Que o apito final nos acorde

No próximo dia 19 acontece a final da Copa do Mundo de 2026. A última que a Seleção Brasileira disputou foi em 30 de junho de 2002 — mais de 24 anos, portanto. Se somarmos as crianças que, naquele dia feliz, tinham até seis anos de idade (e que “torciam” movidas pela festa, pelo movimento, pela mágica do esporte, ou porque foram vestidas e pintadas como adereços de dia de jogo), chegamos ao impressionante contingente de 88 milhões de brasileiros que jamais viram aquilo de que seus pais e amigos mais velhos falam, saudosos e entusiasmados: as glórias da “canarinho”.

É mais gente do que a população inteira de qualquer um dos atuais quartofinalistas — em alguns casos, mais de dez vezes, como a da Noruega, que nos despachou para casa.

Não representasse o futebol o que representa para o brasileiro, pouca gente estaria debatendo, discutindo ou brigando por conta desse tema — como se daria se o insucesso repetido acometesse nossas seleções de peteca, xadrez ou hipismo, para ficar em exemplos esdrúxulos, que igualmente apaixonam os poucos que os praticam.

Mas o tal “ludopédio” é patrimônio cultural, opção de trabalho e de sobrevivência para milhões aqui dentro, negócio (cada dia mais lucrativo e cabuloso) para um determinado grupo, e paixão para centenas de milhões de nós. E paixão não se explica, não se mede, não se avalia por prismas objetivos, lógicos, matemáticos: vive-se, ou não. Cai no campo do subjetivo, da intimidade de cada um, como religião, política, gostos em geral. Não fosse assim, como racionalizar o torcedor que, devendo até o almoço que ainda não comeu, se endivida para ver o time jogar em outro país? A tatuagem com o rosto do ídolo, feita no calor de um título, que dez anos depois ninguém além do tatuado reconhece? Ou a camisa (opinião minha…) horrorosa, amarelo-cheguei ou “gema-de-ovo”, coberta de adesivos de marcas pelos sovacos e afins, tratada como “manto sagrado”?

Definitivamente, não é lúcido escrutinar paixões com microscópios e tubos de ensaio. Mas isso não nos impede de tentar entender as razões — as antigas, já que nem problemas novos conseguimos criar nesses últimos 24 anos — do nosso cada dia mais vistoso “avanço para o regresso”. Algumas delas são culturais, coisas do nosso “ethos”, do nosso comportamento coletivo, da nossa criação nacional.

A mais aberrante é a concepção de que “somos Penta”. Não somos: fomos. Neste exato instante, somos o décimo primeiro colocado da Copa em curso. Não concorda? Então imagine a cena (infelizmente) distópica: Pelé, Garrincha, os Ronaldos, Romário, Didi, Nilton Santos e outros tantos gênios históricos chegando ao presidente da Fifa e exigindo que, pelo peso, pela tradição, pelas conquistas e pela paixão nacional, a nossa Seleção passe a disputar as próximas Copas já a partir das semifinais — vá lá, das quartas… Qualquer pessoa medianamente lúcida imagina o desfecho dessa embaixada.

Estilo também é fundamental nessa equação. Tomemos os ingleses, e não apenas no futebol. A Inglaterra entra em qualquer disputa — das guerras ao comércio, dos esportes à cultura — “como ela é”. Os gozos e as tragédias que os ingleses acumularam nos últimos séculos advieram exatamente de fazerem as coisas do modo deles, com a identidade deles.

Claro que, como todo povo inteligente (e nós somos igualmente), vão aprendendo com os erros, corrigindo o que for preciso e aperfeiçoando aquilo em que se deram bem. Nós, brasileiros, somos um povo “curioso”. Naquilo em que somos realmente bons — e somos, em muita coisa —, costumamos nos jactar e ufanar, exigindo colheitas futuras nas mesmíssimas proporções, mas não nos preocupamos, salvo raríssimas exceções, em evoluir, como se a bênção original bastasse à eternidade. Naquilo em que somos ruins, ou em que erramos, agimos ao contrário do inglês do exemplo: ou culpamos do tempo ao primo do vizinho pelo infausto, ou saímos a copiar, de maneira canhestra, o modelo alheio, na esperança de que a adaptação reproduza o sucesso do original.

Foi assim que os dribles, o jeito moleque e alegre, os recursos nascidos dos buracos dos campinhos de várzea, dos paralelepípedos e das topadas antigas foram sendo “trocados” por esquemas desenhados em pranchetas, cheios de termos estrangeiros, setas, proporções e filigranas que suíços e dinamarqueses aprendem no berço — transições e estratégias que demandam uma disciplina que não temos nem fomos forjados a ter.

O resultado está aí: bandos uniformizados com a canarinha querendo jogar como espanhóis, com a estratégia dos franceses, a força física dos alemães, a disciplina dos japoneses, o modelo dos italianos e a astúcia dos ingleses. Relegamos o que sabemos fazer — e que é o nosso diferencial — para enfrentar seleções que jogam exatamente como seus figurinos impõem, tentando superá-las justamente naquilo que elas fazem melhor do que nós.

Outra questão relevante: nossos técnicos não desaprenderam a dirigir times vitoriosos. Mas são trocados a cada derrota ou jogo ruim, muitas vezes no meio de campeonatos que duram um semestre todinho, como se a simples substituição resolvesse os problemas estruturais que justificaram a contratação deles no lugar dos anteriores — problemas jamais enfrentados na medida devida, exatamente porque planejamento a médio e longo prazo não figura entre as nossas “diretrizes nacionais”.

Por derradeiro, não há passe de mágica nem blindagem que impeça os problemas estruturais de nossas instituições — e a CBF é uma delas — de contaminar todo o processo. Somos humanos, e afetados, uns mais, outros totalmente, pelas estruturas que nos dirigem. Se uma entidade tem por paradigma ações e valores absolutamente desvirtuados, ou não se dedica a resolvê-los, dificilmente o resultado de seu trabalho diferirá daquilo que molda o seu cotidiano.

Não se colhem frutos bem formados, nutritivos e constantes de uma árvore maltratada, negligenciada, mutilada e coberta de pragas, só porque ela está lá, frondosa. Um fruto bom aqui, outro ali, é natural; mas a probabilidade da colheita ruim é astronomicamente maior do que a do contrário. Sem pessimismo, sem crítica de “engenheiro de obra pronta”, sem estapafúrdias em busca de likes e lacrações: paixões, histórias e estórias à parte, futebol é jogo de equipe. Demanda avaliação objetiva, esforço conjunto, equilíbrio estrutural, visão sistêmica e honesta da realidade, projetos impessoais e, sobretudo, talento, dedicação e propósitos bem definidos — postura absolutamente contrária ao “oba-oba” que, a cada quatro anos, nos irmana na crença de que “desta vez vai”, porque nascemos abençoados por Deus e bonitos por natureza.

No dia 19, um árbitro levará o apito à boca e encerrará mais uma Copa do Mundo. Para 88 milhões de brasileiros, será apenas o som de mais uma festa alheia — a sétima seguida. Podemos passar os próximos quatro anos embalando esse número no colo, cantando-lhe a eterna canção de ninar do “desta vez vai”. Ou podemos, enfim, admitir que hexa não se herda, não se exige e não se copia: constrói-se. Que o apito final, desta vez, não encerre apenas o jogo dos outros. Que ele nos acorde!

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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Comentários
  1. Grande texto professor! Realmente perdemos o senso do que nos faz tão grandes, tentando imitar, mas também se rebaixando aos patamares que os europeus querem. Nossos craques não podem ser tratados como craques prontos só porque jogaram em Real Madrid, Liverpool ou Barcelona, Endrick destruiu tudo aqui no Brasil, e quando chega a Europa vira só mais um, tentando se moldar ao que querem dele. A Seleção Brasileira precisa agir como um suporte direto e comprobatório de que nossos jogadores seguem sendo craques, independente se estão no banco de um técnico e time europeu ridículo.
    Talento temos de sobra, o que resta é dar a devida atenção a todo esse processo socio histórico da venda precoce dos nossos MENINOS a um continente que é, velho e acima de tudo, estrangeiro.

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