
O PT chocou o Brasil ao colocar no ar, em 2002, o comercial em que ratos roíam a bandeira nacional enquanto ao fundo tocava, melodicamente, em um solo de violão, o nosso Hino, escrito por Francisco Manuel da Silva. A mensagem estava clara nos trinta segundos de imagem e no curto texto lido pelo locutor: “Ou a gente acaba com eles, ou eles acabam com o Brasil. Xô corrupção!”. O destino quis que o signatário da peça se visse envolvido no anômalo caso do Mensalão, três anos depois, e no Petrolão, 13 anos mais tarde, os maiores escândalos de corrupção do país. A vida imitou a arte, ao avesso. De todo modo, aquela era uma propaganda inteligente, que causou arrepios tanto quanto elogios.
Conceitualmente, considera-se “propaganda” a disseminação de ideias cuja proposta é difundir uma ideologia para uma audiência, com certo objetivo. A propaganda é uma instituição antiga e são muitas as evidências históricas do uso e do ato de prover ideias e ideais. É o caso dos brasões medievais e dos comícios políticos nas cidades gregas do período clássico, quando se destacou a retórica politica, em civilizações milenares, como no Egito Antigo e no Império Romano. Um dos marcos da propaganda ocorreu no século XVI, quando a Igreja Católica Romana instituiu o Congregatio de Propaganda Fide (Congregação de Propaganda), algo como uma comissão de cardeais encarregada das missões estrangeiras da Igreja.
O Partido Nazista do Reich, no regime liderado por Adolf Hitler na Alemanha, preocupava-se com as oscilações do sentimento coletivo na política e procurava, frequentemente, emitir mensagens de apelo, dramatizações, como de forma a interpelar seu publico para a ideologia totalitária. A propaganda politica nazista, liderada por um governo de cunho totalitário, controlada por ele e veiculada por diferentes meios, fez parte dessa sistematização de interpelações provocativas à sensibilidade politica dos alemães. A propaganda nazifascista exigia uma unidade de todas as atividades e ideologias. A moral e a educação estavam subordinados a ela. Sua imagem simples, imagética e agressiva visava provocar paixões para atingir diretamente as massas.
Regimes totalitários entenderam que os mecanismos de comunicação da época, muitos advindos da propaganda comercial norte-americana, poderiam ser úteis na disseminação da sua ideologia pela propaganda política.
No regime soviético comunista, a importância da propaganda política não foi diferente. Afinal, independentemente da ideologia do Estado ou do governo, ela sempre fora uma estratégia para o exercício do poder em qualquer regime, fossem eles totalitários ou democráticos. Assim, os soviéticos consideraram a propaganda como uma atividade política.
Pode-se dizer que, no Brasil, Getúlio Vargas fora o primeiro presidente a ter um “marqueteiro”, pois enviou o jornalista Lourival Fontes à Itália para conhecer de perto, com os assessores do ditador fascista Benito Mussolini, os processos de campanhas eleitorais e programas de comunicação ideológica, que redundaram depois na criação e direção, por ele mesmo, do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do programa de rádio ‘A hora do Brasil’, em 1935.
De lá para cá, os comerciais forem sendo aprimorados e acompanharam o surgimento das novas tecnologias. De Fernando Collor, candidato precursor das campanhas políticas com marketing profissional, como conhecemos hoje, a Lula, que reposicionou sua imagem do “metalúrgico sapo barbudo” para a figura “paz e amor” que acalmou o mercado financeiro e venceu sua primeira eleição.
Toda essa engenharia na construção de mecanismos de persuasão das massas, que outrora assumiam áreas de inteligência suprema dignas de prêmio, cedeu lugar a um modelo chucro de propaganda, embora não menos perspicaz. Hoje, o que assistimos em nossos minitelevisores chamados de smartphones é uma saraivada de peças de mau gosto e que, todavia, funcionam para estes tempos oblíquos. A construção inteligente de antes deu lugar ao humor disfórico, desagradável.
No lugar de um comercial que provoque uma densa posterior reflexão, a propaganda traz o caos, a desinformação, o anti-intelectualismo e o irracionalismo científico. O ataque ao social e ao político, já presente no liberalismo clássico, aparece agora radicalizado, sem o esteio da moral tradicional e, por isso, apresenta-se de modo especialmente destrutivo.
Mas é, todavia, o que funciona em um mundo carregado da ignorância, da fluidez de pensamento e da liquidez de sentimentos. Noam Chomsky, um dos maiores filósofos e ativistas políticos dos Estados Unidos, escreveu em seu livro ‘Controle de Mídia’ que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significa para o estado totalitário”. Os escritos são de 2003, mas parecem mais uma profecia.









