O 3° Prêmio da Música Capixaba aconteceu na última terça-feira, dia 29, no Teatro da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), com a premissa de escolher os melhores artistas e trabalhadores do ano de 2023 no contexto autoral e de mercado.
Listas e premiações são sempre assuntos polêmicos, criticadas por quem perde (muitas vezes com razão) e, claro, celebradas por quem triunfa. Diferentemente da Bola de Ouro, entretanto, que ignorou a vitória técnica e humana de Vinícius Junior, o evento capixaba para artistas, mais do que triunfos e derrotas, tem funcionado como propulsor de autoestima aos trabalhadores do mercado musical. E isso não é pouco.
Artistas se vestem como estrelas do Grammy, tomando um lugar ao sol e não submetendo-se a um espetáculo irrelevante. Os discursos dos premiados são emocionantes. E ainda melhores quando evocam manifestação política na relação com o mundo. Muitos ali – pretos, pardos, brancos, gays – poucas vezes tiveram a chance de sentir tal relevância ao falar, numa classe de trabalhadores que, no geral, antes de atingir determinada fama, se vê muitas vezes humilhada pela informalidade e pelos baixos retornos financeiros.
A rapper Afronta, vencedora na categoria “Destaque LGBTQIAPN+”, fez discurso certeiro ao receber o prêmio: “Às vezes as pessoas não reconhecem o tamanho do que a gente faz. E a gente sempre entrega muita coisa, muita beleza, muita excelência. Isso é sério. Pessoas como eu estão morrendo aí na rua. E por isso é muito importante estarmos celebrando o fato de ter uma aqui recebendo um prêmio”, manifestou-se.
Voltando ao quesito financeiro, este é um que precisa mudar urgentemente em festivais e premiações que envolvem a música autoral.
Aqui no Espírito Santo, esse contexto na relação com o artista é melhor do que já vi em outros estados. Mas, no geral, a cultura de que o músico tem de aproveitar o espaço para mostrar seu trabalho, mas sem retorno financeiro adequado, não faz sentido como regra de mercado. Faz sentido em muitas ocasiões. Mas, repito, não como regra.
Feito o balanço, o Prêmio da Música Capixaba veio para ficar e tem desempenhado um papel muito importante no cenário musical e autoral.
O evento ainda fez acertada homenagem ao grande Alexandre Lima, músico, guitarrista e compositor que foi aos céus este ano. O homem do futuro que deixou canções clássicas para a história da música no Espírito Santo.
Durante o Prêmio, a cada passagem, quando eram revelados os vencedores da noite, uma canção de Alex ressoava no palco da Ufes. Ao vivo, André Prando cantou duas das mais celebradas faixas do compositor: “Água de Benzer” e “Festa no Céu”. A família de Alexandre Lima, representada por sua mãe, dona Vera, e pelas filhas Sofia e Mariana, subiram ao palco para receber a homenagem da música capixaba.
Abaixo, a lista dos vencedores e alguns destaques apontados pela coluna.
Budah
A rapper estelar Budah é um dos grandes destaques da música do Espírito Santo nos últimos anos. Neste Prêmio, ela venceu nas categorias “Melhor EP” (de título homônimo), ao lado de Ada Koffi (“Entrelaçar”), e “Artista Solo ou Duo”. E demonstra potente ascensão na carreira. Aliás, ascensão difícil de não ser premiada e que rendeu contrato com a Universal Music em 2023.
Mais: uma indicação ao “BET Hip Hop Awards 2024” na categoria “Melhor flow internacional”.
Neste 2024 – apesar de não ter entrado na conta do evento, pois as premiações são referentes ao ano anterior -, Budah lançou seu primeiro álbum, “Púrpura”.
Os tradicionais feats do mundo do rap contemporâneo estão lá no disco, mas já com nomes de peso do mercado: Duda Beat, Djonga, Delacruz e outros. Em seus shows, as músicas autorais já estão sendo ecoadas pelo público. E nos festivais ela é um nome que sempre aparece no radar.
Nascida Brenda Rangel em Vila Velha (ES) e criada em Cariacica (ES) em família musical, Budah “tem o molho”, como diz a linguagem pop, e está fazendo o nome dela, ela.
Thaysa Pizzolato
Outro destaque apontado pela coluna é a musicista Thaysa Pizzolato, que venceu na categoria “Melhor Instrumentista” do Prêmio da Música Capixaba. Se ela é mesmo a melhor que tocou ou não em 2023, importa pouco. Essa comparação no que diz respeito apenas à habilidade é descabida, adorada por fãs de Heavy Metal – “Eloy Casagrande é o melhor baterista do mundo”, ouvi outro dia de um.
Thaysa é craque, sim. Mas a construção que ela tem feito da carreira vai além desses termos; de forma consistente e interessante. Como tecladista, ela acompanha artistas no Espírito Santo, como André Prando, e já participou de projetos fora, ao lado da cantora carioca Clarissa, por exemplo.
Thaysa, sem um jeito virtual histriônico e com uma comunicação digital mais low profile, faz muitos shows no mundo real. E em muitos projetos, inclusive no dela. A musicista brilha em suas apresentações solo instrumental, marcados por sintetizadores e psicodelia.
Neste ano, Thaysa participou do Marte Festival, em Ouro Preto. Também lançou o single Gemini, nas plataformas digitais e no YouTube, além de ser artista da Stay Music. Merece prêmio.
Cesar MC
“O moleque é brabo”. A gíria da juventude, certamente, nasceu para músicos e rappers como Cesar MC, o vencedor da categoria “Melhor Álbum”, com Ligações Estranhas (2023), no Prêmio da Música Capixaba.
O trabalho dele está ambientado dentro de todas as características do trap atual, com seus beats e vozes “autotunadas”. Mas o recado é sério, já superou a “literatura” juvenil e claramente é influenciado pelos históricos Racionais MCs e outros artistas de tal linhagem.
Já na primeira canção de Ligações Estranhas, “Art.ficial”, Cesar manda a letra: “A arte me provoca além do que as ‘métrica pede’”. Brabo.
Os vencedores do Prêmio da Música Capixaba
– Álbum
Cesar MC – Ligações estranhas
– Capa
W.I. – Elevado – Artista Visual: W.I
– Composição
Dan Abranches – Nem todo Ouro
– EP
Ada Koffi – Entrelaçar
Budah – Budah
– Música
Caju – Sinestesia
– Videoclipe
Ada Koffi – Água Salgada – Direção: Wyucler Rodrigues
– Show
Luiza Dutra – Meu canto
– Artista Solo ou Duo
Budah
– DJ
DJ Gegeo
– Grupo/banda
Dead Fish
– Impacto Social através da Música
Instituto Serenata de Favela
– Instrumentista
Thaysa Pizzolato
– Intérprete
Anastácia
– Intérprete de Libras
Sunshine Zanoni
– Destaque LGBTQIAPN+
Afronta
– Linguagens Urbanas
Karolla DJ
– Produção Musical
Rodolfo Simor
JaySant’
– Revelação
Caju
– Destaque Vozes Negras
Sthelô
– Diretor de Palco
Viturino
– Técnico de luz
Julio Sunderhus
– Luthier
Pablo Moá
Waldez
– Produção Executiva
Sandrinha
– Roadie
Eskerda
– Técnico de áudio estúdio
Igor Comério
– Técnico de áudio palco
Igor Baba










mais uma coluna primorosa!!