A disputa pelo Governo do Espírito Santo em 2026 também coloca em debate o futuro da cultura capixaba. Embora o pleito tenha outras candidaturas, Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini aparecem entre os nomes mais competitivos e representam perspectivas diferentes para um setor que conquistou espaço, investimentos e reconhecimento nos últimos anos.
Durante muito tempo, a cultura produzida no Espírito Santo precisou enfrentar a falta de continuidade das políticas públicas, a escassez de recursos e a dificuldade de inserção nos circuitos nacionais. Artistas, produtores, pesquisadores e espaços independentes sustentaram grande parte dessa produção mesmo quando o poder público não oferecia condições suficientes para seu desenvolvimento.
Esse cenário começou a mudar de maneira mais perceptível nos últimos anos. A ampliação dos mecanismos de fomento, a abertura de novos espaços, a retomada de equipamentos históricos e a circulação de artistas capixabas dentro e fora do Estado contribuíram para fortalecer o setor. A cultura passou a ser compreendida não apenas como programação eventual, mas como uma área capaz de produzir conhecimento, preservar memórias, gerar trabalho e transformar a relação da população com as cidades.
Ricardo Ferraço representa a continuidade administrativa desse processo. Embora não possa ser considerado o responsável exclusivo pelo trabalho desenvolvido durante todo o atual ciclo governamental, sua candidatura está vinculada ao grupo político que conduziu as principais ações culturais dos últimos anos. Seu programa de governo sinaliza a manutenção das políticas existentes e a consolidação de projetos iniciados pela atual gestão.
Para a cultura, continuidade significa previsibilidade. Um setor constituído por projetos de médio e longo prazo não pode depender exclusivamente das mudanças eleitorais. Exposições, pesquisas, restaurações, programas educativos, festivais e ações de formação exigem planejamento, orçamento e compromisso institucional. Quando uma política é interrompida, não se perde apenas um evento: perdem-se redes de trabalho, conhecimentos acumulados e relações construídas com a sociedade.
A continuidade, entretanto, não deve ser tratada como uma autorização para conservar tudo como está. Ainda existem dificuldades no acesso aos editais, desequilíbrios na distribuição dos recursos e uma concentração significativa de equipamentos e oportunidades na Região Metropolitana. Muitos municípios do interior continuam dependendo de iniciativas isoladas, sem estruturas adequadas para manter uma programação cultural permanente.

Também será necessário garantir que os equipamentos inaugurados ou recuperados tenham continuidade orçamentária, equipes qualificadas e programações capazes de dialogar com diferentes públicos. Abrir um espaço cultural é apenas uma etapa. Mantê-lo vivo, acessível e conectado à produção local representa um compromisso muito mais longo.
A candidatura de Ricardo Ferraço oferece, portanto, uma perspectiva mais conhecida para o setor. Essa previsibilidade é importante, mas deverá vir acompanhada de aperfeiçoamentos. O próximo governo terá a responsabilidade de descentralizar os investimentos, reduzir a burocracia, fortalecer os espaços independentes e ampliar a presença da cultura nas diferentes regiões do Estado.
Lorenzo Pazolini, por sua vez, apresenta ideias para a cultura em seu programa de governo . O candidato menciona a descentralização das ações, a valorização do patrimônio, a qualificação de produtores, o fortalecimento das bibliotecas e a projeção da produção capixaba para outros estados e países. Essas propostas existem e precisam ser reconhecidas no debate eleitoral.
As incertezas relacionadas à sua candidatura não decorrem, portanto, de uma ausência completa de ideias. Elas aparecem porque ainda não está claro como essas diretrizes serão transformadas em uma política cultural estadual permanente. Governar o Espírito Santo exige compreender realidades municipais muito diferentes e articular ações que alcancem desde os grandes equipamentos da Região Metropolitana até grupos, mestres, artistas e comunidades localizados no interior.
No programa de Pazolini, a cultura aparece principalmente relacionada ao turismo, à economia criativa, à competitividade e à geração de renda. Essa visão não é necessariamente negativa. A cultura também movimenta a economia, gera empregos, atrai visitantes e fortalece a imagem de um território. O problema surgiria caso sua importância fosse reconhecida apenas por esses resultados.
Nem toda manifestação cultural possui retorno financeiro imediato. Algumas existem para preservar memórias, afirmar identidades, transmitir conhecimentos ou ampliar o pensamento crítico. Outras atendem comunidades pequenas, desenvolvem pesquisas experimentais ou trabalham com linguagens que dificilmente despertam o interesse do mercado. Ainda assim, são indispensáveis para a diversidade cultural capixaba.

As parcerias com a iniciativa privada defendidas por Pazolini podem contribuir para ampliar investimentos e recuperar bens culturais. Contudo, essas relações não devem substituir a responsabilidade do Estado. O poder público precisa assegurar que a distribuição dos recursos não seja determinada somente pela visibilidade, pelo potencial turístico ou pela capacidade comercial de cada projeto.
É nesse ponto que se estabelece a principal diferença entre as duas candidaturas. Ricardo Ferraço representa a continuidade de uma estrutura conhecida, com políticas já executadas e resultados que podem ser avaliados. Pazolini apresenta ideias e possibilidades, mas ainda precisa esclarecer de que forma pretende preservar as conquistas recentes e garantir autonomia, orçamento e continuidade para a política cultural.
Essa comparação não deve ser compreendida como uma defesa da permanência sem críticas nem como uma rejeição antecipada às novas propostas. Toda política pública precisa ser avaliada, corrigida e renovada. Entretanto, mudanças responsáveis devem partir do reconhecimento daquilo que já foi construído.
A cultura capixaba não pode recomeçar a cada eleição. O Estado levou anos para ampliar sua presença no circuito brasileiro e demonstrar que sua produção artística possui força, diversidade e qualidade. Interromper esse movimento significaria desperdiçar investimentos públicos e enfraquecer uma rede formada por milhares de profissionais.
Neste momento, Ricardo Ferraço representa um caminho de maior previsibilidade, enquanto Pazolini reúne ideias cuja aplicação em âmbito estadual ainda permanece cercada de dúvidas. Caberá a ambos demonstrar que a cultura não será utilizada apenas como argumento de campanha ou elemento complementar do turismo, mas reconhecida como direito, patrimônio e dimensão essencial do desenvolvimento.
O futuro da cultura no Espírito Santo dependerá menos de promessas isoladas e mais da capacidade do próximo governador de manter o diálogo com o setor. O Estado precisa preservar as conquistas recentes, corrigir desigualdades e assegurar que os investimentos alcancem todas as regiões. Entre a continuidade e as novas ideias, o compromisso fundamental deve ser impedir que a cultura capixaba volte a perder o espaço que finalmente começou a conquistar.









