Dizem que, em certa terra de contornos familiares, os espelhos aprenderam a envelhecer antes dos homens.
Não rachavam — adaptavam-se.
Não mentiam — inclinavam-se.
E assim, pouco a pouco, deixaram de refletir rostos…
para refletir vontades.
Os rostos, percebendo a mudança, hesitaram entre duvidar dos espelhos ou de si mesmo.
Escolheram duvidar de si.
No ponto mais alto do território havia uma casa sem janelas largas, onde o tempo parecia não passar — apenas reinterpretar-se.
Ali, não se dizia o que era.
Dizia-se o que poderia ter sido.
Ou o que, talvez, sempre tivesse sido — embora ninguém lembrasse assim.
As palavras, antes estáveis como pedra, tornaram-se líquidas.
E, como toda água, passaram a assumir a forma do recipiente que as continha.
Há lugares onde o sentido não nasce — é moldado.
Os antigos anciãos das formas — acostumados a lidar com estruturas e limites — começaram a perceber que o chão sob seus pés já não era exatamente chão.
Era algo mais sutil.
Uma espécie de superfície móvel, firme o suficiente para caminhar…
instável o suficiente para não garantir o próximo passo.
Mas nada se rompia.
Tudo apenas se deslocava.
Nem toda mudança faz barulho; algumas apenas reposicionam o silêncio.
Nos corredores desse mundo, evitava-se nomear.
Os nomes, afinal, carregam peso — e peso exige responsabilidade.
Preferia-se sugerir.
Insinuar.
Deixar que as conexões surgissem sozinhas — como se nunca tivessem sido guiadas. Ou se guiadas, que não se dessem nomes ao “guiador” ou, se desse, que parecesse ser o caminho mais prudente.
Enquanto isso, do lado de fora, os rostos continuavam a escolher caminhos — ainda que os mapas, curiosamente, passassem a redesenhar-se depois da escolha.
Votava-se como quem escreve.
Mas lia-se sob as lentes convexas.
Instaurou-se, então, uma ordem difícil de nomear:
Nada era proibido — apenas improvável.
Nada era imposto — apenas inevitável.
Nada era absoluto — exceto a sensação de que certos movimentos já não encontravam resistência.
E talvez o mais intrigante fosse isso:
Ninguém se declarava acima de tudo.
Mas tudo, de algum modo, parecia já estar abaixo.
Restou, então, aos rostos um gesto raro:
desviar o olhar.
Não por covardia — mas por intuição.
Porque, às vezes, enxergar diretamente é menos revelador do que perceber pelos cantos.
E foi assim que alguns começaram a notar:
Que os espelhos não haviam mudado sozinhos.
Mas também não precisavam mais explicar os “porquês”.









