Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Fernando Carreiro, estrategista e criativo de marketing político e eleitoral, é autor do livro ‘Campanhas, Casos & Cases’.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

O bolsonarismo vai acabar?

O bolsonarismo vai acabar? A fuga de Flávio Bolsonaro e a crise de credibilidade em que ele se meteu tornam a pergunta inevitável. Mas convém tomar cuidado com o atestado de óbito: a família pode estar perdendo autoridade sobre uma força política que continuará existindo sem pedir licença a ela. O sobrenome que reuniu esse eleitorado não tem escritura sobre ele.

Há quatro anos, comecei a usar a expressão “pós-bolsonarismo” para discutir os caminhos da direita depois de Jair Bolsonaro. A questão era compreender como a força política reunida em torno dele se reorganizaria para além de sua liderança. Em 2025, retomei o conceito, apontando nomes como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior e Romeu Zema. A direita já procurava alternativas dentro do próprio campo, mesmo enquanto prestava reverência ao seu principal líder.

O episódio de Flávio dá outra dimensão a esse processo. Uma coisa é a capacidade dos Bolsonaro de comandar a direita, escolher candidatos e exigir fidelidade. Outra é a permanência dos sentimentos, das convicções e dos interesses que encontraram em Jair Bolsonaro uma representação. A primeira pode sofrer um abalo profundo sem que a segunda desapareça.

Existe, além disso, uma estrutura que não embarcou com Flávio. O bolsonarismo desenvolveu uma organização digital que conecta lideranças, produtores de conteúdo e apoiadores, fazendo circular interpretações dos acontecimentos e convocando mobilizações. Essa rede funciona para além das estruturas partidárias convencionais. A ausência de um dirigente pode abrir uma disputa pelo comando sem interromper seu funcionamento. É uma das razões pelas quais a derrota presidencial não autoriza anunciar o desaparecimento do movimento.

Sua presença nas instituições oferece outra sustentação. Mandatos, partidos e governos dão continuidade à atuação política quando a Presidência é perdida. E produzem interesses próprios, nem sempre coincidentes com os da família. O parlamentar que acaba de conquistar uma cadeira tem razões bastante concretas para preservar a legitimidade da eleição que o colocou nela.

Esse ponto ajuda a compreender por que a carta de Flávio encontrou resistência entre aliados. A direita que elegeu representantes e acumulou poder institucional tem muito a perder numa aventura de contestação generalizada das urnas. Aceitar a derrota presidencial pode ser, também, uma maneira de proteger as vitórias obtidas nas outras disputas. A conveniência tem uma capacidade admirável de recordar certos compromissos democráticos.

Flávio recebeu um patrimônio eleitoral que não construiu sozinho. Parte daqueles votos veio da identificação com o pai; outra, da rejeição ao PT; outra, ainda, da expectativa de encontrar uma versão mais moderada do bolsonarismo. Confundir essa convergência com lealdade pessoal foi, possivelmente, seu primeiro erro. Capital emprestado, na política, também pode ser cobrado.

Veja: alguém pode rejeitar sua fuga, considerar a carta indefensável e continuar desejando uma alternativa a Lula. Pode abandonar o representante sem abandonar o que pretendia ver representado. O eleitor conservador não se torna progressista porque se decepcionou com um Bolsonaro. Pode simplesmente procurar alguém que defenda suas posições sem exigir que ele também defenda todos os problemas da família.

É aí que a crise de credibilidade ganha importância. Por que Flávio fugiu depois de assegurar que ficaria? Vergonha da derrota? Uma tentativa de manejar a pauta da imprensa e disputar atenção com a vitória de Lula? Não conhecemos sua motivação íntima. Conhecemos a contradição pública: prometeu permanecer e deixou o país. O vídeo continuou aqui, fazendo oposição ao próprio autor.

Quando a conduta desmente uma garantia tão explícita, a próxima declaração já chega sob suspeita. O “Flávio moderado”, apresentado durante a campanha, precisava demonstrar consistência justamente diante da derrota. Em vez disso, ofereceu aos aliados uma dificuldade adicional: explicar por que deveriam continuar sob o comando de alguém cuja reação eles próprios não conseguiam sustentar.

Mas o enfraquecimento de um líder não fabrica automaticamente seu substituto. Esse é o limite de qualquer previsão apressada sobre o pós-bolsonarismo. Enquanto os possíveis sucessores não conseguirem coordenar apoios, demonstrar força eleitoral própria e oferecer uma direção reconhecível, a família poderá conservar influência mesmo desgastada. Sua sobrevivência também depende da incapacidade dos concorrentes de organizar outra saída.

Tarcísio aparece nesse espaço, mas seria precipitado entregar-lhe antecipadamente a liderança. Seu desafio é atrair quem se cansou dos Bolsonaro sem perder quem ainda se reconhece neles. Michelle, por sua vez, lembra que a sucessão pode ocorrer dentro da própria família. A crise dos filhos não extingue todas as possibilidades do sobrenome. Há uma disputa aberta, inclusive entre os que pretendem preservar o legado.

Também precisamos distinguir mudança de comando e mudança de comportamento. O bolsonarismo pode perder força como identificação pessoal e conservar suas estratégias de mobilização, sua maneira de produzir conflitos e suas pautas. Essa possibilidade aparece nas análises recentes sobre sua despersonalização: o afastamento da família não implica, por si, abandono do projeto político.

Por isso, o pós-bolsonarismo não traz certificado antecipado de moderação. Uma nova liderança pode apresentar com mais polidez as mesmas práticas de confronto institucional. Para saber se houve mudança, será preciso observar como ela lida com os limites do poder, com os adversários e, sobretudo, com a possibilidade de perder. Flávio acaba de mostrar quanto esse teste revela.

Minha avaliação é que sua fuga pode acelerar a busca de uma direita capaz de conservar seu eleitorado sem permanecer submetida aos interesses dos Bolsonaro. Mas esse processo poderá produzir fragmentação e conflitos antes de estabelecer uma nova liderança. Os votos continuam disponíveis para disputa; ninguém recebeu procuração definitiva para representá-los.

O bolsonarismo pode sobreviver à crise da família. O que talvez não sobreviva seja a pretensão da família de comandá-lo por direito de herança. O pós-bolsonarismo ganha corpo quando o eleitor percebe que, para continuar à direita, não precisa continuar seguindo os Bolsonaro.

Fernando Carreiro
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Fernando Carreiro, estrategista e criativo de marketing político e eleitoral, é autor do livro ‘Campanhas, Casos & Cases’.

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