A maioria das pessoas costuma fundir esses dois termos do título como se possuíssem o mesmo significado. Como se perfeitos sinônimos fossem um do outro. Esse tipo de confusão, advinda da ignorância que nos afeta na maioria das áreas de conhecimento, quando vista na construção de discursos ou até de nosso raciocínio, termina por contaminar conclusões e julgamentos que fazemos a cada minuto do nosso dia a dia.
Talvez porque ambos, a ingenuidade e a inocência, nos remetam à imagem de crianças de tenra idade (que em geral são ambas as coisas), terminamos por aceitar a fusão desses conceitos, trocando um pelo outro na avaliação de condutas humanas, quase sempre no afã de justificar algum erro de quem queremos proteger. Quando agimos assim, nós que não somos nem ingênuos e tampouco inocentes, e o fazemos conscientemente, normalmente coonestamos atos que até criminosos podem ser.
Ingênua é, quando perfeitas as suas faculdades mentais, aquela pessoa desprovida de defesas físicas, intelectuais ou emocionais fruto da falta de experiência, forma de criação, idade ou ignorância mesmo. Recorrendo, pelo lado fisiológico, novamente às crianças, o ingênuo é como o recém-nascido que precisa receber vacinas contendo vírus, atenuados ou neutralizados, de uma doença grave, para que seu sistema imunológico apreenda a identificar e se defender desses patógenos quando for exposto a eles. Muitos de nós recebemos essas “vacinas” em tenra idade, e vamos diminuindo nossa ingenuidade no correr da vida.
Outros tantos preferimos cultivar nossa ingenuidade por ignorância, ou somos mantidos nela por gente inescrupulosa ou criminosa. Ou ambos. Já o inocente, originariamente, é aquele desprovido de má-fé, que segue um modelo de retidão moral ou ética, que preza pela integridade muitas vezes por repetir valores e conceitos alheios que lhes foram ensinados como corretos. Todavia quando se depara com uma situação ou circunstância que percebe totalmente contrárias àquelas ideias, práticas ou crenças que julgava corretas e, mais que isso, quando conclui, muitas vezes com desgosto íntimo por ter andado em via oposta, que seu agir e sua maneira de pensar agridem o senso comum e representam o exato contrário, nesse exato instante perde sua inocência e passa a ser piloto exclusivo de sua consciência, dono único de suas escolhas, senhor definitivo de seu caráter.
Existe um princípio no Direito, aplicado desde o Império Romano, que diz que “ninguém pode se escusar de cumprir uma lei, alegando que não a conhece”. É que nossa legislação tem inspiração no chamado Direito Natural, onde prevalecem o “certo e o errado intuitivos”. Pode parecer extremamente rigoroso aplicar igualmente esse princípio a um experiente operador do sistema financeiro e a um matuto analfabeto, ambos apontados autores de um mesmo crime tributário complexo. Mas o contrário implicaria na criação de um esdrúxulo sistema de castas penais, que atenuaria a pena de ignorantes e aumentaria a dos letrados em proporção direta ao seu grau de instrução.
De certa forma seria até justo, mas duvido que os doutores da vida, principalmente os vocacionados ao delito, topariam correr esse risco legislativo. Tornando aos paradigmas da ingenuidade, crianças, até mesmo em idade pré-escolar, reagem naturalmente com pavor, medo e repulsa diante de um ato perceptível de violência, ainda que jamais tenham lido leis penais ou estudado conceito de tipicidade.
De igual forma, vão apreendendo desde cedo que é feio tomar as coisas dos outros, bater no amiguinho, quebrar as coisas alheias, fazer pirraça no meio da rua ou contar mentira para a mamãe, a não ser que sejam estimulados a assim agir ou sucumbam a promessas de prêmios por isso. Mas isso, como no caso do exemplo acima, exige a participação de algum adulto mau-caráter que lhes mantenha na ingenuidade ou lhes explore a ignorância.
Manter-se ingênuo pode ser escolha de quem se orgulha de sua própria estupidez. E não nos enganemos: existe muita gente que acredita que obscuridade é mérito ou, no mínimo, moldura de bom-caratismo.
Quanto à inocência, sua definição não depende de nós: ela decorre de avaliações externas daqueles que nos julgam diante de fatos à nós atribuídos.
Por mais que nos esforcemos para assim parecermos ou para convencermos os outros de que nada fizemos ou em nada participamos daquele ato reprovável, são elementos externos à nossas crenças e valores, muitos deles materiais, que são usados para definir o tamanho, a cor e até o cheiro do rótulo que será pregado em nossas testas.









