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Cowboy Carter, as cartas na mesa de Beyoncé com arte

Balançou o mercado mundial o último lançamento de Beyoncé: o álbum Cowboy Carter, obra relevante musicalmente e, além de tudo, manifesto contundente acerca do racismo norte-americano encarnado na música country.

Cowboy Carter, as cartas na mesa de Beyoncé com arte

Versarei neste artigo sobre alguns pontos específicos do disco. No entanto, vale concentrar na discussão sobre o peso do debate levantado pela artista, contexto histórico de uma dicotomia que ainda perdura.

É preciso enfatizar que, seja pela experiência sonora ou discursiva, Beyoncé, nascida em Houston, Texas, não desenvolveu um projeto apenas para tratar do assunto de forma afiada, mas para gritar ao mundo que ela, sim, também faz parte daquele universo presente na música norte-americana.

Segundo Charles L. Hughes, autor da obra “Country Soul: making music and making race in the american south”, “nos anos 1960 e 1970 nada simbolizava mais a divisão entre brancos e negros nos Estados Unidos do que os gêneros musicais country e soul”. “Jornalistas e estudiosos apresentavam o country como a voz autêntica dos brancos da classe trabalhadora e celebravam o soul como propriedade estética e econômica dos afro-americanos”, escreve.

O ponto central da obra, todavia, é mostrar o rico encontro dos estilos e de artistas negros e brancos naquela década. Hughes narra que esses atores compartilharam raízes, gravaram, compuseram e lançaram canções juntos. Estiveram ligados, portanto, mesmo que o consciente nacional já tivesse assimilado tal divisão. O autor confere essa sinergia ao que ele chama de um triângulo formado em Memphis e Nashville, no estado do Tennessee, e Muscle Shoals, no Alabama.

Esse encontro de raízes, de fato, encontra lugar na história dos EUA. A linguagem com violão “folkeada” de Cowboy Carter, por exemplo, guarda conexão com a canção “Big Brother”, de Stevie Wonder, no álbum “Talking Book”.

Na primeira faixa da coletânea de Beyoncé, Ameriican Requiem, ela canta que “diziam que eu falava country demais, mas a rejeição veio, disse que eu não era country o suficiente”. Ela viveu a situação em 2016, quando apresentou a faixa “Daddy Lessons” — country de “Lemonade” – e recebeu críticas por soar deslocada no gênero.

A artista, então, estudou mais o tema e trouxe em Cowboy Carter momentos como em “The Linda Martell Show”, faixa que apresenta a cantora que lançou um único álbum em 1970, o primeiro grande lançamento de uma negra no gênero. Em “Texas Hold ‘Em”, single do álbum, Beyoncé conta com Rhiannon Giddens, artista negra tocando banjo e com trajetória no country e no blues.

Mesmo com todo esse contexto, o racismo mostra suas garras com frequência – num recorte mais recente, de forma ainda mais incisiva com a ascensão de Donald Trump.

Em agosto de 2023, o G1 publicou matéria debatendo o cenário em que artistas country acusados de racismo estavam no topo da Billboard 100 dos EUA. O texto aponta que a música “Try That In A Small Town”, de Jason Aldean, entrou para a lista das mais ouvidas após ter se tornado alvo de uma enxurrada de críticas raciais, em julho do ano passado. O clipe do fonograma mostra imagens do movimento Black Lives Matter associadas a cenas de bandidos em ação.

Já a Rolling Stone veiculou reportagem sobre o artista de hip hope/R&B T-Pain. Ele, que escreve músicas para diversos artistas, inclusive do country, diz preferir que seu nome não conste nos créditos das composições deste estilo, pois não vale a pena diante “do racismo que vem depois”.

Dennis Chambers, baterista negro consagrado, disse em workshop no Brasil que ele gosta de todos os estilos, menos de Country.

A cultura pop já trouxe diversas abordagens também da relação do country com o racismo. Em Django, de Quentin Tarantino, há a cena dos capatazes se banhando e barbeando ao som do estilo, pouco antes do protagonista aparecer e “tacar fogo nos racistas”.

Aliás, a recusa de uma rádio country em tocar “Texas Hold ‘Em” e o espanto irônico do gerente da emissora lembra o susto de ver um negro a cavalo, como abordado em outra cena de Django.

Cowboy Carter, de Beyoncé, evoca todo esse debate e ainda é um primor como produção musical. Belas canções e arranjos, num álbum conceitual que vai além dos clichês do mercado atual – são 27 faixas e muitas canções com quatro, cinco minutos. Sem contar as belíssimas versões de Jolene, de Dolly Parton, e Blackbiird, dos Beatles.

Paul McCartney compôs a canção em resposta ao movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, destacando as mulheres negras.

Felipe Izar
Felipe Izar
Felipe Izar é jornalista músico e pós-graduado em marketing digital. São mais de 15 anos de experiência como profissional de comunicação: passou por redações de jornal, blogs, portais, assessorias de imprensa e escritório de marketing nas áreas de música, empresarial, política, de esportes e mais. Como compositor, lançou dois discos, um em 2018, “O Amor, A Escuridão E A Esperança”, e outro em 2022, “Fantástica Realidade”. Em 2023, disponibilizou no mercado curso online de assessoria de imprensa para artistas e profissionais da cultura, chamado Assessoria Autoral.

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