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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

Vitrines

As guerras e as grandes tragédias, coletivas ou pessoais, revelam o que há de pior e de melhor nas pessoas. Engana-se profundamente quem as considera como causas do mal em si mesmo. Nunca foram. Nunca serão. Também se engana quem acha que elas, as guerras e as tragédias (essas últimas quando decorrentes de algum agir humano) são consequências de uma espécie de processo tramado, planejado, urdido por algum sujeito, ou vários, no objetivo de alcançarem algum proveito pessoal, mesmo que comercial, causando dor e morte a determinado contingente de pessoas.

Claro que, em alguns casos, os aproveitadores, sempre de plantão, como urubus pousados num desses galhos da vida, vão encontrar brechas, ou avenidas, para fazerem passar seus interesses, como, aliás, expressa bem uma frase tão antiga quanto “andar para frente”: em tempos de guerra, enquanto uns choram seus mortos, outros sorriem vendendo caixões.

São resultado (das guerras e tragédias provocadas pelo homem ou de sua reação quando as últimas decorrem de fenômenos da natureza) de um conjunto de fatores que contemplam não apenas o somatório de propósitos e valores deturpados e inconsequentes de um número expressivo de pessoas, mas também de sua absoluta falta de noção, de perspectiva ou de prioridades sobre tudo o que nos cerca.

Aos que julgam que o centro do universo fica naquele pequeno orifício que carregamos no meio da barriga e aos que imaginam que tudo o que importa na vida está ao alcance de suas mãos, aderem os que sonham com o paraíso das 70 virgens, do nirvana budista ou do reencontro com o ser amado, já partido, em campos verdejantes em floridos onde correm rios de mel, muito embora passem o dia aumentando o fogo do inferno do vizinho.

Muitos de nós “viajamos na maionese”, azeda, acrescento, de que a Terra depende – sua salvação – de nossos esforços, de nossa consciência ambiental, de nossa mudança de paradigmas quando, perdoem-me a franqueza, o planeta não está “nem aí” para a hipótese, cada dia mais provável, de nosso fim enquanto espécime dominante. Numa boa?

Esse pequeno globo azul, que flutua errante pelo espaço sideral, já passou por pelo menos (as conhecidas) cinco extinções em massa, de seres unicelulares à dinossauros e grandes mamíferos, de modo que, mais uma, menos uma, pouco “lhe importa”: decorridas dezenas ou centenas de milhões de anos de nossa despedida existencial, outros seres estarão por aqui passeando, com suas características, necessidades e adaptabilidades, até que um meteoro, muito gelo ou o novo aquecimento global tornem a “zerar o odômetro”.

Muita pretensão nossa julgarmo-nos responsáveis pela saúde ou pela salvação da Terra, quando, na verdade, somos ou seremos somente os protagonistas de nosso próprio extermínio ou salvação. Ainda temos – pouco, é verdade – tempo para escolhermos qual será o ato final dessa peça de teatro chamada “Vida”.

A bola da vez, pelo menos para os brasileiros, é o que está acontecendo nesse momento no Rio Grande do Sul. Por incontáveis motivos e, também, de diversas maneiras distintas isso poderia estar acontecendo em Sergipe, Nova Iorque ou Xangai. Pessoas, bichos, casas, empresas, vidas, individual ou coletivamente consideradas, são diariamente ceifadas por inundações, incêndios, pandemias, violências de todos os gêneros em qualquer canto do globo, afogadas ou assassinadas, explodidas ou soterradas, inobstante gordas ou magras suas contas bancárias, nobres ou miseráveis seus endereços?

O calibre da arma, a qualidade da lâmina, a origem da água ou a raridade da bactéria de nada importam aos cadáveres que elas produziram. A questão é se vamos ficar eternamente aguardando uma solução milagrosa partida de algum herói planetário ou de alguma instituição credível por todos os viventes – o que até esse exato momento jamais existiu – ou se em algum momento vamos nos dar contas e implementarmos a efetiva e eficaz mudança, que é individual, interna, possível apenas quando cada um de nós assim nos comprometermos a fazê-lo.

Os problemas estão aí, literalmente batendo às nossas portas. E, outra ponderação amarga (mas necessária): eles vão crescer e se agravar mais ainda nos anos vindouros, seja pelo viés da natureza, que não reconhece títulos de nobreza nem circunstâncias especiais, seja pelo aspecto de nossas condições humanas, cada dia mais amofinadas e mediocrizadas por temas e discursos que caem bem nos eternos palanques, mas absolutamente nada melhoram nossas condições de vida ou alargam nossas perspectivas de sobrevivência.

Esses episódios traumáticos, naturais ou provocados, são, como o título do artigo, vitrines da alma humana. Como dito acima, em tempos de conflitos e tragédias, armas de destruição em massa são aperfeiçoadas e produzidas à exaustão, exaurindo orçamentos de países que sequer têm condições de proverem sua própria subsistência. Técnicas de tortura e morte são evoluídas, e exterminar ou menoscabar quem é, vive, pensa ou nasceu diferente de outros ocupam a ordem do dia, todavia atos de generosidade, de grandeza, de solidariedade e compaixão também afloram muitas vezes de pessoas que sacrificam o quase nada que têm ou suas próprias vidas para salvarem desconhecidos, permanecendo no anonimato, sem glorias, aplausos ou reconhecimento.

É questão de escolha? Sim, mas para além disso, ninguém dá o que não tem, nem consegue ser melhor do que parece, ainda que possa ser muito pior, quando deixa aflorar o que existe escondido debaixo do monte de lixo que lhes oprime a existência.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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Comentários
  1. Reflexões duras, claras e necessárias de serem feitas por cada um de nós. Enquanto ainda nos resta algum tempo. Parabéns, Varella. Abraço fraterno

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