A política capixaba costuma premiar o pragmatismo e cobrar juros altos da lealdade ingênua. No xadrez eleitoral de 2026, o Partido Novo no Espírito Santo experimenta o amargo sabor dessa máxima.
Após selar um acordo com o Partido Liberal (PL) em agosto de 2025 para a disputa ao Senado, o presidente estadual do Novo, Iuri Aguiar, manteve-se fiel às diretrizes do senador Magno Malta. No entanto, com a afunilação do calendário das convenções partidárias, a sigla liberal recalculou a rota e deixou o aliado caminhando sozinho na raia eleitoral.
O cálculo das duas vagas ao Senado: transferência vs. alianças
A prioridade absoluta do PL capixaba é a eleição de Maguinha Malta ao Senado. Para formar a chapa majoritária ideal no eleitorado conservador, a conta política impõe uma pergunta simples: qual composição carrega mais densidade eleitoral no Espírito Santo?
Maguinha Malta e Evair de Melo: Reúne a herança e a militância da família Malta somadas ao peso do agronegócio e ao trânsito de Evair de Melo (Republicanos) no interior e com o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.
Maguinha Malta e Leonardo Monjardim: Reúne o recall do PL com o discurso de renovação liberal e urbana de Monjardim pelo Novo.
Na balança de forças da direita, a parceria com o Republicanos se sobrepôs. A entrada de Evair fortalece a base do prefeito Lorenzo Pazolini na corrida ao Governo do Estado, reduzindo o espaço para um “segundo voto” orientado a Monjardim.
Os acenos de Magno Malta e o jogo de cena na convenção
Na convenção estadual do PL, Magno Malta não formalizou a coligação total, mas fez um apelo público pela união da direita no palanque de Pazolini. Em tom messiânico, pediu tempo e fé, prometendo trazer de sua viagem a Israel os direcionamentos estratégicos para o pleito. Malta agradeceu publicamente a fidelidade do Novo, mas evitou pedir votos para Monjardim como segunda opção ao Senado.
O vereador e primeiro a ser registrado como candidato no Espírito Santo, Leonardo Monjardim disparou contra ações que conceitua como divisão da direita. “Esse movimento é um movimento de ruptura com a direita, de enfraquecimento da direita e pode possibilitar que a esquerda conquiste as duas vagas ao Senado”, declarou.
A confirmação do afastamento veio na convenção do Republicanos. O partido oficializou Pazolini ao governo e homologou a candidatura de Evair de Melo. Em vídeo enviado diretamente de Israel, Magno e Maguinha reafirmaram a aliança entre PL e Republicanos.
Para selar o tom, Karla Malta — presidente do PL Mulher-ES, irmã da candidata e filha do senador — discursou abertamente que o Estado tem a ganhar com a dupla Maguinha e Evair. Questionada formalmente, Karla buscou modular o discurso por nota:
“A Karla Malta, presidente do PL Mulher-ES, representou o senador na convenção do Republicanos. A manifestação dela está alinhada com as conversas que vêm sendo construídas entre os partidos. Neste momento, por uma questão de formalização em ata, o senador tem tratado essa articulação como uma aliança entre PL e Republicanos, deixando os encaminhamentos finais para o momento oportuno.”
Novo isolado: risco calculado ou prejuízo eleitoral?
Diante do afunilamento, Iuri Aguiar reconhece que o partido deve seguir de forma isolada, mas garante a manutenção dos compromissos éticos com o campo conservador. O dirigente pontua que a meta do Novo vai além das composições tradicionais: “Está muito claro para mim, vou no meu propósito e até dia 15 vamos decidir apoios ou não”.
Integrantes da executiva do Novo avaliam que uma candidatura avulsa pode trazer vantagens estratégicas:
Marca Própria: A preservação de uma chapa pura com Leonardo Monjardim ao Senado evita o desgaste com contradições da velha política e fortalece o discurso liberal.
Palanque Presidencial: Garante tempo de exposição e visibilidade exclusiva para a pré-candidatura de Romeu Zema no estado.
Sobrevivência Institucional: Foco direto no cumprimento da cláusula de barreira e na eleição de bancadas proporcional para a Câmara dos Deputados e Ales.
O prazo limite de 15 de agosto
Embora as convenções estejam encerradas, a legislação eleitoral concede às legendas o prazo final de registro de chapas até as 19 horas do dia 15 de agosto. Até lá, as atas partidárias permanecem abertas a alterações e arranjos de última hora. Se nada mudar, o Novo marchará sozinho, testando a força do seu discurso purista contra as pesadas máquinas partidárias do Espírito Santo.










