Quatro em cada dez mulheres no Brasil, o equivalente a 39%, já abriram mão de uma vaga de emprego ou de uma oportunidade profissional por dificuldades relacionadas ao deslocamento. Os principais obstáculos apontados são a falta de segurança, o custo do transporte, o tempo gasto nos trajetos e a distância.
Os dados fazem parte da pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizada pela Indique, consultoria de diversidade e inclusão racial, em parceria com a organização feminista Think Eva e a empresa 99.
O levantamento ouviu 564 mulheres entre 18 e 60 anos, de diferentes regiões e classes sociais. A coleta quantitativa ocorreu entre 8 de junho e 9 de julho de 2026, em dez capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém — e em outras 73 cidades.
A dificuldade de deslocamento também interfere em outras oportunidades profissionais. Segundo a pesquisa, 54% das entrevistadas já deixaram de comparecer a um compromisso de trabalho ou recusaram um convite profissional por problemas relacionados ao trajeto.
Além disso, 21% disseram já ter desistido de fazer alguma capacitação, incluindo cursos de graduação.
Insegurança é o principal obstáculo
Entre os fatores que dificultam a mobilidade das mulheres, a insegurança ou o medo da violência aparece em primeiro lugar. O problema foi apontado por 32% das entrevistadas.
Na sequência estão a falta de dinheiro, mencionada por 22%, a precariedade do transporte público, citada por 15%, e a distância dos locais de destino, apontada por 14%.
A sensação de insegurança também provoca mudanças na rotina. Segundo o levantamento, 87% das mulheres evitam determinados bairros ou regiões da cidade por esse motivo.
Outras 73% afirmam que planejam os horários dos deslocamentos para reduzir riscos. Além disso, 63% já evitaram algum meio de transporte e 60% disseram já ter escolhido outro caminho para chegar ao destino.
Medo também afeta lazer e vida pessoal
As limitações não se restringem ao trabalho e aos estudos. O levantamento mostra que 80% das entrevistadas já deixaram de participar de encontros, eventos ou outras atividades por dificuldades relacionadas à mobilidade.
Entre elas, 33% já abriram mão de atividades físicas ou de lazer, enquanto 32% deixaram de visitar familiares ou amigos.
O impacto é ainda maior quando se trata de sair à noite: 69% das mulheres afirmaram já ter desistido desse tipo de atividade.
Renda influencia escolha do transporte
A pesquisa também aponta diferenças no acesso aos meios de transporte de acordo com a renda.
Entre as mulheres de baixa renda, 80,3% usam ônibus regularmente, enquanto o percentual cai para 52,1% entre aquelas de alta renda.
O cenário se inverte quando o meio de transporte é o carro próprio. O veículo é utilizado regularmente por 40,6% das mulheres de alta renda, contra apenas 8,3% das mulheres de baixa renda.
Os dados mostram, segundo o estudo, que a condição financeira interfere diretamente nas possibilidades de deslocamento disponíveis para as mulheres.
Responsabilidades de cuidado também pesam
Outro aspecto analisado pela pesquisa é o trabalho de cuidado, historicamente atribuído às mulheres.
Mais da metade das entrevistadas, 54%, afirma exercer esse tipo de atividade sozinha. Outras 38% dizem dividir as responsabilidades com outras pessoas.
Por isso, os deslocamentos de muitas mulheres não se resumem ao trajeto entre casa e trabalho. O caminho pode incluir paradas para levar filhos à escola, acompanhar familiares em consultas médicas, ir a farmácias ou fazer compras.
Segundo a pesquisa, 43% das entrevistadas planejam sozinhas os trajetos relacionados a essas responsabilidades. Para 44%, essas tarefas também influenciam a escolha do meio de transporte.
Quando precisam transportar dependentes, como crianças, idosos ou pessoas com deficiência, 53% recorrem a carros por aplicativo.
Pesquisa mostra impacto sobre oportunidades
Os resultados indicam que as dificuldades de mobilidade podem representar uma barreira para o acesso das mulheres a oportunidades de trabalho, educação, lazer e convivência social.
A pesquisa também apresenta relatos de mulheres que precisaram fazer escolhas profissionais ou acadêmicas levando em consideração as condições de deslocamento.
Uma das entrevistadas, por exemplo, contou que a aprovação em uma graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não pôde ser vivida plenamente como uma conquista diante das dificuldades relacionadas ao deslocamento.
Além da etapa quantitativa, o estudo contou com contribuições de especialistas em temas como planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina, desigualdades territoriais, periferias e mobilidade ativa.
*As informações são da Agência Brasil










