Monumentos são reservatórios de memória e como tal, dialogam através do tempo com o espaço público que habitam, assim como, com a população do lugar. É comum se homenagear heróis militares, imponentes em seus belos cavalos e uniformes, assim como expoentes intelectuais e artistas, todos garantidos no memorial afetivo da História. A personagem desse artigo, foge a essa regra.
Do alto de sua trajetória de mulher trabalhadora, negra e de periferia, Dona Domingas nos desafia, aos pés da escadaria do Palácio Anchieta. Sobre ela, pouco se sabe e muito se imagina. Retratada com um saco nas costas, essa mulher percorreu as ruas da capital em busca de seu sustento, recolhendo papel ou algo que lhe pudesse servir como material de troca, sempre de cabeça erguida e tendo, além do saco, um inseparável cajado que lhe servia de apoio.
São inúmeros os relatos a respeito da trajetória dessa mulher, todos carecem de comprovação. O que podemos afirmar é que foi retratada pelo escultor italiano Carlo Crepaz que a transformou em escultura e posteriormente instalada aos pés da escadaria Barbara Lindemberg, pelas mãos do então prefeito Chrisógono Teixeira da Cruz, figura conhecida não só por sua atuação política no estado do Espírito Santo, assim como seu apreço por obras de Arte.
O resgate da Mulher Domingas, tem sido objetivo de estudos e pesquisas do LEENA (Laboratório de Extensão e Pesquisa em Arte da Universidade Federal do Espírito Santo) e perpassa por trazer à tona a existência dessa mulher, não só enquanto estatuário, mas como cidadã. Algumas perguntas insistem em nos assombrar e motivam a caminhada ao
encontro de Domingas: Qual sua data de nascimento? Qual a data de sua morte? Quando foi inaugurada sua estátua?
Todas essas indagações, a despeito de narrativas sem comprovação documental, continuam sem resposta. O desafio de garantir a cidadania a essa mulher, vai além de um estudo do objeto, trata-se de uma tentativa de resinificar uma História praticamente invisibilidade, mesmo estando no centro da capital do poder.
Importante ainda ressaltar o caráter social dessa pesquisa, no que diz respeito a representatividade de Domingas enquanto componente de uma classe étnica racial historicamente apagadas, ignoradas. Assim sendo, a busca incansável por ferramentas que possibilitem a representação digna dessa cidadã, confere ao desafio, um caráter absolutamente urgente.
Fabíola Fraga Nunes
Mestranda em Artes pela UFES
Pesquisadora dos monumentos públicos de Vitória
Pesquisadora do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Arte (LEENA/UFES)












Dona Domingas tem, sim, certidão de nascimento e óbito. Quando fiz a sua biografia “A Pietá do Lixo – Dona Domingas, consta os documentos dela e de parte de toda família.
Nasceu em 23 de março de 1884 no Rio de Janeiro. Foi casada com Mario Manoel do Sacramento. Faleceu em 1 de junho de 1966, aos 82 anos, na Rua Alzira Viana Morro, Vitória/ES. Enterrada no Cemitério de Santo Antonio/ES em 1 de junho de 1966. Deixou bens e um filho de nome José Paulo Bomfim. nasceu em Vitória/ES, em 30 de julho de 1927. Foi casado com Teresa Rosa Techette Bomfim. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 59 anos, em 1 de maio de 1988 e foi enterrado no Cemitério Olinda–RJ (Cemitério Municipal de Nilópolis). Não deixou bens. Deixou 3 filhos maiores. Na verdade, faleceu com 61 anos, já que nasceu em 1927.