Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.
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Um ano sem Marcos Martins

18 de setembro completa-se um ano da morte de Marcos Martins, artista visual, arquiteto e professor cearense que fez do Espírito Santo seu território de trabalho e da Universidade Federal do Espírito Santo sua trincheira intelectual. Ele morreu enquanto dormia, precocemente, aos 51 anos, deixando um vazio que a cena cultural capixaba ainda tenta medir.

Não tive com Marcos uma relação de amizade, mas tive  a relação mais discreta e talvez mais duradoura que existe entre quem observa e reconhece: o respeito. E é justamente desse lugar, o de quem acompanhou de fora a extensão do que ele construiu, que me sinto no dever de escrever sobre sua falta.

Um ano sem Marcos MartinsFormado originalmente em Edificações , Marcos fez do próprio corpo em trânsito pela cidade sua matéria de pesquisa. Doutor em Poéticas Visuais pela ECA/USP, definia-se como um “bioconstrutor poético” , expressão que resume bem o que foi sua obra: arquitetura e crítica de arte contemporânea fundidas em intervenções urbanas, performances e instalações que discutiam, com rigor e delicadeza, práticas decoloniais do corpo e da arquitetura em diálogo com a paisagem e a natureza.

Perguntava, através de seu trabalho, se os espaços públicos acolhem ou expulsam a dignidade humana , uma pergunta que ele levava tanto para as ruas de Fortaleza, onde iniciou suas intervenções, quanto para as salas de aula de Vitória.

Professor de Artes Visuais na Ufes desde 2010, foi gestor da Galeria de Arte e Pesquisa (GAP) em dois períodos ,2010-2014 e 2018-2019 , e chegou à vice-direção e, depois, à direção do Departamento de Artes Visuais.

Participou das edições 75 e 76 do tradicional Salão de Abril e, em 2025, se preparava para lecionar no programa de Poéticas Contemporâneas da Vila das Artes. Sua última exposição, “Pele Abissal”, reuniu 23 anos de produção artística e se tornou, sem que ninguém pudesse prever, uma espécie de síntese e despedida.

Nenhum currículo, porém, explica por que sua morte foi sentida como perda pessoal por tanta gente que passou por suas salas de aula, seus ateliês, suas viagens de trabalho. Isso quem explica melhor é Nannan Cardoso, aluno, parceiro e um dos amigos mais próximos de Marcos, em um relato que reproduzo aqui quase por inteiro, porque nenhuma paráfrase daria conta da intimidade que só quem foi, de fato, “um dos dele” pode registrar:

Pra que serve um amigo? ou Quando se faz um amigo? Se não for, na verdade, um “Como se tornam amigos?” Eu não esperava uma amizade como essa. Por um lado, surgiu em um dia de montagem da primeira exposição organizada por Marcos Martins, Nannan, Natália e Tainá na galeria DADA localizada no cemuni 2, do Centro de Artes da UFES. Alí no meio do pátio, um viu o outro entre o silêncio das palavras e o ressoar dos barulhos de inchada. Capinando detalhes que até para os próprios olhos de quem viu, não haviam sido percebidos. Nas entrelinhas da ação, talvez, tenha sido pego na infância do seu quintal no Ceará. O outro continuou sem perceber que havia sido percebido. O dia seguiu e se passou.

Só quando Marcos me relembrou desse dia, dizendo “Alí vi que você era um dos meus. Até falei para o Carlos”, foi que eu me questionei sobre o quando, pra mim, nos tornamos amigos. O fato de questionar me fez tentar responder todas as perguntas que buscavam solucionar a questão. Tá, o que fez daquela simples ação especial? Como um professor pode achar que eu seja um dos dele? Mas será possível que eu seja?… Por alí foi indo e confesso que ainda vem. O tempo foi curto demais. Embora todo tempo vivido era resposta cotidiana de que realmente nós éramos um dos nossos. Marcos não só respondeu com gestos, palavras, ações e silêncios como criou em mim novos questionamentos, extremamente importantes para minha percepção de mundo, sociedade, individualidade, coletividade, amor, família, amizade e tantas outras que ainda surgem, mas agora com respostas ora produzidas pelas memórias do que foi vivenciado, ora pelos dele que ele me deixou.

Dani, Marcos André, Marcos Joel, Simão Ravi, Fátima, Alemão, Carlos, Aline, Diego, Giuliano, Fabíola, Lia, Ormar e cada dia aparece mais algum dos dele…

É Marcos, agora posso te dizer que um ano sem você parece uma vida, porque um ano com você foi uma vida. Sinto saudades do seu abraço acolhedor, da sua risada seguida de um “cê beeeeexta” seguidas de “bobu né”. Agora eu te digo, “kkkkkkkkk. Você é massa cara!”. Viajar a trabalho com você foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Alí me senti filho e nunca tive coragem de te falar, parecia muito e não parecia possível. Aprendemos muito um com o outro, admiramos muito um ao outro.

Descobri pela Dani, após sua partida, que você me considerava como filho. Tenho conhecido mais de Marcos por outras pessoas atravessadas por ele, tem sido um conforto perceber a gentileza que todos carregam. Assim venho compreendendo a amizade como uma conexão que nos faz sentirmos seguros nos movimentos da vida com a certeza de que, se olhar para um dos seus, não irá se perder no caminho.

— Nannan Cardoso, aluno e principal parceiro de Marcos Martins

É esse relato que dá carne à estatística fria de “51 anos, professor de Artes Visuais, morto em 18 de setembro de 2025”. Porque o que fica de um professor não se mede em currículo Lattes, mede-se na quantidade de gente que, um ano depois, ainda se apresenta como “um dos dele”.

E é aqui que o jornalismo e o luto se encontram: relatar a obra de Marcos Martins sem relatar essa rede de afeto que ele deixou seria uma cobertura incompleta. A Ufes perdeu um pesquisador que discutia decolonialidade e corpo com a mesma seriedade com que discutia o cotidiano da sala de aula.

O Espírito Santo perdeu um dos nomes que ajudaram a reposicionar Vitória no mapa da arte contemporânea brasileira, ao lado de colegas que hoje se dedicam a manter viva a Semana de Arte da Ufes e a Galeria de Arte e Pesquisa que ele ajudou a construir.

Uma geração de artistas e pesquisadores perdeu, precocemente, alguém que ainda tinha muito trabalho pela frente , a exposição “Pele Abissal” não deveria ter sido, mas acabou sendo, sua despedida.

Um ano sem Marcos Martins

Um ano depois, a rede está vazia, como escreveu outro colega seu, o também professor da Ufes Ricardo Maurício Gonzaga, em texto publicado dias após a morte de Marcos. Acrescento  dizendo  que a rede está espalhada. Está em cada aluno que Marcos “capinou” até revelar para si mesmo, em cada intervenção urbana que ele deixou como método de se pensar a cidade, em cada pessoa que, como Nannan, ainda hoje descobre que também era “um dos dele”. Não fui uma delas. Mas escrevo este texto porque reconheço, com respeito e sem exagero, o tamanho do que a arte e o ensino capixabas perderam quando Marcos Martins nos deixou.

Com a colaboração de NANNAN Cardoso

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.

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