Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Senado, a agenda prioritária

O Brasil reservou ao Senado um de seus poderes mais extensos e, numa ironia que a República cultiva com constância, habituou-se a escolher seus senadores com atenção inversamente proporcional à importância do cargo. Para governador, o eleitor examina alianças, promessas, gestos. Para o Senado, não raro, sobra aquele voto de fim de prova: oito anos de poder entregues por memória.

Em 2026, a distração custará mais caro. Serão renovadas 54 das 81 cadeiras. Cada eleito poderá atravessar dois mandatos presidenciais, votar indicações ao Supremo, deliberar sobre reformas constitucionais e questões federativas e, se a História repetir seus sobressaltos, participar até de julgamentos de presidentes ou ministros da Corte.

O Senado nasceu no Brasil em 1826, ainda no Império. A República mudou sua forma, mas preservou a vocação de equilíbrio: na Câmara, pesa a população; no Senado, pesa a Federação. São Paulo tem três senadores. O Espírito Santo, três. É uma das raras ocasiões em que a República olha para seus estados e declara: aqui vocês são iguais.

A eleição deste ano, porém, começa a ser narrada como mais um capítulo da revanche nacional. De um lado, Lula e seus aliados. Do outro, o espólio político de Jair Bolsonaro e uma direita que fez do Supremo um dos centros de suas insatisfações. É legítimo discutir limites entre os Poderes. O problema aparece quando uma candidatura ao Senado se apresenta menos como representação de um estado e mais como licença de oito anos para guerrear contra alguém.

O candidato explica com entusiasmo quem pretende combater. Quando alguém pergunta o que pretende construir, a eloquência experimenta uma súbita crise de abastecimento.

Pesquisa Genial/Quaest trouxe uma pista: 31% disseram que, na escolha de um senador, pesa a capacidade de levar emendas e obras para o estado; 20% citaram apoio a Lula associado ao fim da escala 6×1; outros 20%, a escolha de um bolsonarista disposto a defender impeachment de ministros do Supremo.

Pesquisa é fotografia, não escritura sagrada. Mas a imagem sugere algo precioso: enquanto Brasília organiza a eleição a partir das grandes guerras nacionais, uma parcela importante do eleitor continua pensando no lugar onde mora.

O cidadão pode ter opinião duríssima sobre Alexandre de Moraes e continuar querendo saber quando sua rodovia será duplicada. Pode votar em Lula e cobrar recursos para o hospital. Pode ser bolsonarista e exigir investimentos em segurança. A vida cotidiana possui essa irritante falta de disciplina ideológica.

Por isso, reduzir a eleição senatorial a uma extensão da presidencial é erro de perspectiva. Senador não é deputado federal promovido nem cabo eleitoral do presidente. Representa um estado inteiro numa Casa criada para equilibrar a Federação.

Sua responsabilidade é dupla: olhar para as grandes questões nacionais sem tirar os pés do território que lhe concedeu o mandato. Precisa discutir equilíbrio entre os Poderes e saber onde falta uma ponte; compreender dívida pública e conhecer a dívida política que Brasília mantém com seu estado; ter convicções sem convertê-las em servidão partidária.

No Espírito Santo, isso ganha peso especial. Somos pequenos diante dos grandes vizinhos. No Senado, porém, são três contra três. O voto de um senador capixaba vale o mesmo que o de um paulista, mineiro ou fluminense. Desperdiçar essa força em mandato ornamental seria extravagância cara demais.

A eleição de duas vagas acrescenta outro elemento. O eleitor pode escolher um nome por identidade política e outro por confiança, trajetória, articulação ou entrega. Não há polícia da coerência esperando na saída da cabine.

É justamente por considerar essa disputa importante demais que defendo a volta dos debates entre candidatos ao Senado.

Não parece razoável submeter candidatos a governador a sucessivos confrontos públicos e eleger alguém para oito anos sem vê-lo diante dos adversários. O debate retira do candidato o direito à perfeição: não há segunda tomada nem corte salvador. A pergunta vem, o adversário contesta, o relógio corre e alguma coisa da pessoa por trás da personagem eleitoral aparece.

Que seja, porém, um debate sobre o Senado.

Quero saber o que pensam sobre o Supremo, Lula, Bolsonaro e o equilíbrio entre os Poderes. Mas também o que farão pelas rodovias federais, pelos portos, pela segurança, pela saúde, pela infraestrutura e pelo desenvolvimento regional. Brasília promete com extraordinária facilidade e entrega com parcimônia ancestral.

Talvez descubramos candidatos prontos para reorganizar os Poderes da República, mas pouco familiarizados com o estado que pretendem representar. A democracia sobreviverá.

Em 2026, o Senado completa duzentos anos. Sobreviveu ao Império, à República, às ditaduras, aos senadores biônicos, à redemocratização, a impeachments e aos muitos salvadores da pátria — sempre mais numerosos que as pátrias disponíveis para serem salvas.

Merece, portanto, uma escolha menos distraída.

O eleitor quer posição, mas quer resultado. Quer representação, mas quer presença. Quer alguém capaz de discutir o Brasil sem usar o Espírito Santo apenas como endereço eleitoral.

A imprensa prestará um bom serviço se colocar esses candidatos frente a frente e lhes fizer uma pergunta talvez mais importante que as guerras nacionais:

Quando terminar seu mandato, em 2035, o que o Espírito Santo terá que não teria se você não tivesse passado pelo Senado?

Uma boa resposta vale um voto. Uma resposta ruim também. E talvez por isso mesmo valha um debate.

 

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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