O rap ganhou a juventude, mas continua valorizando só os artistas homens

Confesso que acho curioso quando os roqueiros das antigas, tal como Tico Santa Cruz (Detonautas), falam de boca cheia que o trap é o novo rock. A avaliação é que o subgênero do rap assumiu a postura questionadora e politicamente incorreta que outrora o rock despertava. Para a juventude, como era o rock and roll dos anos 80 no Brasil, o trap é o ambiente “perigoso” a ser experimentado: sexy e desafiador.

Mas há outro detalhe em comum entre os dois gêneros que tem sido pouco comparado: a valorização majoritária dos artistas masculinos. Esta não é apenas uma percepção deste colunista, homem-branco, mas um fato que tem sido questionado pelas minas do estilo há bastante tempo.

No caso do trap voltado para o entretenimento é ainda pior. As letras tratam a mulher como objeto de forma escancarada, como em “Quer Voar”, de Matuê:

_“The gun is on the table, quer aprender inglês? (Uau)
Ela vem treinar boca uma aula por mês (uau)
E tome, tome, tome, bebe, bebe, tome, tome”_

Um tanto agressiva, apesar de ser normal no ritmo falar de sexo abertamente. Além de ter um pouco do grito do jovem (Matuê) que ascendeu socialmente em meio a tantas dificuldades e preconceitos.

Todavia, exatamente por esse contexto que envolve dor, consciência e redenção é estranha uma demora tão grande para que as oportunidades sejam mais iguais entre homens e mulheres nesse gênero musical.

Há um exemplo claro aqui no Espírito Santo sobre o contexto, o que me instigou a escrever estas linhas. No próximo 31 de agosto vai acontecer o Boom Rap Festival, no estádio Kleber Andrade, em Cariacica. Entre os artistas do line-up, 11 são homens e apenas uma mulher, a jovem estelar Budah, foi lembrada para compor o elenco. O “clube do bolinha” da juventude está todo lá: Matuê, MC Cabelinho, Djonga, Dudu e companhia.

A coluna entrou em contato com uma rapper do ES para falar sobre o assunto. E, apesar de ela ter falado muito, preferiu não revelar a identidade por receio de os produtores desses festivais a boicotarem ainda mais.

O rap ganhou a juventude, mas continua valorizando só os artistas homens

Mas ela confirma como essa desvalorização feminina no rap é agressiva e recorrente. “Isso é o que eu venho passando já há muitos anos. Já estou saturada e triste com essas coisas”, desabafou.

“As pessoas me querem em eventos para me colocar em uma mesa e falar sobre o hip-hop, a representatividade do hip-hop, tananã, tananã… Mas as pessoas não querem a minha música, tá ligado. As pessoas não querem ouvir o meu show, não querem ver o que eu preparei para elas. Meu ranço e meu ódio são tão grandes que às vezes nem tenho o prazer de tocar”, revelou.

A rapper também conta que o tratamento para negociar o cachê é totalmente diferente quando se trata das mulheres.

“Os contrarantes querem dar preço no nosso trabalho, nem deixam a gente enviar orçamento. Eles querem condicionar ao jeito deles. Não querem fazer como eles fazem fazem com todos os machos: perguntam orçamento, perguntam tudo. Pra gente, não. Eles falam: ‘oh, temos tanto e é isso’. E a gente que se lasque com roupa, com maquiagem, com transporte e com tudo que a gente precisa resolver”, finaliza.

A coluna procurou a produção do Boom Rap Festival para um posicionamento. Em nota, os organizadores afirmaram que “reforçam seu compromisso em trazer os shows mais pedidos pelo público amante do rap e do trap para uma noite de celebração do gênero no Estado”.

Felipe Izar
Felipe Izar
Felipe Izar é jornalista, músico e pós-graduado em marketing digital. São mais de 15 anos de experiência como profissional de comunicação: passou por redações de jornal, blogs, portais, assessorias de imprensa e escritório de marketing nas áreas de música, empresarial, política, de esportes e mais.

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