Não. Joe Biden não desistiu porque está senil. Não renunciou a sua candidatura porque se viu confuso no primeiro debate de fronte a seu arquirrival Donald Trump. Não deixou o páreo por obra do destino ou pelo coro insistente dos democratas. Biden não é mais candidato porque sua blindagem midiática não conseguiu resistir a um só lampejo da vida real sem teleprompter, discursos lidos, palavras enfeitadas pelo marketing ou passos milimetricamente programados. A maquiagem se dissolveu quando foi exposto ao sol escaldante e à luz incandescente da realidade.

Eleições são duras, e não são pautadas pelos partidos políticos, por marqueteiros ou por qualquer outra força oblíqua que não seja a conjuntura eleitoral. No cenário posto entre Trump e Biden, o primeiro já exibia características que se conectavam mais intimamente com os desejos insondáveis do eleitorado norte-americano. Os deslizes do presidente norte-americano só acenderam ainda mais os holofotes sobre o republicano. A baixa popularidade do atual presidente e o atentado sofrido pelo ex também deixaram os atores no palco com seus papeis mais pré-definidos: o antagonista de outrora passara a ser o protagonista e vice-versa.
E então entra em cena Kamala Harris. Ao mudarem-se os personagens, a história também geralmente muda. Quase que instantaneamente após a assunção de sua candidatura ao lugar de Biden, Harris conseguiu arregimentar US$ 81 milhões em doações para sua campanha. Em menos de 24 horas. O vento mudou? Eu não daria tanta certeza para a imprevisibilidade do tempo, mas é certo que os ares são outros. O silêncio do adversário após a sucessão de fatos renúncia-indicação-movimentação também acaba dizendo muita coisa.
Os jornais só falam de Kamala Harris. No mundo todo. No fim de semana passado, só se falava no tiro contra Trump. Os ventos mudam… mudam com rapidez. E no domingo que vem, quem será o protagonista dessa nova história? A eleição presidencial norte-americana acaba de recomeçar.
A política tem dessas coisas. Quantos vices você já viu assumirem a dianteira no meio da campanha e mudarem os rumos da eleição (para melhor ou para pior)? Quantas eleições ganhas foram para o brejo por um fato novo emergido das profundezas dos escândalos e que consagraram vitórias inesperadas? Nenhum candidato, nenhuma campanha estão imunes a reviravoltas.
O melhor, em uma campanha, é oferecer candidatos que sejam competitivos e não criar, a partir de candidatos ruins, produtos milagrosos, que, no marketing político, não existem. Cedo ou tarde, as máscaras caem, a maquiagem derrete e o teleprompter passa por um apagão. Certo é que não se sabe quem vai vencer em solo norte-americano: Trump ou Kamala? Mas a disputa já tem seu perdedor.









