“Todos os comércios vão ter que usar, se não usar nós vamos mandar sentar tiro”. Essa é uma das ameaças que aparecem em áudios obtidos pela Polícia Civil do Espírito Santo durante uma investigação sobre a tentativa de traficantes de controlar a distribuição de internet em comunidades de Vila Velha.
Em uma das gravações, uma das lideranças investigadas afirma que a internet nas comunidades só existe porque o grupo criminoso permite. Os áudios, divulgados pela polícia, mostram como funcionaria o esquema de ameaças contra provedores de internet e comerciantes para impor o uso de determinados serviços e cobrar valores das empresas.
Os detalhes foram apresentados pela Polícia Civil nesta sexta-feira (15) após a Operação Provedor.Net 2.0, realizada em 9 de outubro nos bairros Vasco da Gama, Cobi de Cima, Cobi de Baixo, Boa Vista — na região conhecida como Morro da Bomba — e São Torquato.
A ação foi conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), com participação de equipes da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), de unidades especializadas e apoio do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (NOTAer).
Áudios mostram ameaças a comerciantes
Em uma das gravações divulgadas pela polícia, um dos suspeitos cita São Torquato e a região do Morro da Boa Vista e afirma que os estabelecimentos comerciais seriam obrigados a aderir ao serviço determinado pelo grupo.
Na mesma gravação, ele ameaça os comerciantes que não aceitarem as exigências e afirma que o grupo poderia mandar fechar os estabelecimentos.
Em outros áudios, o suspeito fala sobre a cobrança de uma comissão das operadoras de internet. Eles também demonstram a intenção de lucrar com o controle do serviço. Em uma das falas, um deles se apresenta como “empreendedor” e diz que pretende colocar muito dinheiro no bolso.
Ouça:
Funcionários eram abordados e equipamentos, destruídos
Segundo a investigação, o grupo tentava impor regras às empresas que atuam nas comunidades, usando ameaças e violência para controlar quem poderia oferecer o serviço.
De acordo com a Polícia Civil, integrantes da facção abordavam funcionários de empresas de internet que trabalhavam nos bairros. Os trabalhadores eram agredidos e equipamentos das empresas eram destruídos.
Ainda segundo a investigação, os funcionários eram obrigados a entrar em contato com os gestores das companhias, que passavam a ser pressionados a pagar valores elevados para continuar prestando serviços nas comunidades. A cobrança funcionaria como uma espécie de pedágio imposto pela facção.
Câmeras escondidas monitoravam a movimentação nos bairros
Além das ameaças contra provedores e comerciantes, a investigação identificou uma rede de videomonitoramento instalada em pontos estratégicos das comunidades.
As câmeras ficavam escondidas em postes, principalmente nas entradas e saídas dos bairros e em áreas próximas a pontos de venda de drogas. O sistema era usado para acompanhar a circulação de pessoas e veículos, com atenção especial à movimentação da polícia no bairro.
Durante as apurações, os policiais também encontraram equipamentos que, segundo a investigação, seriam instalados para ampliar a rede de monitoramento.

Moradores acabam prejudicados
Segundo a Polícia Civil, o controle criminoso sobre a distribuição de internet afeta diretamente os moradores. Sob pressão e diante das ameaças, algumas empresas podem desistir de atender determinadas comunidades, reduzindo as opções de serviço.
Já as companhias que continuam trabalhando nessas regiões podem enfrentar custos e riscos maiores, o que também pode pesar no preço cobrado dos clientes.
A polícia orienta que a população não tenha medo e faça denúncia caso fique sabendo de crimes do tipo. É possível denunciar de forma anônima pelo telefone 181 ou pelo Whatsapp (27) 99253-8181.
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