As urnas de 2026 mal esfriaram, as cinzas do pleito estadual ainda assentam e o mercado político capixaba, pragmático e sem espaço para vácuo, já virou a chave. Quem pensa que 2028 está distante não entende a engrenagem do Espírito Santo. O xadrez de 2028, que definirá os gestores dos 78 municípios capixabas já começou a ser jogado no dia seguinte ao segundo turno — e com dados cirúrgicos em mãos.
Para compreender a corrida que se avizinha, é preciso olhar primeiro para a fotografia das urnas municipais de 2024 combinada com a movimentação das peças de 2026. O tabuleiro está posto. Quem aguardar o ano eleitoral para montar o exército em 2028 já começará a disputa derrotado.
A geografia da reeleição
Dos 78 municípios, 30 prefeitos alcançaram o segundo mandato consecutivo em 2024 e estão compulsoriamente fora do páreo de 2028. Isso significa que teremos 48 prefeitos aptos a buscar a reeleição no estado. No papel, parece uma vantagem expressiva da máquina; na prática das urnas, é o prenúncio de transições complexas e disputas agressivas.
Dentro deste grupo de 48, dois casos emblemáticos exigem atenção especial do mercado político pelas circunstâncias do efeito dominó de 2026:
Vitória: Cris Samorini (Progressistas) assumiu a Prefeitura da Capital em abril de 2026 após a renúncia de Lorenzo Pazolini (Republicanos) — que renunciou para disputar e vencer o Governo do Estado. Por ter assumido a cadeira de titular no meio do mandato, Samorini ganha o direito jurídico e político de disputar a reeleição em 2028. Ela não apenas comanda a caneta da capital até 2028, mas entra no jogo com o apadrinhamento do novo governador eleito, tornando a máquina de Vitória uma fortaleza estratégica do grupo político dominante.
Mimoso do Sul: Processo análogo ocorreu no Sul do Estado. Paulinho (PSB) herdou o comando da prefeitura com a eleição de Peter Costa (Progressistas) para a Assembleia Legislativa em 2026. Paulinho chega a 2028 no exercício do mandato e plenamente elegível para tentar a renovação do cargo, alterando o eixo de forças na região sulina.
Grande Vitória
Se no Palácio Anchieta a disputa foi travada na escala majoritária, nos municípios da Região Metropolitana a guerra será de ocupação de território. Os deputados recém-saídos das urnas de 2026 já carimbaram o passaporte para 2028.
Tríplice disputa
Cariacica se desenha como o palco mais conturbado da Grande Vitória. Três forças políticas consolidadas já iniciaram a articulação interna:
Helder Salomão (PT): O ex-prefeito e deputado mantém um recall histórico e a militância orgânica no município. Entra para tentar resgatar o legado da era petista na cidade.
Messias Donato (União Brasil): Com fortíssima votação local em 2026, consolida-se como o representante da ala conservadora/pragmática. É um nome com penetração direta nas comunidades e nas bases operacionais de Cariacica.
Dr. Fernando Santorio (Progressistas): Representante do capital eleitoral da saúde e da tradição política local, Santorio desponta como a terceira via competitiva dentro do bloco de centro-direita.
A pressão federativa do PL e do Republicanos
A eleição proporcional de 2026 jogou luz direta sobre os deputados federais eleitos que carimbaram votações expressivas e agora miram o Executivo municipal:
Viana: O deputado federal eleito Lucas Casagrande (PL) surge como o nome natural para encabeçar a oposição ou a sucessão com a força da onda conservadora, testando a força da direita em um município historicamente moldado por alianças de centro-esquerda.
Vila Velha: O Coronel Ramalho (Republicanos), eleito para a Câmara dos Deputados, mantém Vila Velha como seu objetivo estratégico principal. Sua votação consolidada na canela-verde o credencia para enfrentar o grupo político local com o respaldo direto da bancada federal e da aliança com o Governo do Estado.
Serra repetido, Vitória disputa feminina
Na capital capixaba, a prefeita Cris não deverá ter facilidade, e as chances de os capixabas verem, novamente, um da família Coser na disputa é grande. Desta vez, contudo, não seria o ex-prefeito João, mas a filha e deputada estadual eleita, Karla Coser (PT). A disputa em Vitória poderá ter na Assembleia Legislativa mais nomes, como Darcio Bracarense (PL).
Já no município serrano, o que se viu no segundo turno de 2024 poderá ser revisto em dois anos. O deputado Pablo Muribeca (Republicanos) está disposto e concorrer novamente, enquanto prefeito Weverson Meireles (PDT) está apto a disputar a reeleição.
Síntese pragmática para o mercado político
A antecipação do cenário de 2028 aponta para três conclusões indispensáveis para investidores, partidos e articuladores:
| Vetor política | Tendência real para 2028 |
| Peso do Palácio | O grupo vitorioso em 2026 usará a máquina pública para blindar a permanência de Cris Samorini em Vitória e articular alianças pragmáticas em Vila Velha e Cariacica. |
| Poder proporcional | Deputados federais recém-eleitos usarão seus mandatos em Brasília como trampolim financeiro e político para suas candidaturas a prefeito. |
| Renovação obrigatória | Com 30 municípios sem possibilidade de reeleição do atual titular, a disputa por “herança de espólio político” abrirá margem para novas lideranças emergirem no interior. |










