Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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Agora é juntar os cacos

A eleição deixou uma espécie particular de ruína: a de quem perdeu acreditando que ainda possuía as mesmas ferramentas com as quais venceu no passado. Juntar os cacos, agora, não é apenas contar derrotas. É separar aquilo que o eleitor quebrou daquilo que as campanhas quebraram sozinhas.

O Brasil deu uma guinada à direita no primeiro turno — não em marcha uniforme, mas com clareza suficiente para redesenhar o mapa político. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, diferença de apenas 1,87 ponto percentual. Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um partido desde 1986, enquanto a federação formada por PT, PCdoB e PV elegeu 88.

Nos governos estaduais, o deslocamento também apareceu. Entre os 20 estados definidos no primeiro turno, PL, Republicanos e PP — as siglas mais identificadas com o campo conservador — ficaram com dez governos. O PT venceu em três. Não se trata de dizer que o país se tornou uma coisa só. Trata-se de reconhecer que o centro de gravidade da política brasileira se moveu.

A reta final desfez equilíbrios que pareciam sólidos. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes chegou à véspera liderando as pesquisas, mas terminou atrás de Douglas Ruas: 49,27% contra 42,76% dos votos válidos. Em São Paulo, Marina Silva e Simone Tebet passaram toda a campanha liderando as pesquisas, chegaram à última semana em uma disputa embolada, mas foram ultrapassadas por Guilherme Derrite e André do Prado.

No Espírito Santo, Fabiano Contarato, que chegou a figurar em posições competitivas durante a disputa, terminou em quarto lugar, atrás de Evair de Melo, Maguinha Malta e Renato Casagrande.

Esses resultados revelam a importância do último trecho de uma campanha. Não basta liderar pesquisas, carregar uma biografia respeitável ou possuir uma estrutura aparentemente robusta. Em algum momento, o eleitor precisa encontrar uma razão simples, emocional e concreta para escolher determinado nome. É nesse instante que muitas campanhas descobrem que equilíbrio não é força. Às vezes, é apenas indecisão acumulada.

No Espírito Santo, Lorenzo Pazolini terminou o primeiro turno com uma diferença de 15,58 pontos para Ricardo Ferraço. A eleição ainda será decidida no segundo turno, mas o primeiro já produziu um diagnóstico que não pode ser tratado como acidente estatístico.

Toda eleição com um incumbente é, em algum grau, um referendo. Ricardo foi apresentado como candidato à continuidade administrativa, quando precisava ser apresentado como autor de um próximo ciclo. A campanha deveria mostrar que um governo capaz de realizar tanto poderia fazer mais e melhor — e, sobretudo, de maneira diferente. Em vez disso, muitas vezes pareceu vender a repetição de um governo que já tinha dono.

O primeiro erro foi deixar Casagrande ocupar o espaço simbólico do legado. Ricardo precisava herdar sem parecer dependente; continuar sem parecer subordinado. Quando o antecessor permanece mais associado às realizações do que o próprio candidato, a continuidade deixa de ser patrimônio e passa a parecer tutela.

O segundo foi atacar Pazolini sem fazer uma autocrítica correspondente. O prefeito de Vitória conseguiu se apresentar como alguém sob cerco, enquanto Ricardo ficou associado ao governo, ao grupo político e à defesa de uma ordem que o eleitor já avaliava. Ataque sem explicação, sem reconhecimento de limites e sem promessa clara de correção costuma produzir uma curiosa inversão: transforma o adversário em vítima e o candidato em representante do problema.

O terceiro erro foi confundir entrega administrativa com vínculo emocional. Obras, investimentos, indicadores e realizações são importantes, mas o eleitor não abraça um viaduto. Ele vota na experiência humana que imagina viver depois da eleição. Pazolini falou com mais clareza sobre incômodos cotidianos, segurança, comparação e desejo de mudança. Ricardo falou muitas vezes uma língua mais sofisticada, mas menos imediata. Em política, a frase que não chega ao eleitor chega apenas ao próprio autor.

Também faltou uma ponte para o eleitor conservador que poderia votar em Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, escolher Ricardo para o governo estadual. A campanha não conseguiu separar suficientemente Ricardo das associações políticas do grupo governista nem desmontar, com eficácia, a transição entre o prefeito de Vitória e o candidato ao governo. Pazolini conseguiu ocupar o lugar de alternativa, mesmo carregando a responsabilidade de explicar como um modelo municipal poderia ser ampliado para todo o Estado.

O palanque de Ricardo reunia 75 dos 78 prefeitos capixabas. Ainda assim, Pazolini venceu em 48 municípios, e apenas 30 dos prefeitos que declararam apoio ao governador conseguiram fazer com que a maioria de sua população votasse nele. A fotografia era poderosa. A conta eleitoral, não.

Os números dos deputados federais mais votados ajudam a explicar a mudança de época. Nikolas Ferreira recebeu 3,1 milhões de votos; Lucas Pavanato, 3 milhões; Erika Hilton, 1,59 milhão; e Lucas Polese, 419.735 votos, estabelecendo o recorde histórico do Espírito Santo. Nem todos pertencem ao mesmo campo político. O que os aproxima é outra coisa: cresceram em ambientes digitais, construíram identidade própria, falam diretamente com comunidades específicas e não dependem exclusivamente da intermediação partidária.

As redes sociais não são mais apenas um meio de divulgação. São território político. Quem ocupa esse território com clareza, conflito e frequência constrói uma relação que muitas máquinas tradicionais já não conseguem reproduzir com palanques, fotografias e declarações de apoio.

Os cacos capixabas aparecem também nas lideranças locais. Arnaldinho Borgo não elegeu Lyza Herzog, o PSDB não conseguiu montar chapa para deputado federal e não elegeu nenhum deputado estadual. O partido não deixou de existir juridicamente; deixou de existir como força eleitoral no Espírito Santo. Como se não bastasse, em Vila Velha, Pazolini teve quase o dobro dos votos de Ricardo – este, candidato de Arnaldinho.

Na Serra, Serginho Vidigal recebeu mais de 80 mil votos, foi o sétimo candidato individualmente mais votado para deputado federal, mas não se elegeu porque o Podemos conquistou apenas uma cadeira. No governo, mesmo com o apoio de Weverson Meireles e de SérgioVidigal, Ricardo teve metade da votação de Pazolini. O problema foi acreditar que força municipal concentrada se transforma automaticamente em voto majoritário estadual.

Em Cariacica, Euclério Sampaio não elegeu Messias Donato nem seus três candidatos a deputado estadual e ainda assistiu à vitória de Pazolini em seu próprio território: 45% contra 30% de Ricardo.

A polarização não sucumbiu com essas lideranças. Ela mudou de veículo. O prestígio delas continuava existindo, mas já não era automaticamente conversível em voto. O eleitor deixou de obedecer à fotografia do palanque e passou a responder à identidade que reconhece, à linguagem que entende e à promessa que consegue imaginar.

Juntar os cacos não significa reconstruir a campanha que terminou. Significa descobrir quais pedaços ainda pertencem ao eleitor. Quem tratar o resultado apenas como uma onda ideológica aprenderá pouco. Quem compreender que a direita venceu também porque se adaptou melhor ao novo modo de formar vínculo poderá reconstruir alguma coisa.

A eleição não revelou a ausência do eleitor. Revelou a ausência de comando. Os líderes ainda montam os palanques; agora, precisam convencer o eleitor de que vale a pena subir neles.

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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