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16 de abril de 2024
terça-feira, 16 de abril de 2024
Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

Tia Magá

Dia desses, numa ocasião nada festiva (velório de um amigo), encontrei Margarida Daher Carneiro. Nome pomposo para alguém que exala simplicidade, mas paradoxalmente adequado para sua realeza. Aliás, um dos quitutes mais famosos do mundo, a pizza Margherita, recebeu seu “nome” em homenagem à rainha homônima, esposa do rei italiano Umberto I, quando o casal visitava Nápoles, origem dessa iguaria universal.

O branco da mozzarella, o vermelho do molho de tomate e o verde do manjericão compõem as cores da bandeira daquele país, e os ingredientes da iguaria. Tia Magá, que eu saiba, não batizou pizza alguma, mas junto, com Geraldo – que inverte, sem ressalvas nem prejuízos, a famosa frase “por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher” –  plasmou o que hoje é uma das melhores escolas do Estado e do país: a São Domingos.

Não começou grande, todavia, essa academia da vida, mas pequenina, embora embrionariamente vitoriosa, como a gente percebe em qualquer projeto que reúne amor, qualidade, racionalidade, paixão e muito trabalho. Era, então, “MUSD”, Mini Universidade São Domingos, sigla que vinha sob o desenho de um guri de boné, pastinha na mão, simulando seu primeiro passo no mundo.

Pequeno passo (permita-me Armstrong) para uma caminhada até aqui plena de êxitos, que mais do que informar, formou dezenas de milhares de cidadãos e cidadãs capixabas. Em tempos nos quais valores, outrora festejados, hoje são até escarnecidos, pequenos detalhes atestam o sucesso da receita de nossa querida Mestra-maior. Um deles: não se ouve falar de nenhum ex-aluno dali, quer da pequena “MUSD” ou de suas filhas gêmeas São Domingos, envolvido em casos escabrosos e tretas e que vão-se acumulando em nossos dias.

A água ou o ar dali certamente não foram os responsáveis por isso. Mas a noção de mundo, humanidade, responsabilidade, respeito e tolerância, além do compromisso de excelência em cada detalhe, esses, sim, sedimentaram-se e frutificam na vida dos egressos e florescem em seus filhos e netos lá frequentes. Vale lembrar que se retornar a um restaurante, trocar um veículo por outro de mesma marca ou assistir novamente um filme são sinais de satisfação e confiança, o que dizer da decisão de alguém que, podendo escolher outra, matricula seus filhos na mesma escola onde estudou? Histórias são muitas e, mesmo diversos seus protagonistas e versões, todas elas ou se originam ou desaguam naquela que, muitos anos antes da chegada de Xuxa ao nosso universo, já era a rainha dos baixinhos de Bento Ferreira.

Permito-me contar uma delas, para mim significativa. A escola organizou uma pequena exposição intitulada “Riquezas do Espírito Santo”, dispondo algumas delas em prateleiras no corredor central. Lá estavam conchas do mar, a indispensável panela de barro, grãos de café, de cacau, outras coisas que me falham à memória, e ele, um vidrinho transparente, com tampa de rolha, com o rótulo “petróleo de São Mateus”. Criança curiosa, peguei-o nas mãos para ver de perto aquele tesouro e, por descuido, deixei-o cair no chão, derramando o conteúdo no piso. Como toda arte infantil traz embutido em si uma espécie de ímã “atrai-adulto”, atrás de mim estava, “poderosa e onipresente diretora”, situação tal qual pular uma janela e cair na frente do delegado de polícia. Trêmulo, porém consciente da traquinagem, ensaiei uma defesa prometendo conseguir outro daqueles, para repor o quebrado.

Ela, na expressão de autoridade mais generosa, autêntica e querida que presenciei na vida, disse apenas “Disso cuido eu… a gente tem que aprender a ver com os olhos, Gustavo! O que quero de você, para a semana que vem, é um trabalho sobre o ‘petróleo”, escrito em papel almaço e com sua letra”. E continuou “Para fazer isso você pode consultar o que tiver em casa de livro ou, se precisar, empresto!”.

Eu tinha 8 ou 9 anos. Até então fazia os deveres de casa, prestava atenção nas aulas e brincava. O castigo-desafio exigiu de mim a leitura da Barsa, a elaboração mental do texto, sua escrita caprichada e a coragem de entregá-lo na semana seguinte. Aprendi ali um tiquinho sobre petróleo, mas um “ticão” sobre projeto, estudo, dezenas de outras coisas existentes naquela enciclopédia e em outras tantas que li depois e, mais, no consumo feliz de tantos livros inspirados no primeiro, de Monteiro Lobato, um “cara” que conheci naquelas pesquisas sobre o tema indicado.

Isso foi pouco, pouquíssimo, perto de tudo que comecei a enxergar a partir do gesto dela, mais que dona de escola, diretora ou professora.

Já se vão trinta anos de experiências pessoais no Magistério Superior, bem como convivência com colegas de cátedra ou professores meus. Títulos acadêmicos, outrora raros e dispendiosos – mestre, doutor etc. – hoje são mais frequentes em nosso mundo. E todos os que lecionam, em qualquer nível de ensino, sabem que um “obrigado” sincero pela explicação, pelo tempo dedicado ou pelo carinho ofertado é a maior paga que um professor pode receber. Já os dei a muitos e com outros ainda estou em débito.

Acho que a ela, pelo tempo que desfrutamos juntos e, mesmo hoje com pouco contato, já agradeci. Mas existem casos em que todo muito ainda é pouco, principalmente a alguém que expressa a mais perfeita acepção do termo “EDUCADORA”, assim, com todas as maiúsculas, galardão que não se vê escrito em pergaminho nem outorgado por universidade outra senão a da vida.

Obrigado, Tia Magá!

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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