Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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Um tchê-rerê de verso ruim

A política, no Brasil, não é para amadores. Ou talvez seja. O conservadorismo brasileiro passou a existir há pouco tempo, de forma repentina. Ou, de repente, não. São questões que não podem ser colocadas na coluna das exatas. Não há verdade absoluta na política, sobretudo numa era marcada pela pós-verdade. Até bem pouco tempo, por exemplo, a direita que tínhamos era personificada na figura de um partido que tem “social-democracia” no nome. E representavam os conservadores por falta de uma opção mais à direita, extinta com o regime militar.

Um tchê-rerê de verso ruim

Há 30 anos, o escopo da política brasileira era formado por políticos tradicionais, que, em trincheiras distintas, duelavam no campo das ideias; não das ideologias. Os perfis políticos de hoje, salvo raríssimas exceções preenchidas a conta-gotas, estão dispostos entre as alas extremas: se você não concorda uma das ideias da direita, é comunista; se não adere a um manifesto da esquerda, é fascista.

Quem até bem pouco tempo era de centro e transitava bem próximo do campo da esquerda, agora se revela um direitista de carteirinha. Uma guinada e tanto. Embora qualquer um tenha o pleno direito de mudar de opinião — e de posição — quando bem entender, o que mais chama a atenção é a ausência de contestação por parte do público, que assiste, inerte, a esse balé de gosto duvidoso e ainda aplaude movimentos errados dos bailarinos oportunistas.

Agora, vejam só, o cantor sertanejo Gusttavo Lima se colocou como pré-candidato a presidente da República. O intérprete do tchê-tcherê-tchê-tchê não tem partido, muito menos experiência em gestão pública, mas se arvorou em um discurso de quem está pronto para mudar o país. Sua primeira proposta: um vale-pinga de R$ 100 “para que todo mundo possa tomar uma cachacinha”. Está na internet, basta pesquisar. Mas tudo bem: a própria Constituição Federal faculta a qualquer cidadão com idade igual ou superior a 35 anos disputar o cargo máximo da República desde que filiado a um partido político. Portanto, Gusttavo Lima não comete uma ilegalidade — talvez, aos olhos mais céticos e sensatos, não passe de insanidade.

Na pesquisa feita pelo instituto Paraná Pesquisas entre os dias 6 e 10 deste mês, o cantor aparece com 0,4% das menções espontâneas. Não foi testado um cenário estimulado com ele. Em um outro levantamento, feito pelo instituto Simplex a pedido da CBN Recife, o goiano aparece em segundo lugar na estimulada, com 20,7%, atrás do presidente Lula (33,7%) e à frente de Tarcísio de Freitas (16,1%) e Pablo Marçal (8,4%). Pode não dar em nada, como pode dar muita coisa.

No mundo há exemplos de outsiders que se deram bem na política. Foi o caso do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, que era um ator de segundo escalão antes de entrar para a política. Quem não se lembra de Arnold Schwarzenegger, o lendário “Exterminador” e dono de extensa filmografia? Foi eleito governador da Califórnia em 2003 e ficou no cargo por oito anos. Há outros, por sua vez, que não foram tão longe em suas aspirações. O rapper Kanye West criou um partido para concorrer à Casa Branca em 2020 e recebeu apenas 60 mil votos de um colégio eleitoral de 160 milhões de eleitores. Um fiasco! No Brasil, nosso maior exemplo — não em grandeza, evidentemente, mas em números — foi o palhaço Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo com 1,3 milhão de votos. Uma piada (bem-contada)!

Gusttavo Lima se coloca mais à direita no espectro político: foi apoiador de Bolsonaro, é aliado do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e defende o Estado mínimo embora boa parte de seus dividendos sejam provenientes de contratos de shows firmados com prefeituras que chegam a pagar até R$ 1,2 milhão por uma apresentação do sertanejo, dono de uma fortuna na casa do bilhão de reais, e que transita em uma via que a 21 meses da eleição já se apresenta congestionada. Além dele, há os Bolsonaro (na ausência de Jair, Michelle ou Eduardo são cotados como potenciais candidatos à Presidência), Tarcísio de Freitas, o próprio Caiado, Marçal, Ratinho Junior, atual governador do Paraná, e Romeu Zema, de Minas. Com o tempo e o trânsito eleitoral ganhando velocidade, a tendência é que as muitas vias sejam Unificadas, bem como o tráfego desses veículos políticos, reduzido, mas, ainda assim, se a direita não der unidade a seu discurso e escalar um só personagem para lhe representar, são grandes as chances de ver Lula se repetir por mais quatro anos.

A discussão, por outro lado, é mais profunda e passa pela escassez de nomes com mais reentrância política e de gestão. Um presidente é mais do que uma figura popular; deve ser um líder, um bom administrador e alguém com visão horizontal de sociedade, economia e governança. Dentro do preposto elenco da direita, poucos nomes preenchem essa ficha corrida. A esquerda também tem deficiência de quadros qualificados: não sendo Lula o candidato, sobram os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Camilo Santana (Educação) e Rui Costa (Casa Civil). E o que tudo isso quer dizer? A ausência de lideranças com perfil técnico favorece o populismo puro e simples. O apelo da figura popular é avassalador, mas uma boa comunicação pode catapultar perfis técnicos e preparados, exceto quando eles praticamente inexistem.

A crise de liderança que vivemos na política brasileira é real. E não será resolvida num passo de dança. Quanto menos figuras preparadas tivermos sobre a mesa, maiores serão as chances de o brasileiro escolher presidentes a partir do que dizem (ou cantam) aos microfones, e não a partir de seus currículos.

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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Comentários
  1. Acredito no poder do debate democrático, porém, regrado por controle emocional. O grande desafio é garantir que esse debate seja construtivo e respeitoso, em vez de induzir e destruir possibilidades e oportunidades.

    Em relação à mudança e escassez de referências, as pessoas evoluem em suas opiniões e perspectivas ao longo do tempo, influenciadas por novas informações, experiências e contextos. O importante é que essas mudanças possibilitem programas e planos transparentes e baseados em princípios sólidos, e não somente em simpatia ou fanatismo.

    Embora a falta de experiência em gestão pública seja uma preocupação evidente, a presença de novos rostos pode trazer consigo novas ideias e perspectivas. O sucesso ou fracasso desses “moribundos ou fora da bolha” depende de suas capacidades de aprender, adaptar-se e contar com uma equipe capacitada para governar de maneira eficaz.

    A crise existente é de um reinado sem coroa, mas é preciso lembrar que a formação de líderes é um processo contínuo. Investir em educação, capacitação e desenvolvimento social é fundamental para garantir que haja um fluxo constante de indivíduos qualificados e preparados para assumir disposições diplomáticas. Mas, na prática, o que vemos é apenas apadrinhamentos, a velha compra de votos e troca de favores com cargos e financiadores.

    O populismo é, sim, uma resposta para as demandas públicas e pode ser uma ferramenta poderosa para mobilizar apoio e implementar mudanças. No entanto, é essencial que estes líderes sejam responsáveis e comprometidos com o bem-estar a longo prazo da sociedade.

    Seja como for, na minha humilde opinião pode ser o nome mais bem preparado, se não tiver apoio técnico, suporte intelectual, científico e humano, além da fiscalização, sucumbirá a um governo de segredos obscuros e de aprovaçoes subjetivas.

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