Uma universidade pública não deve ser apenas o lugar onde o conhecimento é produzido. Precisa ser também o espaço onde esse conhecimento circula, é questionado, compartilhado e devolvido à sociedade. É justamente nesse ponto que o COLARTES – Colóquio de Arte e Pesquisa, realizado no Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), ganha uma dimensão que ultrapassa a realização de mais um evento acadêmico.
Em sua 12ª edição, o COLARTES chega a 2026 com uma trajetória construída desde 2010 pelos estudantes do Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA/UFES). Ao longo desses anos, tornou-se um espaço para a apresentação de pesquisas, produções artísticas e diferentes investigações desenvolvidas no campo das artes.
O XII COLARTES tem como tema “Arte e ecologias do agora: corpos e subjetividades dissidentes entre cultura e natureza” e propõe discutir questões que estão longe de pertencer exclusivamente à universidade. Meio ambiente, tecnologia, desigualdades, relações entre cultura e natureza, corpos, identidades, memória, educação e novas formas de existência fazem parte de debates que atravessam diretamente a sociedade contemporânea. É exatamente aí que está uma das forças de um evento dessa natureza: mostrar que pesquisar arte não significa estudar algo distante da vida cotidiana.
A arte é também uma maneira de investigar a sociedade, interpretar determinado período histórico, compreender transformações culturais e produzir outras formas de olhar para aquilo que acontece ao nosso redor. Quando uma universidade mantém um programa de pós-graduação dedicado a essas investigações, ela também preserva memória, forma pesquisadores, qualifica professores e artistas e produz conhecimento sobre o lugar e o tempo em que vivemos.

Existe ainda um aspecto particularmente importante no COLARTES: o protagonismo dos estudantes. Desde 2010, os discentes do PPGA participam da organização do Colóquio. A própria UFES aponta o evento como uma das formas de integração entre pós-graduação e graduação, possibilitando que estudantes de iniciação científica e de trabalhos de conclusão de curso apresentem suas pesquisas.
Isso muda a experiência universitária. O estudante deixa de ocupar somente a posição de quem recebe conhecimento e passa também a assumir a responsabilidade de produzi-lo, organizá-lo e comunicá-lo. Aprende a apresentar uma pesquisa publicamente, ouvir questionamentos, defender argumentos, reconhecer fragilidades e perceber outras possibilidades para aquilo que está investigando.
Quem pesquisa sabe o quanto esse exercício é necessário. Uma dissertação, uma tese ou uma pesquisa artística não amadurece somente diante do computador ou na relação entre orientando e orientador. Ela precisa encontrar outros pesquisadores, outras referências e, principalmente, outros olhares. O COLARTES cria esse lugar de encontro.
E há ainda uma característica relevante: não estamos falando somente de teoria. A edição de 2026 incorpora a exposição “Ecologias do Agora: Reconectando Vínculos”, ampliando a relação entre produção acadêmica e produção artística. Pesquisa e obra deixam de aparecer como universos separados. Essa aproximação é fundamental especialmente nas artes, área em que pensar e fazer frequentemente caminham juntos.
Para a UFES, manter um evento que chega à 12ª edição significa consolidar uma tradição acadêmica. Um programa de pós-graduação não se mede apenas pela quantidade de dissertações ou teses defendidas. Sua importância também está na capacidade de estabelecer redes, promover encontros, publicar pesquisas, formar novos pesquisadores e fazer o conhecimento circular.
O próprio COLARTES possui um desdobramento importante nesse sentido: a Revista do Colóquio de Arte e Pesquisa do PPGA-UFES, dedicada à publicação de artigos, relatos de experiência e ensaios visuais. Em 2026, o periódico chegou à edição de número 27, reunindo pesquisas sobre arte, cultura, linguagem, memória, cidade e processos de criação.
Existe, portanto, uma cadeia de produção de conhecimento: pesquisa-se, apresenta-se, debate-se, escreve-se, publica-se e preserva-se aquilo que foi produzido. Isso fortalece o Centro de Artes, o PPGA e a própria UFES como referência na pesquisa em artes realizada no Espírito Santo.
Mas existe uma terceira dimensão, talvez a mais importante: o que a sociedade ganha com isso? Essa pergunta precisa estar permanentemente presente dentro de uma universidade pública.

Grande parte da sociedade ainda desconhece o que acontece dentro dos programas de pós-graduação. Muitas pessoas passam diariamente diante de uma universidade sem saber que, naquele espaço, existem pesquisadores investigando patrimônio, educação, memória, música, arte pública, tecnologias digitais, inteligência artificial, questões ambientais e inúmeros outros assuntos diretamente relacionados à vida contemporânea.
A programação do XII COLARTES deixa essa diversidade bastante evidente. Há trabalhos sobre história e historiografia da arte, arte e educação, processos artísticos contemporâneos, música, novas mídias, fotografia, memória, inteligência artificial, jogos digitais, arte pública, cultura e outros campos. São assuntos que não pertencem exclusivamente a mestres, doutores ou especialistas. Pertencem à sociedade.
Por isso, eventos acadêmicos precisam cada vez mais buscar formas de diálogo com quem está fora da universidade. Não basta produzir conhecimento de qualidade se ele permanecer restrito a pequenos círculos. A universidade pública cumpre plenamente sua função quando consegue estabelecer essa ponte.
O COLARTES possui justamente essa possibilidade: aproximar estudantes, professores, artistas, pesquisadores e público em torno de questões que estão sendo pensadas agora, dentro do Espírito Santo. Talvez seja esse o ponto que mereça maior atenção nesta 12ª edição.
Em uma época de respostas rápidas, informações fragmentadas e discussões cada vez mais reduzidas às telas dos celulares, reservar alguns dias para ouvir uma pesquisa, observar uma obra, discordar de uma ideia e construir outra pergunta tornou-se um exercício ainda mais necessário. Pesquisar exige tempo. Arte também. E uma sociedade que deseja compreender a si mesma precisa reservar espaço para as duas coisas.
O XII COLARTES acontece no campus de Goiabeiras da UFES. A exposição “Ecologias do Agora: Reconectando Vínculos” tem abertura prevista para 14 de agosto, enquanto as mesas e atividades do Colóquio estão programadas para os dias 17, 18 e 19.
Mais do que acompanhar uma programação acadêmica, visitar o COLARTES pode ser uma oportunidade de conhecer o que estudantes e pesquisadores estão produzindo dentro da principal universidade pública do Espírito Santo. Porque o conhecimento produzido em uma universidade pública não termina quando uma pesquisa é defendida. É justamente ali que ele deveria começar a circular.









