Não seria tão fácil ou rápido assim para Samuel Rosa se desvincular das linhas de composição da banda que o consagrou por três décadas. No Skank, grupo mineiro que findou suas atividades em março de 2023, após show apoteótico no Mineirão, em Belo Horizonte, era o próprio Samuel o principal artesão das melodias e das batidas de violão e guitarra.
Foi nessa mesma toada, portanto, que o artista lançou seu primeiro álbum solo na última semana, cujo nome autorreferencial, “Rosa”, já não deixava dúvidas sobre um processo inicial de quase continuidade do Skank.
É um disco fácil de assimilar, com bonitas canções e arranjos. Samuel Rosa é um dos grandes compositores do pop rock nacional. A depender do espírito, o ouvinte vai apenas curtir, ou lembrar que o álbum é “muito Skank”. E está tudo certo.
Se o leitor quiser comparar, a canção “Segue o Jogo” (Samuel Rosa), oitava faixa de “Rosa”, lançada como single antes do trabalho completo, nos leva imediatamente à rítmica de “Balada do Amor Inabalável”, condução bem característica do compositor.
Já em “Não Tenha Dó” (Samuel Rosa), terceira e belíssima faixa, é até difícil saber com qual do Skank ela mais se parece, de tão ligada ao cancioneiro da banda mineira ela está, na melodia, na “batida” ou no arranjo.
Já “Me Dê Você” (Samuel Rosa e Carlos Rennó), que abre o álbum, evoca a pegada do clássico segundo álbum do Skank, “Calango” (1994), apesar de ser um pouco mais contida em relação ao ímpeto dos jovens de outrora.
A romântica “Rio Dentro do Mar” (Samuel Rosa), sétima faixa, por sua vez, tem atmosfera e melodia que nos levam a canções como “Sutilmente” e “Algo Parecido”. E, como divulgou em seu release o próprio Samuel, “Flores da Rua” (Samuel Rosa e João Ferreira), sexta do álbum, “se conecta com ‘Ainda Gosto Dela’, “com pitadas de rock dos anos 1980 e beats”.
A semelhança com o Skank no primeiro disco solo de Samuel, aliás, não é escondida pela divulgação do trabalho. Ao contrário, é como se o músico quisesse confirmar ter sido o principal elemento do processo criativo durante os 30 anos de Skank. “Não é um disco de ruptura, não”, atesta o próprio compositor”, em coletiva oficial que a coluna teve acesso.
O que mais mudou agora, entretanto, foi o processo final de decisão, que não precisará ser mais democraticamente debatido com outros três integrantes, Lelo Zaneti, Haroldo Ferrerti e Henrique Portugal, além do empresário Fernando Furtado, fundador da banda mineira ao lado de Samuel.
Na coletiva, o artista contou mais sobre essa mudança de perspectiva. “Eu gosto muito de trabalhar em grupo. Acho que as diferenças nos fazem completar uns aos outros. O meu encontro com os meninos (Lelo, Haroldo e Henrique) foi muito bonito. Mas é diferente. Uma banda você submete toda e qualquer decisão ao crivo dos integrantes. Uma vez cumprido esse ciclo, está na hora de eu me resolver comigo mesmo. Me deu vontade de ter mais as rédeas nas mãos, de ser dono das minhas próprias escolhas”, pontua Rosa.
Ainda sobre a carreira solo e a chegada do álbum, Samuel Rosa faz uma autocrítica em relação ao Skank. Diz que a banda, sempre meritória ao se reinventar e permanecer no topo pelos 30 anos, já estava perdendo a “verve criativa no final, muito por conta do nível de repetição daquele pacto do confortável, daquilo que ampara, muito mais do que o risco, a angústia ou o medo”.
Mudar tudo isso é de fato uma aventura após tantos anos. E Rosa certamente terá tempo para cruzar caminhos mais desconfortáveis, apesar de ter optado pelo início com repertório “seguro” e, merecidamente, carregar no “mochilão” o merecido recall de sua carreira.
Interessante no álbum “Rosa” foi o processo de composição. Nada exatamente novo, mas uma jornada com um recado que faz diferença quando alguém com o peso do compositor reverbera: foi uma trajetória com banda, erros e acertos, imersões, conceitos e sem a correria frenética exigida por um mercado pop atual que se reduz a viralizações efêmeras.
“É tudo muito rápido, ansioso. Acredito que hoje exista uma benéfica fragmentação do mercado fonográfico. Há aquele que quer seguir o mercado à risca, o artista que lança um single por semana; e aquele outro que conduz a carreira de uma forma mais moderada. O primeiro modelo não é a demanda do artista, mas da indústria de hoje, supersônica, frenética. E tem muita gente que aceita. Mas minha carreira não foi construída assim”, conclui Rosa.
O artista agora viaja pelo Brasil em turnê para apresentar as canções do novo álbum – e também celebrar as do Skank. No dia 27 de julho, Samuel Rosa desembarca em Vitória para o show no palco do Espaço Patrick Ribeiro.









