Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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Michelle: o vídeo que antecipou a disputa pela sucessão do bolsonarismo

Michelle Bolsonaro será candidata à Presidência da República?

A pergunta tomou conta do debate político depois da divulgação do vídeo, publicado na última semana, em que a ex-primeira-dama expõe publicamente sua divergência com Flávio Bolsonaro. Ela desperta curiosidade, alimenta especulações e produz manchetes. Mas talvez seja justamente a pergunta errada.

O episódio interessa menos pelo que revela sobre Michelle e muito mais pelo que revela sobre o bolsonarismo. Pela primeira vez desde que Jair Bolsonaro se consolidou como principal liderança da direita brasileira, a disputa mais relevante deixou de acontecer contra um adversário externo e passou a ocorrer dentro do próprio campo político. Esse detalhe muda quase tudo.

O erro de grande parte das análises produzidas nos últimos dias foi interpretar o episódio como um desentendimento entre familiares. Uma análise tão rasa quanto a taça de água disposta à direita dela no vídeo. Famílias divergem todos os dias. O que transforma uma divergência privada em fato político é o significado que ela adquire diante do eleitor. E, neste caso, o significado parece evidente: a sucessão, até então administrada nos bastidores, passou a ocupar o espaço público.

Toda liderança política verdadeiramente transformadora enfrenta, mais cedo ou mais tarde, um desafio que nenhuma eleição consegue resolver: a sucessão. Enquanto o líder permanece no centro da cena, sua autoridade funciona como elemento agregador. É ela que harmoniza interesses distintos, acomoda divergências e mantém coeso um campo político frequentemente formado por partidos, correntes ideológicas e lideranças com projetos próprios. O problema começa quando a política deixa de perguntar apenas quem será o adversário e passa a questionar quem representará aquele legado.

Esse não é um fenômeno brasileiro. É uma característica recorrente dos grandes movimentos personalistas.

O peronismo argentino passou décadas disputando quem possuía legitimidade para representar a herança política de Juan Domingo Perón. Depois da morte de Hugo Chávez, o chavismo precisou substituir uma liderança carismática por uma estrutura de poder muito mais dependente da organização política do que do magnetismo pessoal. No Brasil, o próprio lulismo viveu essa experiência durante o período em que Luiz Inácio Lula da Silva esteve preso. Embora Fernando Haddad tenha recebido a transferência eleitoral do ex-presidente em 2018, jamais ocupou integralmente o seu lugar como liderança política. Os votos podem ser transferidos. O carisma, quase nunca.

O sociólogo alemão Max Weber descreveu esse fenômeno há mais de um século ao demonstrar que o carisma constitui uma forma singular de autoridade. Ele pertence ao líder, não à instituição. Movimentos construídos em torno de figuras extraordinárias inevitavelmente enfrentam o desafio de transformar um patrimônio pessoal em patrimônio coletivo. É justamente nessa travessia que costumam surgir as disputas mais delicadas.

Sob essa perspectiva, o vídeo de Michelle Bolsonaro adquire um significado muito maior do que o conteúdo das críticas dirigidas a Flávio Bolsonaro.

Ele torna visível uma pergunta que já circulava silenciosamente nos bastidores da direita brasileira: quem exercerá a liderança efetiva do bolsonarismo quando Jair Bolsonaro deixar de ocupar, por qualquer razão, o centro da disputa política?

Essa pergunta não se responde por decreto.

Na política, existe uma diferença profunda entre herança e liderança. Herança pode decorrer do sobrenome, do parentesco ou da proximidade com o fundador de um movimento. Liderança depende de algo muito mais complexo: reconhecimento coletivo. Ela precisa ser construída, testada, validada e continuamente reafirmada pelo próprio grupo político e, sobretudo, pelo eleitor.

Flávio Bolsonaro carrega a legitimidade de quem participou da construção desse projeto desde suas origens. Michelle Bolsonaro, por sua vez, consolidou nos últimos anos um patrimônio político próprio, especialmente entre mulheres e segmentos expressivos do eleitorado evangélico, deixando de ser percebida apenas como a esposa do ex-presidente para se transformar em uma liderança com identidade própria.

É justamente essa coexistência de legitimidades que explica a relevância do episódio. Não se trata apenas de um conflito entre duas figuras públicas. Trata-se da manifestação pública de uma disputa que, cedo ou tarde, aconteceria.

Há, entretanto, um aspecto ainda mais interessante sob a ótica do marketing político.

Campanhas eleitorais são construídas sobre ativos simbólicos. Alguns candidatos possuem como principal ativo a competência administrativa. Outros, a experiência, a capacidade de comunicação ou a identificação popular. No caso do bolsonarismo, poucos ativos foram tão importantes quanto a imagem de uma família unida, resiliente, fiel aos mesmos valores e disposta a enfrentar conjuntamente as adversidades políticas e judiciais.

Essa representação nunca foi um detalhe. Ela ajudou a estabelecer uma conexão emocional com um eleitorado que valoriza lealdade, estabilidade familiar e coerência de comportamento. Em política, símbolos produzem pertencimento. E pertencimento produz identidade eleitoral.

Quando divergências privadas atravessam os limites da intimidade e passam a ocupar o centro da arena pública, não se desgasta apenas uma relação familiar. Coloca-se em tensão um dos principais ativos simbólicos daquele campo político.

É nesse momento que a natureza da disputa se transforma.

Campanhas competitivas procuram impor temas, estabelecer prioridades e obrigar seus adversários a responder às suas agendas. Campanhas que passam a administrar conflitos internos perdem parte dessa capacidade. O debate deixa de girar em torno dos problemas do país e passa a orbitar as dificuldades do próprio grupo político.

Isso não significa que Michelle Bolsonaro será candidata. Tampouco autoriza concluir que Flávio Bolsonaro perdeu espaço ou que o presidente Lula seja automaticamente beneficiado. A política costuma punir quem transforma hipóteses em certezas antes do tempo.

Mas existe uma conclusão que o episódio já permite. A sucessão do bolsonarismo deixou de ser uma discussão restrita aos bastidores para se transformar em um processo político visível. Movimentos personalistas raramente atravessam esse momento sem experimentar disputas por legitimidade, reposicionamentos estratégicos e redefinições de liderança.

A pergunta, portanto, já não é se Michelle Bolsonaro disputará a Presidência da República. A pergunta que realmente importa é outra: quem conseguirá convencer o eleitor de que representa, com maior legitimidade, a continuidade política de Jair Bolsonaro quando a disputa deixar de ser sobre o seu fundador e passar a ser, definitivamente, sobre os seus herdeiros?

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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