No dia 10 de outubro, publiquei neste espaço sobre uma chance para artistas autorais gravarem com grandes músicos, projeto da empresa Elo. As inscrições, que se findaram dia 18 do mesmo mês, eram para artistas solo que dialogassem com estilos musicais no âmbito do que é considerado “música regional” pelo Ministério da Cultura: Axé, Carimbó, Samba, Maracatu, Forró, Boi da Amazônia, Funk Carioca, Milonga, Rap de São Paulo e Tecnobrega do Pará.
Os vencedores do concurso ganham a oportunidade de gravar com nomes como Lenine, Daniela Mercury, Valesca Popozuda, Gaby Amarantos e outros. Nada mal, certo?
Até aqui a primeira polêmica já havia sido criada. Muito músicos se sentiram fora de cena e discordaram de o projeto não contemplar estilos como pop, rock e, inclusive, o que se denomina como MPB no Brasil contemporâneo.
A discussão é relevante, sim. Mas há outro detalhe “invisível” que merece ser elucidado e que sustenta o título deste artigo: a música e o fantasma do identitarismo. O tema complexo tem sido objeto de discussão – entre filósofos, historiadores, escritores, ativistas – e apontado como uma pauta urgente.
No projeto da Elo, mesmo com o discurso de valorizar a música regional brasileira, apenas 10 músicos de todo o país estão aptos a serem contemplados com tudo o que raramente um artista independente teria como investir: R$ 10 mil para se preparar, despesas pagas, estúdio profissional, distribuição no streaming, suporte de agência de marketing, assessoria de imprensa e o feat dos sonhos.
Apenas 10 artistas.

É exatamente nesse discurso que colore a realidade, mas privilegia 1% da população, o principal cerne do assunto. O filósofo e escritor Jessé Souza, com uma linha de pensamento abertamente à esquerda, nomeia esse contexto de “identitarismo neoliberal”.
Ele escreve, em artigo publicado no ICL Notícias*, que o identitarismo neoliberal “é aquele que se baseia na ascensão individual dos membros mais aptos dos segmentos oprimidos, ou seja, cerca de no máximo 1% das mulheres ou negros, os quais comparativamente tiveram mais acesso ao capital cultural, deixando os 99% que ficam de fora, com o esgoto a céu aberto, em posição ainda muito pior que antes, já que são forçados a perceber sua condição como culpa própria”.
O marketing de divulgação do cartão Elo é todo pautado nessa incongruência invisível. “Elo é para todos os brasileiros”, salta aos olhos o slogan no site da empresa, sobre as imagens de Zeca Pagodinho, Caio Castro e Glória Pires. No topo da página, a apresentação do novo cartão, “mais moderno e ainda mais brasileiro”, com a eterna Alcione na imagem.
O projeto da Elo, portanto, que seleciona poucos “sortudos e competentes” para um feat com nomes consagrados da música, me parece ser uma representação evidente de um identitarismo apenas para sustentar a marca. Sem olhar para a maioria – apesar de a empresa ser voltada em seu discurso para a diversidade -, trata-se de uma ostentação de parcerias musicais reduzidas a esses personagens consagrados, os quais são usados para conceder legitimidade à empresa.
Não é muito diferente da desastrosa campanha da Bauducco que lançou a música “Magia Amarela” nas plataformas digitais. Campanha protagonizada por Duda Beat e Juliette, artistas que, até o desabrochar da polêmica, toparam ter a canção como parte de suas próprias discografias.
Como sabido, a iniciativa foi comparada e apontada como plágio do Projeto AmarElo, do rapper Emicida, que chegou a ser procurado para representar a campanha. Dentro desse assunto, foi certeira a manifestação do irmão e produtor de Emicida, Evandro Fióti. “A gente levou 12 anos para ganhar o Grammy. E o trabalho que a gente ganhou um Grammy acabou de ser roubado conceitualmente”, lamentou.
O fantasma do identitarismo, concordo com Jessé, está mais nesse aspecto que alimenta um sistema de desigualdade histórica no país. E muito menos no sentido de que há uma nova geração de militantes menos preocupada com direitos e mais em afirmar identidades. É a famosa lacração, e o que a extrema direita, sempre influenciada pelo viés norte-americano, aprendeu neste 2024 a chamar de agenda “woke” – prometo, você vai escutar esse termo em muitos churrascos de amigos e reuniões de família.
Existe, sim, o risco de uma militância vazia. E nós vimos nos últimos anos eventos de música autoral, com discurso identitário, serem vitrine (mesmo que a culpa não tenha sido, necessariamente, do evento) de práticas de blackface e situações racistas.
Mas o importante do debate agora – e a música e a cultura são fundamentais – é não reduzir a importância da luta identitária quando ela, de fato, representa a maioria.










Parabéns pelo texto!