Morreu de causas naturais, aos 98 anos, a atriz Laura Cardoso, uma das grandes damas da dramaturgia brasileira. A informação foi confirmada na madrugada desta terça-feira (18), pelas redes sociais da artista, onde ela mantinha contato com os fãs.
“Nossa grande estrela se despediu de nós”, escreveu Fernado Faria, bisneto da atriz, que administra a página no Instagram. “Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso.”
Assim, chega ao fim uma trajetória monumental de mais de oito décadas dedicadas à dramaturgia, numa carreira que começou na rádio e no teatro e que, eventualmente, foi uma das responsáveis por fundar e estruturar os alicerces da televisão brasileira.
Filha de ex-camponeses da região portuguesa de Trás-os-Montes, Laurinda de Jesus Cardoso nasceu na capi tal paulista em 13 de setembro de 1927 e morou, durante a infância, num cortiço no Bixiga, na região central de São Paulo.
O prazer de ler para seus pais e, mais tarde, o orgulho de ser requisitada para recitar para as colegas de ginásio, no colégio de freiras, despertaram seu interesse para as artes cênicas logo cedo.
Iniciou a carreira na Rádio Cosmos aos 16 anos, atuando em programas de auditório, humorísticos e radionovelas. Em 1946, estava na Rádio Tupi quando conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, com quem Laura se casaria e que seria seu marido até a sua morte, em 1980, aos 57 anos.
Logo os dois foram para a Rádio Bandeirantes, tempo em que também, com seu grupo de radioteatro, faziam pequenas esquetes em circos da periferia, às vezes sem remuneração. Em 1948, destacou-se como a menina Laurinha de “Ciranda, Cirandinha”, na Rádio Cultura. De volta à Tupi, fez radionovelas com direção de Otávio Gabus Mendes.
A era de ouro das radionovelas serviu como sua grande escola formativa. A necessidade de traduzir intenções psicológicas, conflitos e nuances dramáticas exclusivamente por meio da impostação vocal, do ritmo e da respiração moldou o domínio técnico que se tornaria sua principal assinatura e ainda a preparou para dialogar com a sensibilidade do público popular.
Com a inauguração da televisão brasileira na década de 1950, Laura ingressou no elenco pioneiro da TV Tupi, tornando-se figura central dos célebres teleteatros ao vivo. Em 1952, fez sua estreia com “Tribunal do Coração”, e ali ficou, como parte do elenco fixo de teleteatro, por 15 anos.
Em “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”, estrelou adaptações de clássicos da literatura, sob a direção de medalhões como Cassiano Gabus Mendes, Vida Alves, Wanda Kosmo e Walter George Durst, entre outros.
Em 1966 e 1967, em temporada carioca, encenou na TV Rio e Excelsior. Novamente em São Paulo, atuou na Bandeirantes e Tupi até fazer uma sequência de novelas na Record, incluindo “As Pupilas do Senhor Reitor”. Na fase final da Tupi, Laura trabalhou em “Os Inocentes” e “Ídolo de Pano”, entre outras.
O ritmo implacável da era pré-videotape exigia memorização veloz e prontidão cênica absoluta, atributos que consolidaram sua reputação de profissional infalível.
Essa solidez garantiu uma transição fluida para o modelo industrial das telenovelas a partir dos anos 1960 e, mais tarde, para as grandes produções da Globo, onde estreou em “Brilhante”, escrita por de Gilberto Braga em 1981, e construiu uma galeria inesquecível de tipos populares e complexos.
Ao longo de mais de cem trabalhos na televisão, deu vida a criações emblemáticas do imaginário nacional, como a sofrida Isaura de “Mulheres de Areia” (1993), a instável Dona Guiomar de “A Viagem” (1994), a hipócrita beata Dorotéia de “Gabriela” (2012) e a maquiavélica Dona Sinhá de “Sol Nascente” (2016), papel em que subverteu estereótipos da terceira idade ao encarnar uma vilã calculista sob a máscara de uma senhora indefesa.
No currículo televisivo estão ainda o remake de “Irmãos Coragem” e os folhetins “Explode Coração”, a primeira novela gravada no complexo cenográfico conhecido, então, como Projac, e “Caminho das Índias”. Reviveu os tempos de rádio ao narrar “Hoje É Dia de Maria”, minissérie de 2005 dirigida por Luiz Fernando Carvalho.
Apesar da imensa popularidade conquistada no audiovisual, o teatro permaneceu como a espinha dorsal de sua identidade artística. Sua estreia nos tablados aconteceu em 1959, em “Plantão 21”, dirigida por Antunes Filho. Três décadas depois, a parceria atingiu o ápice na encenação de “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade, cuja interpretação visceral da sertaneja Dolor lhe rendeu o prêmio Shell de melhor atriz.
O mesmo troféu já havia sido conquistado em 1990, com “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, de Carlos Alberto Soffredini, sob a direção de Gabriel Vilella.
No cinema, construiu uma filmografia consistente com mais de 30 produções, transitando do cinema popular às obras autorais. Entre seus desempenhos mais celebrados estão a participação em “Terra Estrangeira”, que Walter Salles e Daniela Thomas dirigiram em 1995, e o papel de Selma no drama psicológico “Através da Janela”, de 2000, de Tatá Amaral.
O longa lhe valeu prêmios de melhor atriz no Cine PE, informalmente conhecido como Cine Pernambuco, e no APCA, prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Vencedora de três estatuetas do prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro e condecorada com a Ordem do Mérito Cultural em 2006, foi laureada, há três anos, com o Troféu Oscarito no Festival de Gramado, pelo conjunto de sua obra.
Durante as mais de oito décadas de vida artística, a atriz sempre buscou a fidelidade ao texto dramático. “Primordial é respeitar o que o autor quer, não se pode desrespeitar o texto que foi escrito”, afirmou numa das várias entrevistas dadas ao longo da carreira.
Dizia que quando o personagem se define para o ator é preciso seguir firme no rumo, “para levar a pancada ou o beijo”. “Mas sem a bênção dos deuses do teatro é melhor cair fora, porque não dá em nada.”
Conhecida pela discrição e pela aversão à vaidade, defendia que a função primordial do ator era servir ao texto e ao personagem com humildade operária. A recusa sistemática em cogitar a aposentadoria traduzia sua entrega incondicional ao ofício até o fim da vida.
Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, de 2019. A atriz foi uma das homenageadas no programa Tributo, da Globo, há dois anos. No cinema, lançou em 2025 o curta-metragem “Dona Rosinha”, dirigido por KK Araújo, sobre uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus.
Laura Cardoso teve três filhos com Fernando Balleroni, Fátima, José e Fernanda. O velório de Laura Cardoso acontece na Funeral Home, na Bela Vista, região central de São Paulo, entre as 8h e 14h desta terça-feira (18).
São Paulo, FolhaPress – Carlos Kauffmann e André Marcondes










