A ancestralidade do fazer manual e o compromisso com a memória afetiva dão o tom da nova fase da artista capixaba Márcia dos Anjos (Márcia Ferraz Moulin). Após reunir 20 quadros em ponto cruz em uma exposição coletiva na Biblioteca Municipal Maria Geaquinto e Centro Cultural João Brito Netto, em Jerônimo Monteiro, no sul do Espírito Santo, a bordadeira prepara a ampliação de seu espaço de criação para abrigar o acervo de obras, livros raros da família e novos projetos autorais.
Com uma trajetória que entrelaça precisão técnica e espiritualidade, a artista é a terceira geração de uma linhagem de bordadeiros iniciada por seu bisavô materno há 146 anos.
Tradição Familiar de 146 Anos e Iniciação Afetiva
Formada em Contabilidade e ex-bancária do Banestes por quase duas décadas, Márcia atribui ao avô materno a transmissão simbólica do ofício, ocorrida na data de seu nascimento, em 12 de dezembro de 1962.
“Ele dizia que as mãos da gente servem para deixar alguma coisa boa no mundo. Cada vez que me sento para bordar, sinto que ele está ali comigo”, revela a artista.
A produção autoral de Márcia começou aos 33 anos e consolidou-se entre 1995 e 2000, período em que realizou 20 exposições. Se durante os anos de serviço bancário o bastidor funcionava como refúgio poético após o expediente, a aposentadoria permitiu a migração para a dedicação integral, pesquisa de novos materiais e desenvolvimento de séries temáticas.
Técnica, Textura e a Poética dos Anjos
O trabalho de Márcia dos Anjos se destaca pela complexidade técnica da aplicação do ponto cruz sobre telas estruturadas. A composição visual de suas figuras sacras combina:
Fios e Linhas: Combinação de meadas convencionais, linhas metalizadas multicoloridas e fios especiais que simulam a textura macia da lã para compor o corpete das figuras angelicais;
Elementos Tridimensionais: Inserção de miçangas e fitilhos de camurça, conferindo volume e brilho às superfícies;
Tempo de Feitura: Cada obra exige um processo minucioso de feitura, que varia de cinco meses a um ano de produção continuous;
Acabamento de Galeria: As peças são finalizadas com molduras personalizadas e vidro antirreflexo.
A iconografia dos anjos, que inspira o próprio nome artístico de Márcia, carrega uma dimensão meditativa. Para a artista, o ato de bordar aproxima-se de uma prática devocional, onde a repetição mecânica dos pontos e o silêncio do ateliê constroem uma atmosfera de oração e conforto estético.
Expansão do Ateliê e Preservação da Memória Capixaba
Após o sucesso da mostra em Jerônimo Monteiro — que colocou a produção do sul do estado em diálogo com a comunidade local —, o novo ateliê surge para integrar oficina de criação, acervo bibliográfico familiar e espaço de visitação técnica. A artista adiantou que o local abrigará um novo projeto autoral guardado sob segredo.
Ficha Técnica / Perfil da Artista
Nome: Márcia dos Anjos (Márcia Ferraz Moulin)
Naturalidade: Jerônimo Monteiro (ES)
Linguagem Artística: Bordado autoral e arte têxtil (ponto cruz e técnicas mistas)
Materiais: Linhas metalizadas, miçangas, fitilhos de camurça, fios texturizados e vidro antirreflexo
Destaques da Trajetória: 20 exposições (1995–2000), mostra individual no Banestes e participação na Exposição Coletiva da Biblioteca Municipal Maria Geaquinto / Centro Cultural João Brito Netto (2026)










