Durante semanas, a política capixaba alimentou uma pergunta que, para muitos, parecia inevitável: Paulo Hartung será candidato ao Governo do Estado? A hipótese ganhou força nas rodas políticas, movimentou bastidores, mobilizou aliados e adversários e produziu o fenômeno que toda liderança de grande envergadura costuma provocar: quando seu nome surge, o tabuleiro inteiro se reorganiza. Você, caro leitor e cara leitora, deve estar pensando que falamos de algo recente. Mas isso foi em 2002. E também em 2014. Voltou em 2018. Mas também reaparece agora, em 2026. Na verdade, essa pergunta acompanha praticamente todos os ciclos eleitorais desde que Paulo Hartung ingressou na vida pública.
A diferença é que, desta vez, a resposta provavelmente será outra. Governo? Senado? Minha impressão é que Paulo Hartung não disputará nenhuma das duas eleições. E não porque lhe falte algum prestígio ou vontade eleitoral. Ao contrário. É justamente porque ninguém conhece melhor a trajetória de Paulo Hartung do que o próprio Paulo Hartung.
A maior parte das análises produzidas nas últimas semanas parte de um pressuposto equivocado: imagina-se que a decisão de disputar uma eleição depende, essencialmente, da vontade do candidato. É uma forma simplista de enxergar a política. Grandes lideranças não decidem apenas se querem disputar. Antes disso, procuram responder a uma pergunta muito mais importante: faz sentido disputar?
Essa talvez seja a principal característica da carreira de Paulo Hartung. Ao longo de mais de quatro décadas de vida pública, ele nunca pareceu tratar uma eleição como um ato de desejo. Sempre a tratou como consequência de uma leitura objetiva da realidade. Não é uma diferença pequena. É a diferença entre quem faz da política um exercício de estratégia e quem a transforma em exercício de vaidade.
Pouca gente compreende que Hartung foi formado numa das escolas políticas mais disciplinadas do século passado. Ainda jovem, participou do movimento estudantil durante os últimos anos da ditadura militar. Presidiu o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (DCE-Ufes), participou da reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE) e militou nas fileiras do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o histórico Partidão. Independentemente das convicções ideológicas que cada um possa ter sobre aquele período, é impossível compreender sua trajetória sem compreender aquela escola de formação. Ali, a política não era ensinada como espetáculo.
Os antigos quadros comunistas cultivavam quase uma obsessão pelaquilo que chamavam de correlação de forças. Nenhuma disputa deveria ser iniciada antes que existissem condições objetivas para vencê-la. A vontade individual jamais poderia substituir a realidade concreta. O desejo não alterava a matemática da política. Quem insistisse em enfrentar batalhas perdidas desperdiçaria recursos, destruiria lideranças e comprometeria projetos futuros. É difícil não perceber como essa lógica atravessou toda a vida pública de Paulo Hartung.
Mesmo depois de migrar para outro campo político, abandonar antigas referências ideológicas e consolidar-se como um dos principais líderes de centro do país, permaneceu preservando exatamente esse modo de pensar. Enquanto muitos políticos anunciam candidaturas para descobrir, depois, se existe espaço para elas, Hartung sempre pareceu fazer o caminho inverso: primeiro lia o ambiente; só depois decidia se deveria entrar na disputa.
O episódio de 1998 talvez seja o melhor exemplo dessa característica. Naquele ano, Hartung desejava disputar o Governo do Espírito Santo pelo PSDB. Havia acabado de deixar o mandato de prefeito de Vitória, vivia um excelente momento político e reunia todas as condições para pleitear a candidatura. O partido, entretanto, tomou outra decisão. Na convenção tucana, José Ignácio Ferreira venceu a disputa interna e tornou-se o candidato ao Palácio Anchieta.
Hartung aceitou disputar o Senado. Venceu. Enquanto boa parte da classe política enxergava apenas uma derrota interna, ele parecia compreender que estava preservando algo muito mais valioso do que uma candidatura: seu capital político. Em vez de transformar a convenção em guerra, ampliou sua presença estadual, fortaleceu alianças e iniciou, silenciosamente, a construção da campanha que o levaria ao Governo do Estado quatro anos depois.
Essa talvez seja a distinção mais importante entre políticos comuns e políticos estrategistas. Os primeiros confundem adiamento com derrota. Os segundos sabem que nem toda eleição precisa ser disputada imediatamente. O mesmo padrão voltaria a aparecer anos depois.
Em 2014, Hartung esperou que o ambiente político amadurecesse. Observou o desgaste do governo de Renato Casagrande — seu ex-aliado e que havia o sucedido), percebeu a convergência entre sentimento social, viabilidade eleitoral, articulação e correlação de forças na política. Somente então colocou seu nome à disposição. Mais uma vez, a candidatura apareceu depois da leitura do cenário — nunca antes dela.
Essa regularidade dificilmente pode ser atribuída ao acaso. Ela revela um método. Escrevi, em Campanhas, Casos & Cases, que campanhas eleitorais começam muito antes do primeiro programa de televisão ou da primeira peça publicitária. Elas começam quando alguém consegue interpretar corretamente a realidade. Comunicação não substitui diagnóstico. Discurso não corrige erro de estratégia. Nenhuma campanha é capaz de derrotar, indefinidamente, uma correlação de forças desfavorável.
A trajetória de Paulo Hartung parece confirmar exatamente essa lógica. É justamente por isso que o debate sobre 2026 precisa ser feito de outra forma. O Espírito Santo mudou. Mudaram os protagonistas. Mudaram as linguagens. Mudaram as formas de produzir liderança. A geração política que consolidou Paulo Hartung como principal liderança estadual durante décadas já não ocupa, sozinha, o centro do poder. Novos personagens surgiram, novas disputas reorganizaram o ambiente político e uma nova lógica de comunicação passou a influenciar campanhas e governos.
Talvez Ricardo Ferraço represente a última grande expressão política construída sob aquela arquitetura. Uma nova geração passou a disputar espaço com linguagem, prioridades e bases eleitorais completamente diferentes. Nada disso diminui a importância histórica de Paulo Hartung. Pelo contrário. Apenas muda o ambiente em que decisões precisam ser tomadas. E ninguém compreende melhor isso do que ele próprio.
É exatamente por essa razão que acredito ser improvável uma candidatura em 2026. Não porque lhe falte coragem. Mas porque lhe sobraria coerência com sua própria história. Ser respeitado não significa precisar disputar uma eleição. Ser influente não exige ocupar novamente o centro do palco.
Existe um momento em que os grandes líderes deixam de medir sua importância pelo cargo que ocupam e passam a medi-la pela capacidade de influenciar os rumos da política sem necessariamente disputar uma urna. Talvez Paulo Hartung já tenha chegado a esse ponto.
No Brasil, existe uma curiosa expectativa de que toda grande liderança precise voltar. Como se a política fosse incapaz de reconhecer o valor de uma trajetória sem exigir um último capítulo eleitoral e de produzir novas lideranças. A História, entretanto, costuma ser mais generosa com aqueles que sabem reconhecer a diferença entre oportunidade e nostalgia.
Se Paulo Hartung decidir não disputar o Governo nem o Senado, essa escolha dificilmente poderá ser interpretada como uma desistência. Será, antes de tudo, a mais fiel demonstração da forma como sempre fez política. Alguns líderes entram em todas as batalhas para provar que ainda são fortes. Outros escolhem cuidadosamente aquelas que ainda vale a pena travar.
A julgar por toda a sua trajetória, Paulo Hartung sempre pertenceu ao segundo grupo.









