Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Fernando Carreiro, estrategista e criativo de marketing político e eleitoral, é autor do livro ‘Campanhas, Casos & Cases’.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Lula e Pazolini venceram? Ou Flávio e Ricardo perderam?

Entre a virada de Lula e a vitória de Pazolini, uma velha lição sobre o passado que credencia e o futuro que decide. Churchill ajudou a vencer Hitler e, poucas semanas depois, perdeu o governo. Gosto de lembrar dessa história quando uma campanha começa a tratar o reconhecimento do eleitor como obrigação. Em julho de 1945, os britânicos deram uma vitória contundente ao Partido Trabalhista, de Clement Attlee, e tiraram os conservadores do poder. Churchill continuava sendo Churchill. Mas o país queria discutir a vida depois da guerra.

É uma diferença que parece pequena até uma eleição acabar. Reconhecer o que alguém fez não significa querer que ele continue. O eleitor pode admirar uma trajetória e preferir outro caminho. Pode aprovar uma administração e estar cansado do grupo que a conduz. Quando olho para o que aconteceu no Brasil e no Espírito Santo, encontro essa confusão atravessando as duas campanhas.

Lula e Ricardo Ferraço começaram por um erro parecido. O presidente se apoiou demais na própria história, como se o eleitor já tivesse razões suficientes para reelegê-lo. Ricardo se fiou nas entregas de Renato Casagrande, seu antecessor, como se o balanço do governo resolvesse a escolha do sucessor. Um parecia dizer: você sabe quem eu sou. O outro: você está vendo tudo o que fizemos. Faltava ouvir a resposta.

Porque o eleitor pode saber, pode estar vendo e, ainda assim, querer outra coisa. Não há contradição nisso. A contradição estava nas campanhas, que pediam um mandato futuro oferecendo uma justificativa concentrada no passado. No caso de Ricardo, havia uma ironia adicional: o slogan era “Agora é o futuro”. A propaganda, no entanto, parecia ter outros compromissos na agenda.

Eu chamaria a postura inicial de Lula de arrogância eleitoral. A confiança numa trajetória que, de tão repetida, parecia dispensar uma nova conversa. O primeiro turno cobrou essa conta. Depois, quando a derrota deixou de ser uma possibilidade remota, houve reação: mais disputa sobre o futuro, mobilização nas ruas e uma força digital que ultrapassou o comando formal da campanha. Não foi uma súbita iluminação. Foi também o susto.

Ricardo recebeu um aviso igualmente forte, mas tinha uma dificuldade a mais: precisava construir a própria candidatura dentro de uma campanha muito ocupada em defender o legado Casagrande — de quem era preposto. Para continuar, Lula precisava explicar o que mudaria em seu governo. Para suceder, Ricardo precisava explicar por que seu governo seria diferente. A defesa das realizações podia sustentar essa conversa. Não podia substituí-la.

Foi aí que a campanha Poliana cobrou seu preço. O Espírito Santo da propaganda parecia ter tão poucos problemas que o cidadão insatisfeito quase precisava pedir licença para existir. Quem esperava atendimento, oportunidade ou alguma melhora na própria vida recebia uma celebração. E uma campanha começa a perder contato com as pessoas quando trata a percepção delas como defeito de compreensão.

Reconhecer problemas não teria obrigado Ricardo a renegar Casagrande. Teria permitido mostrar para que serviria sua chegada. Depois de quase 24 anos de alternância entre este último e Paulo Hartung, havia um cansaço que precisava entrar no diagnóstico. Aprovação e desejo de mudança podiam morar na mesma cabeça. A campanha insistiu demais na primeira e subestimou o segundo.

Agora entra a outra metade da história. Flávio e Pazolini tinham a oportunidade de representar uma alternativa, mas não a mesma alternativa. Flávio precisava provar que podia ser um Bolsonaro moderado. Pazolini precisava ocupar o lugar de novidade diante de um ciclo conhecido. Um precisava criar distância em relação ao próprio sobrenome. O outro, em relação ao peso de suas companhias.

Pazolini preservou esse espaço. Tentaram defini-lo por Magno Malta, mas a ligação não ganhou, para uma parcela suficiente do eleitorado, a importância que seus adversários pretendiam. A aliança era real. A transferência automática de rejeição, não. Quem acompanha os bastidores pode enxergar um candidato cercado de velhos personagens; quem presta atenção na eleição pode enxergar, naquele mesmo candidato, uma possibilidade de trocar o governo.

Flávio fez o percurso inverso. Foi apresentado como moderado e ofereceu, nos debates, motivos para duvidar dessa apresentação. O deboche podia funcionar dentro da bolha, onde a provocação já chega acompanhada de aplauso. Fora dela, havia eleitores tentando decidir se confiariam o país a ele. Esse público não estava necessariamente procurando alguém que humilhasse Lula. Estava procurando razões para votar em Flávio.

A referência aos “nove dedos” mostrou o tamanho do desencontro. Ao zombar de uma mutilação sofrida no trabalho, Flávio entregou ao adversário uma oportunidade de identificação. Há uma ironia importante aí: a biografia que Lula repetia sem conseguir resolver seu problema eleitoral ganhou força quando o outro candidato a atingiu. O que parecia lembrança virou conflito presente. Flávio ajudou a dar vida ao argumento que pretendia diminuir.

As cenas envolvendo apoiadores também expuseram os limites daquela promessa de moderação. Um homem negro foi conduzido por uma corrente num ato na Barra da Tijuca; uma mulher fez uma saudação nazista após votar, em Botafogo. Foram condutas individuais, sem demonstração de ordem da campanha. Não as tomo como explicação do resultado, sobretudo porque a segunda ocorreu já durante a votação. Mas elas ajudam a compreender o ambiente que alimentava o receio de eleitores desconfiados.

É nesse ponto que o medo aproxima e, ao mesmo tempo, separa as duas disputas. Contra Flávio, encontrou terreno para mobilizar gente que não estava satisfeita com Lula. Contra Pazolini, a tentativa de tornar a alternativa ameaçadora não conseguiu vencer a disposição de experimentar outro governo. A mensagem depende do sentimento que encontra. O comando pode escolher o argumento; não escolhe a cabeça de quem o recebe.

E aqui faço uma ressalva que considero essencial: não vejo na campanha de Pazolini nenhuma revolução de marketing. Foi uma campanha padrão, com apresentação pessoal, experiência administrativa, presença de rua e repetição de uma mensagem simples. Arroz com feijão bem feito. Minha leitura é que ele foi mais beneficiado pelos erros de Ricardo do que por alguma invenção extraordinária da própria comunicação. A vitória não transforma o convencional em genial.

Também não faria da virada de Lula uma celebração sem crítica. Houve correção de rota, mas houve antes uma campanha que precisou chegar perto da derrota para reagir. E parte importante da mobilização nasceu fora de sua estrutura formal. Jovens nas ruas e o exército digital ajudaram a transformar apreensão em participação. A força estava no apoiador que passava a conversar, compartilhar e tentar convencer alguém próximo.

Isso diz muito sobre as próximas campanhas. Investimento digital envolve escuta, organização e distribuição, além da produção de conteúdo. Uma mensagem ganha outro peso quando circula por relações de confiança. Mas nenhuma tecnologia resolve um comando que só aceita ouvir o que confirma suas certezas. A inteligência política começa justamente na informação que desagrada. O planejamento serve para decidir o que fazer com ela.

Por isso, não acho suficiente perguntar quem teve a melhor campanha. Lula reagiu aos próprios erros e aos de Flávio. Pazolini ocupou um espaço que a campanha de Ricardo deixou aberto. Houve méritos, circunstâncias e colaboração involuntária dos adversários. O resultado reúne tudo isso; a análise precisa separar as contribuições, sem coroar vencedores por atacado.

Volto a Churchill porque a distância histórica ajuda a enxergar o que a paixão da apuração costuma esconder. Os britânicos não precisaram negar sua importância para escolher outro governo. Aqui, o eleitor também pôde reconhecer entregas e querer alternância, ou desaprovar aspectos de uma gestão e preferi-la ao adversário. É essa liberdade que algumas campanhas confundem com ingratidão.

No Brasil e no Espírito Santo, o voto foi disputado entre o cansaço com o presente e a desconfiança sobre a alternativa. Lula conseguiu fazer pesar o segundo. Ricardo não conseguiu superar o primeiro. Churchill talvez ajudasse a explicar por quê: o passado pode merecer um monumento. A urna continua reservada ao futuro.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Fernando Carreiro, estrategista e criativo de marketing político e eleitoral, é autor do livro ‘Campanhas, Casos & Cases’.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas