, tanto individualmente quanto coletivamente, em um contexto organizacional e que, ao que parece, anda mais rara no “mercado humano” do que troco em dinheiro. Imaginem a cena: lá está uma zebra, listrada de neon rosa e amarelo, chamando mais atenção do que adulto, em festa infantil, dentro da piscina de bolinhas.

Ela é a evidência incontestável de que algo fora do comum aconteceu. Mas, quando chega a hora de descobrir-se o artista por dessa obra, ou melhor, o responsável pelo caos, inicia-se o grande espetáculo da humanidade: o “não fui eu”. Evidências? Testemunhas? Dedos apontados? Nada disso importa! O importante é escapar imaculado.

Afinal, quem quer se comprometer com uma situação tão grotesca, uma “obra” tão esquisita quanto a tal zebra fluorescente? A responsabilidade, para muitos, é como um jogo de pega-pega eterno: ninguém quer ser “o pegador.”

Para outros tantos o que vale é sair de fininho das fronteiras de seu megaprojeto, inicialmente alardeado como a “oitava maravilha”, mas que, ao ruido do primeiro vidro quebrado, seu primeiro exorcista quase sempre é seu criador. Por mais que a gente cresça e envelheça, a maturidade figura para muitos como aquela famosa imagem da cenoura pendurada diante do burro: corre-se à exaustão para alcançá-la, mas ela “foge” do incrédulo e esforçado animal.

Nesse passo, quem já teve filho pequeno sabe que crianças no fundo do quintal com uma garrafa de álcool e uma caixa de fósforos ou empilhando cadeiras para alcançar um objeto na prateleira mais alta são sinônimos de encrenca à vista. Por preguiça ou falta de tino, confiamos na providência do tal “anjo da guarda”, quase sempre um “engenheiro de obra pronta”, quando o capetinha que repousa no ombro oposto é um renitente e incansável plantonista.

E quando os efeitos do desastre atingem interesses públicos antes confiados à guarda ou ao fomento de seu autor (que para merecer tal distinção apresentou-se como o “puro-suco” da eficiência e do zelo), aí surgem desculpas ou evasivas que muitas delas seriam cômicas, não fossem trágicas.

Ora aponta-se como “culpado” algo intangível como “forças ocultas”, ora atribui-se ao espólio de quem se sucedeu, ora simplesmente esconjura-se a paternidade como fez um folclórico político a quem, exibidas fotos suas com a boca na botija, exclamou: “Meritíssimo! Eu não sou eu!” “Ninguém quer saber quem pintou a zebra” é, na verdade, a desculpa perfeita para varrer problemas para debaixo do tapete. Ou melhor, esconder as tais “zebras pintadas” em meio ao rebanho original.

O raciocínio é simples e direto: ignorar o pintor é ignorar o problema. Se não há culpado, talvez nem haja problema, certo? Afinal, se a zebra já está pintada, que diferença faz quem segurou o pincel? O que a expressão ironiza, no fundo, é uma falha coletiva em lidar com a realidade.

Admitir um erro, assumir responsabilidades ou mesmo refletir sobre o impacto das ações são atitudes que exigem coragem, e, nesse passo, torno ao exemplo do troco em dinheiro: hodiernamente raríssimo principalmente em homens e mulheres “publicas”, mais preocupados com seus índices de popularidade para os próximos “projetos artísticos”. Pintar zebras é fácil; difícil é confessar que a tinta nas mãos é nossa.

Mais fácil ainda é apontar para o caos com um leve encolher de ombros e um “não fui eu.” No entanto, cada “zebra pintada” que passa despercebida ou de quem se nega a paternidade como ao filho-feio, é um lembrete: enquanto todos fingirem que o pincel nunca existiu, o mundo ficará mais colorido — e não no bom sentido. No ambiente jurídico, por responsabilidade compreende-se, grosso modo, a obrigação de um sujeito de reparar danos causados por ele a outrem, seja material ou moral, em decorrência de sua ação, omissão, negligência ou imprudência.

Essa obrigação pode decorrer de atos ilícitos ou do descumprimento de deveres contratuais ou, ainda, objetivamente, por imposição legal, quando se assume praticar determinada atividade que está atrelada a determinado risco de dar errado.

A gente, operários do direito, costuma ainda, em alguns casos, prescrutar se houve culpa do agente ou se a tal responsabilidade de reparar o malfeito independe dessa culpa, porém, em quaisquer casos, subjetiva ou objetivamente, quem não lida bem com essa ideia (de ver colado em sua testa a etiqueta de culpado, a assinatura no “rodapé” da zebra pintada) não tem a menor condição de assumir a responsabilidade por fazer qualquer coisa. Todavia parece que estamos cada dia mais irônicos conosco próprios, porque continuamos entregando pincéis e tintas nas mãos de gente que já pintou “monalisas de bigode” ou “gritos da independência com elefantes em cena”. E não por estilo próprio ou por genial transgressão, mas por absoluta e completa incompetência, ou por que mais interessadas em receber a féria antecipada pelo trabalho do que compromisso com a sua qualidade.

Então, da próxima vez que alguém disser que “não quer saber quem pintou a zebra,” pode ter certeza de que ali reside a essência humana: a busca incessante pela fuga do desconforto de assumir o próprio papel em um cenário caótico.

A persistir impávida essa toada, continuaremos a pintar zebras, fechando os olhos para o pincel e admirando, quem sabe, a beleza irônica dessa arte irresponsável, até que não mais tenhamos como diferir as autênticas das caricatas, as originais de suas cópias, as verdadeiras daquelas que nos são impostas de qualquer maneira e forma, já não tendo mais a quem imputar a responsabilidade pelo desatino, ou de quem reclamar nosso “dinheiro de volta”.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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