
Depois de passar dois anos e meio tentando encontrar um discurso, o PT parece, agora, ter feito emergir, do embate com o Congresso Nacional, uma narrativa. Se vai ser suficiente para vencer a eleição, é uma outra história.
No fim da semana passada, O Partido dos Trabalhadores divulgou, em suas redes sociais, uma série de vídeos cujo roteiro foi tirado dos mais tradicionais manuais de luta de classes. Dividindo claramente as trincheiras do país entre ‘os muito ricos’ e todo o resto, as peças, produzidas com inteligência artificial, coloca a oposição do governo no Congresso, que acabara de reprovar o aumento do IOF, no campo dos que defendem o 1% mais ricos do país, enquanto o governo se autoacomodou no polo antagônico. Um dos comerciais colocava ricos e pobres em uma mesma mesa de bar. Na hora de dividir a conta, os menos abastados contestam: “vocês comeram caviar, tomaram champanhe e querem dividir a conta por igual?”. Em outro, a questão semiótica é ainda mais evidente: dezenas de pessoas pobres carregam, nos ombros, sacos com a inscrição “impostos”. A propaganda deixa clara a intenção do PT: mostrar que quem carrega o país nas costas são os pobres, e que o Imposto sobre Operações Financeiras, que geralmente incide sobre movimentações internacionais e investimentos de alta monta, seria uma forma de corrigir essa disparidade.
A tentativa de reforçar uma conexão com o eleitorado de baixa renda ocorre em um momento em que a avaliação de Lula vem caindo nos Estados mais pobres. Segundo a última rodada do DataFolha, em junho, 32% dos eleitores nesse estrato consideram o governo ótimo ou bom, contra 33% que o avaliam como ruim ou péssimo. No passado, o cenário era bastante diferente, com um percentual maior de aprovação em relação à desaprovação do governo do PT nas regiões mais necessitadas.
É que tem aumentado, no imaginário popular, a sensação de distância entre suas casas e o Palácio do Planalto. Entre os reclames mais insistentes estão a piora na segurança pública, a gastança sem resultados concretos, a alta dos preços dos alimentos, o aumento de impostos e até mesmo a falta de ação no escândalo do INSS — o que é uma percepção da população, já que o roubo aos aposentados começou em 2017 e eclodiu no governo do PT, que, já manchado por casos anteriores de corrupção e desvio de recursos públicos, tem um amplo polo passivo de imagem que verte corrupção.
Em uma reportagem publicada recentemente pelo jornal O Globo, uma trocadora de ônibus da Bahia, Estado que sempre foi lulista, desabafou: “Acreditei que o Bolsa Família iria aumentar, mas o (ministro da Fazenda, Fernando) Haddad só fala em corte de gastos e aumento de impostos. Não voto mais no Lula nem a pau!”.
Para que o governo venda a imagem de justiça social, que continua mobilizando as camadas populares, a propaganda precisa vir acompanhada de alívio concreto no bolso. Quando o governo bate nos “ricos”, mas é percebido como um Estado que entrega pouco, começa a ser confundido com aquilo que critica.
O discurso encontrado pelo PT para fazer frente à assunção da direita e tentar reeleger Lula para um quarto mandato no ano que vem tem pouco apelo na classe C, a classe média brasileira, que nos últimos anos oscilou entre o petismo e o bolsonarismo. Esse grupo hoje não é da CLT, é do trabalho informal e não quer uma disputa de classes, uma briga entre ricos e pobres; quer empreender e ser rico. O discurso do PT, portanto, ataca o sonho desse grupo.
Lideranças petistas, como o presidente interno do PT, o senador Humberto Costa, sonham com uma aliança com o centro nas eleições do próximo ano. Em uma entrevista concedida ao Estadão do último domingo, deixa escapar o que interessa na análise desta coluna: “(…) se o governo estiver bem, teremos condições de ter entendimentos com legendas como MDB, PDT e com outros partidos que não estiveram conosco em 2022”. Talvez sem medir as palavras, Costa acaba assumindo que a imagem do partido não é das melhores, e que, ao contrário de outras eleições, o PT vai precisar contar, indistintamente, com o crédito de outras legendas se quiser ter êxito na eleição presidencial do ano que vem.









