Tem gente que vai lembrar do dia 25 de outubro pelo resto da vida. A senhora que chorou na frente da televisão, na cozinha apertada da periferia. O rapaz que saiu de moto buzinando pelo bairro sem saber direito para onde ia. A professora que mandou mensagem para a mãe às dez da noite só para dizer: deu certo. O Brasil que não esquece de onde veio
Três semanas antes, muita gente tinha ido dormir com um nó na garganta. O primeiro turno terminou com o bolsonarismo na frente e com o maior partido da extrema direita ocupando a Câmara como nunca. Parecia que o país estava escorregando de volta para um lugar escuro.
E então o Brasil fez algo que nunca tinha feito desde a redemocratização: virou o jogo no segundo turno. Não foi milagre. Foi gente indo de porta em porta, foi vizinho convencendo vizinho, foi o povo mais simples decidindo que não ia entregar o próprio futuro de mão beijada.
Mas aí vem a pergunta, repetida nas redes com ar de deboche: como pode o mesmo povo que elegeu um Congresso tão à direita escolher Lula? A resposta é mais bonita do que parece.
Quem tem fome não vota por moda

O eleitor escolhe seu deputado por mil motivos: o pastor da igreja, o vizinho que virou vereador, o candidato que apareceu no vídeo certo na hora certa. Mas quando a pergunta é quem vai cuidar do país inteiro, o povo pobre sabe muito bem de que lado está a mesa posta.
Foi a esquerda que tirou o Brasil do Mapa da Fome, não uma vez, mas duas. Foi ela que transformou o Bolsa Família em sobrenome de milhões de famílias, que levou luz elétrica para onde só havia lamparina, que abriu a porta da universidade para o filho do pedreiro e a filha da empregada doméstica. Há casas neste país em que o primeiro diploma pendurado na parede tem a data de um governo petista.
Isso não é estatística para quem viveu. É memória no corpo. É lembrar do tempo em que o feijão faltava e do tempo em que voltou. Quando chega a hora de escolher o presidente, essa memória fala mais alto do que qualquer campanha de rede social.
O compromisso da esquerda com os mais pobres não é um slogan de eleição. É a razão de ser de um projeto que nasceu nas portas de fábrica, nas comunidades eclesiais de base, nos sindicatos e nas periferias. Um projeto que insiste numa ideia simples e ainda revolucionária no Brasil: o orçamento público também é do povo que mais precisa dele.
O medo tem memória
Ninguém esqueceu. Ninguém esqueceu as filas de oxigênio em Manaus, os caixões empilhados, o presidente que imitava gente sem ar enquanto o país enterrava seus mortos. Ninguém esqueceu a vacina que demorou a chegar e as risadas diante da dor alheia.
Ninguém esqueceu o 8 de janeiro, as vidraças do Supremo estilhaçadas, as cadeiras do Congresso reviradas, a democracia vandalizada por quem dizia defender a pátria. Nem que o ex-presidente acabou condenado pelo Supremo por tentar um golpe de Estado. Isso não é teoria, não é exagero de militante. É história recente, com nome, data e sentença.
Quando o sobrenome Bolsonaro voltou a liderar a contagem na noite do primeiro turno, foi essa memória que acordou. Mães que perderam filhos na pandemia, servidores ameaçados, artistas perseguidos, professores tratados como inimigos, povos indígenas que viram seus territórios invadidos. Gente que sabe exatamente o que significa a volta daquele projeto.
O medo, às vezes, é a forma mais lúcida de amor pelo país. E foi esse medo, transformado em coragem, que encheu as ruas no segundo turno e virou voto em cada canto do Brasil.
As ruas lembraram o caminho
Depois do primeiro turno, muita gente achou que a eleição estava perdida. Os analistas de televisão já falavam em favoritismo, o mercado já fazia as contas, as redes já comemoravam. Esqueceram de combinar com as ruas.
Nas três semanas seguintes, o Brasil viu uma coisa que andava esquecida. Gente de camiseta vermelha nas praças de cidade pequena. Bandeiras penduradas nas janelas dos conjuntos habitacionais. Caminhadas que começavam com vinte pessoas e terminavam com quinhentas. Feiras livres transformadas em comício, ponto de ônibus virando roda de conversa, o carro de som do bairro tocando jingle até tarde da noite.
Não era a militância de sempre. Era a merendeira, o motoboy, a diarista, o estudante do cursinho popular, o aposentado que tirou o boné do armário. Gente que nunca tinha panfletado na vida e de repente estava batendo na porta do vizinho para conversar, sem grito, sem ódio, só lembrando do que estava em jogo.
O próprio presidente disse, na manhã da votação, que nunca tinha visto uma mobilização assim. Quem esteve nas ruas sabe que ele não exagerou. A virada não saiu de nenhum gabinete. Saiu da calçada.

Velho, nove dedos e de pé
Durante toda a campanha, uma parte do outro lado escolheu um argumento curioso: a idade. Lula é velho demais, diziam. Vai morrer no mandato, não aguenta, já passou da hora. Vídeos editados para mostrar tropeços, montagens com bengala, piadas sobre fralda e asilo circulando nos grupos de família.
O que essa gente não percebeu é que, a cada piada, ofendia milhões de brasileiros. O Brasil envelhece rápido, e os idosos são a avó que cria os netos, o aposentado que sustenta a casa inteira com um salário mínimo, a senhora que nunca faltou a uma eleição. Quando se debocha de um homem de oitenta anos por ser velho, se debocha também deles. E eles ouviram.
Etarismo é preconceito, e preconceito tem preço nas urnas. Muitos idosos lembram do Brasil antes e depois dos governos de Lula: o salário mínimo que voltou a valer alguma coisa, o remédio de graça na farmácia popular, o neto que entrou na faculdade. Para eles, a experiência de um homem que já governou o país por três mandatos não é defeito. É garantia.
E teve o deboche mais antigo de todos: os nove dedos. Há décadas o dedo que Lula perdeu é tratado como piada, como marca de ignorância, como prova de que um peão não deveria ocupar a cadeira de presidente. Mas aquele dedo ficou numa prensa de fábrica quando ele era um jovem metalúrgico, trabalhando de madrugada para ajudar a mãe. É a cicatriz de milhões de trabalhadores mutilados num país que sempre tratou o corpo do pobre como descartável.
Rir dos nove dedos é rir de todo operário que perdeu a mão numa máquina, de todo cortador de cana com as costas destruídas, de toda costureira com os dedos furados. A elite que zomba dessa mão nunca entendeu por que ela é levantada com tanto orgulho nos palanques. Ela não é sinal de fracasso. É o símbolo de quem saiu do chão de fábrica e chegou lá, sem esquecer de onde veio.
O Congresso não fala sozinho pelo povo
Sim, a Câmara que toma posse em 2027 será dura. A extrema direita chega com força, e o centrão, como sempre, vai cobrar caro cada voto. Mas é preciso dizer com todas as letras: a eleição de deputados não é um plebiscito sobre o país.
O voto para o Legislativo é fragmentado, local, muitas vezes capturado por máquinas de emenda, por igrejas transformadas em currais eleitorais, por influenciadores que viralizam ódio. Um único fenômeno das redes arrasta para Brasília colegas que quase ninguém conhece. Isso não é o retrato fiel da alma brasileira. É o retrato de um sistema que favorece quem tem dinheiro e estrutura.
Já a eleição presidencial é o único momento em que cada voto vale exatamente o mesmo, do sertão à avenida Paulista. E nesse momento, olhando nos olhos de duas escolhas para o país, a maioria disse não ao retrocesso.
Por isso o resultado não tem nada de estranho. O povo escolheu seus representantes por razões pequenas e seu presidente por uma razão grande. E a razão grande foi a dignidade.
A democracia ainda é nossa
Os próximos quatro anos não serão fáceis. Cada programa social será disputado no voto, cada direito terá de ser defendido em plenário, cada avanço vai custar suor. Mas há uma diferença enorme entre lutar com o governo ao lado do povo e lutar contra um governo que despreza o povo.
O Brasil que foi às urnas no dia 25 não esqueceu de onde veio. Lembrou da fome, lembrou do luto, lembrou do golpe que quase aconteceu. E escolheu, mais uma vez, acreditar que um país desigual como o nosso só tem futuro se ninguém for deixado para trás.
Isso não é contradição. É consciência. É a democracia sendo exercida por quem mais precisa dela.
Quem perde, foge; quem vence, fica
E enquanto o povo comemorava, o derrotado fazia as malas. Na noite de 25 de outubro, Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado. Agarrou-se à prorrogação de duas horas na votação, decidida pela Justiça Eleitoral por causa de problemas no transporte público, para insinuar que alguma coisa estava errada. Prometeu pedir a cassação da chapa vencedora. Velhos hábitos.
No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes mandou recolher seus passaportes e o proibiu de deixar o país. O prazo para entregar os documentos venceria ao meio-dia de terça. Antes disso, Flávio já estava a caminho dos Estados Unidos, onde foi encontrar o irmão Eduardo na Flórida. Os passaportes nunca chegaram às mãos da Justiça.
O mesmo homem que gravou vídeo dizendo que nunca tinha pensado em sair do país saiu do país. Deixou para trás investigações no Supremo, que ainda vão seguir seu curso, e um eleitorado que acreditou nele até a última urna. Juristas lembram que, sem ordem de prisão, ele não é tecnicamente um foragido. Mas descumprir uma ordem da mais alta corte do país para atravessar a fronteira tem nome popular, e todo brasileiro sabe qual é.
O DNA golpista
Nada disso é novidade. É herança. O pai passou quatro anos atacando as urnas, não reconheceu a derrota de 2022, viu seus apoiadores destruírem a Praça dos Três Poderes e acabou condenado pelo Supremo por tramar um golpe de Estado. O irmão Eduardo mudou-se para os Estados Unidos em 2025, de lá articulou pressão estrangeira contra o próprio país e foi condenado pelo Supremo por coação. Agora o primogênito repete o roteiro: desconfia do voto, desafia a Justiça e atravessa a fronteira.
É um padrão que se repete com uma precisão quase genética. Quando ganham, a democracia serve. Quando perdem, a urna é suspeita, o juiz é inimigo e o Brasil vira um lugar do qual é preciso escapar. Nunca, em nenhuma dessas vezes, a palavra foi “aceito”. Nunca foi “parabéns”. Nunca foi “vamos fiscalizar o governo dentro das regras”.
O contraste diz tudo. De um lado, um homem de oitenta anos e nove dedos, que foi preso, foi humilhado, perdeu eleições e nunca fugiu do país. Que esperou, cumpriu cada decisão e voltou pela única porta que a democracia reconhece: o voto. Do outro, um herdeiro que, na primeira derrota, preferiu o aeroporto.
O povo brasileiro viu as duas coisas. E é por isso que, no dia 25, escolheu ficar com quem nunca fugiu…









