A busca por mais disposição, concentração e rendimento durante os exercícios tornou os pré-treinos cada vez mais populares entre praticantes de atividade física. Disponíveis em pó, cápsulas ou bebidas, esses produtos podem reunir cafeína, taurina e diferentes substâncias estimulantes. Embora possam ser utilizados por adultos saudáveis em determinadas quantidades, o consumo inadequado pode provocar efeitos cardiovasculares e exige atenção à composição e à dose.
De acordo com a Dra. Rosangeles Konrad, médica e professora de Cardiologia da Afya Educação Médica Brasília, a principal preocupação está especialmente na quantidade de estimulantes consumida e nas características individuais de quem utiliza o produto. “A cafeína, principal componente da maioria desses produtos, eleva a frequência cardíaca e a pressão arterial e, em pessoas predispostas, pode desencadear arritmias. Em adultos saudáveis que usam doses moderadas, o risco é pequeno. Ele aumenta com doses altas e com fórmulas que combinam vários estimulantes”, explica.
Cafeína exige atenção, e a conta inclui outras fontes
Entre os ingredientes presentes nos pré-treinos, a cafeína é um dos principais pontos de atenção. Dependendo da formulação, uma única porção pode conter de 300 a 400 mg da substância. O problema é que o consumo diário nem sempre se limita ao suplemento. Café, bebidas energéticas, chás, refrigerantes e alguns medicamentos também podem fornecer cafeína. Por isso, segundo a cardiologista, é importante considerar a ingestão total ao longo do dia. “Uma pessoa pode utilizar um pré-treino e, ao mesmo tempo, tomar várias xícaras de café ou consumir uma bebida energética sem perceber que está somando diferentes fontes”, alerta.
Para adultos saudáveis, a Food and Drug Administration (FDA) e a European Food Safety Authority (EFSA) consideram que o consumo de até 400 mg de cafeína por dia não costuma apresentar riscos à saúde. A EFSA também estabelece cerca de 200 mg como quantidade segura em uma única dose. Para gestantes, a recomendação é de até 200 mg de cafeína ao longo do dia. Na prática, isso significa que um pré-treino com 300 mg de cafeína já corresponde a 75% do limite diário considerado seguro para adultos saudáveis e ultrapassa a referência de 200 mg para uma única dose, sem considerar a cafeína proveniente de café, chás, energéticos ou outros produtos consumidos no mesmo dia.
Fórmulas com vários estimulantes merecem cuidado
Além da cafeína, alguns produtos podem conter outros estimulantes, como sinefrina e ioimbina, que podem potencializar os efeitos cardiovasculares. A especialista também chama atenção para substâncias proibidas ou não autorizadas em determinados mercados. É o caso do DMAA (1,3-dimetilamilamina), proibido no Brasil desde 2012 e associado a eventos graves, como acidente vascular cerebral e hemorragia cerebral. Outra substância que merece atenção é o DMHA (2-aminoisoheptano), que apresenta semelhanças químicas com o DMAA e é alvo de medidas regulatórias nos Estados Unidos.
Outro sinal de alerta está nos chamados rótulos de “mistura proprietária”, que podem informar apenas a quantidade total de uma combinação de ingredientes, sem detalhar a concentração individual de cada substância. “Principalmente esses, eu oriento meus pacientes a evitá-los”, afirma Dra. Rosangeles.
A taurina oferece risco ao coração?
Apesar de aparecer com frequência em bebidas energéticas, a taurina não é apontada pela especialista como o principal motivo de preocupação cardiovascular. A substância é produzida naturalmente pelo organismo e também está presente em alimentos como carnes e peixes. Segundo Rosangeles, não há evidência consistente de que a taurina, nas quantidades normalmente utilizadas nesses produtos, provoque danos cardiovasculares.
“Na avaliação de um pré-treino, a taurina não é o componente que me preocupa. A atenção deve ir para a dose de cafeína, para os outros estimulantes da fórmula e para as condições de saúde de quem vai usar”, explica. Isso não significa, porém, que a análise deva ser feita considerando apenas um ingrediente.
Quem deve ter atenção redobrada?
O uso de pré-treinos merece avaliação individual principalmente entre pessoas que já apresentam hipertensão, arritmias ou outras doenças cardiovasculares. Também devem buscar orientação médica antes do consumo pessoas com histórico familiar de morte súbita, doenças da tireoide, adolescentes, gestantes e indivíduos que utilizam medicamentos estimulantes.
Outro cuidado é verificar a procedência do produto e se ele possui registro ou regularização adequada junto à Anvisa, além de respeitar a dose indicada pelo fabricante. Para quem nunca utilizou um determinado produto, a especialista recomenda cautela com a quantidade e alerta para o consumo no fim do dia, já que a cafeína pode prejudicar o sono por várias horas.
Sintomas durante o exercício não devem ser ignorados
Palpitações, dor no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura ou desmaio durante ou após o exercício não devem ser tratados simplesmente como uma reação normal ao treino. Nesses casos, a médica recomenda a suspensão do uso, além da busca por um cardiologista. A atenção é especialmente importante porque exercícios físicos, altas temperaturas, desidratação e o consumo de estimulantes podem ocorrer simultaneamente, aumentando a demanda sobre o sistema cardiovascular.
Suplemento não substitui os fundamentos do desempenho
O suplemento não substitui fatores fundamentais para o desempenho físico, como alimentação adequada, hidratação, sono e treinamento bem estruturado. Antes de utilizar o produto, a orientação é verificar a composição, calcular a quantidade total de cafeína ingerida no dia e considerar as condições individuais de saúde. “Em adultos saudáveis que usam doses moderadas o risco é pequeno”, ressalta a especialista. A questão, portanto, não é apenas se o produto contém cafeína ou taurina, mas quanto, quais outros estimulantes estão presentes e quem está consumindo.










