A tentativa do Grupo Apex Partners de congelar a cobrança de suas dívidas e reestruturar suas finanças na Justiça entrou em uma etapa decisiva. Em um relatório técnico entregue à Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, a empresa de auditoria e pericia nomeada pelo juiz — a Laspro Consultores — fez um raio-X detalhado das contas e da situação do grupo capixaba.
A conclusão dos peritos traz um alerta importante para a população e para os clientes da empresa: o Grupo Apex ainda não apresentou todos os documentos obrigatórios exigidos por lei, escondeu detalhes de dívidas e precisa esclarecer como vai tratar o dinheiro de investidores antes de receber a proteção da Justiça.
O laudo da Laspro Consultores, que funciona como um conselho técnico para o magistrado, aponta que a plataforma de investimentos que reúne 178 empresas (CNPJs diferentes) precisa prestar contas de dados financeiros essenciais antes que o juiz decida se concede o socorro judicial.
Entenda os pontos do relatório:
1. O dinheiro dos prédios e projetos: a briga dos investidores
Um dos pontos mais polêmicos envolve as pessoas e empresas que investiram dinheiro em empreendimentos imobiliários específicos do grupo (como prédios, loteamentos e projetos imobiliários).
O medo dos investidores: Pessoas e empresas que colocaram dinheiro em projetos específicos entraram na Justiça para tirar esses negócios do processo de recuperação. Elas argumentam que o dinheiro aplicado em uma obra não pode ser misturado ou usado para pagar o rombo geral da sede da Apex ou de outros negócios do grupo que deram errado.
O que diz o perito: A perícia concordou que a lei brasileira e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) proíbem colocar empresas de obras imobiliárias com patrimônio protegido na recuperação judicial. O perito alertou que a Apex precisa separar rigorosamente as contas bancárias e os livros contábeis de cada projeto para não misturar o dinheiro dos investidores com o caixa geral.
Empresas criadas “ontem”: A perícia também descobriu que algumas empresas incluídas no pedido de socorro (como a Satélite e a BRM Apex Inv RE Pedra Azul) foram criadas em 2025. Como a lei exige que uma empresa tenha pelo menos 2 anos de funcionamento para pedir recuperação judicial, elas não poderiam estar protegidas.
2. Ex-sócio aponta dívidas omitidas
A crise da Apex também ganhou contornos de disputa societária. O executivo Fernando Kinelli, ex-sócio e ex-administrador do grupo, enviou um documento à Justiça acusando a atual gestão de ter omitido dívidas ligadas a programa de cashback e antecipação de recebíveis no pedido de recuperação.
A Apex rebateu dizendo que o ex-sócio foi afastado do comando por decisão judicial. Para evitar que essa lavagem de roupa suja paralise o processo principal, o perito sugeriu que o juiz promova uma mediação (uma reunião de conciliação) entre as partes.
3. Embate com o Banco BTG Pactual e o mercado financeiro
Para tentar continuar funcionando, o Grupo Apex obteve uma liminar provisória que proibia o Banco BTG Pactual de cancelar contratos de serviços financeiros mantidos com o grupo. O BTG foi à Justiça e explicou que rompeu os contratos porque a Apex descumpriu regras regulatórias e operacionais do mercado. O banco também lembrou que os contratos assinados previam que qualquer briga deveria ser resolvida por uma câmara de arbitragem privada, e não pela Justiça comum.
A visão da Perícia: Os peritos destacaram que a lei garante a validade da arbitragem e que os serviços prestados pelo BTG não podem ser mantidos à força sem que a Apex comprove detalhadamente por que eles seriam “indispensáveis” para a sobrevivência da empresa.
4. Venda de empresa travada
A tentativa da Apex de vender a empresa Carbyne por R$ 20 milhões para o grupo Makalu Partners não deu certo porque o prazo da proposta venceu. Mesmo assim, o perito deixou um aviso claro ao juiz: nenhum bem ou empresa do grupo pode ser vendido sem que um avaliador independente faça um laudo dizendo quanto o bem realmente vale, evitando vendas abaixo do preço de mercado.
5. Bancos e cooperativas querem cobrar o que é deles
Cooperativas de crédito como o Sicoob Sul Serrano também acionaram a Justiça. Elas pedem para voltar a cobrar e reter valores de empréstimos concedidos à Apex Partners, alegando que essas operações têm garantias reais (como bens em garantia fiduciária) e, por isso, a lei determina que fiquem de fora da recuperação judicial.
A perícia informou que caberá ao juiz analisar contrato por contrato para decidir se o banco pode ou não pegar as garantias de volta.
O que acontece agora?
O relatório técnico deixa a decisão nas mãos do juiz do caso. Para que o pedido de Recuperação Judicial seja aceito, o Grupo Apex terá que entregar todos os documentos e balanços contábeis atualizados de 2026 que ficaram faltando. Além disso, a Laspro afirmou em relatório que o conglomerado deverá esclarecer a separação do dinheiro dos empreendimentos imobiliários e retirar do pedido as empresas recém-criadas. Outro ponto fundamental para que a Recuperação Judicial caminhe é a apresentação dos contratos financeiros mantidos com grandes bancos sob sigilo para análise do juiz.










