El Niño ameaça safra de conilon no Espírito Santo em 2026

O Espírito Santo entra em um novo ciclo da cafeicultura sob pressão do clima. O avanço do El Niño para o período 2026/2027 coloca em alerta a produção de café conilon, principal cultura cafeeira do Estado, justamente em uma cadeia que tem forte peso na renda rural e nas exportações capixabas.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Espírito Santo produzirá 12,1 milhões de sacas de conilon em 2026, queda de 14,3% em relação à safra anterior. A redução é atribuída pela companhia, principalmente, à florada irregular provocada pelas baixas temperaturas registradas nas regiões produtoras.

O cenário climático preocupa porque o café é uma cultura perene e as condições durante a formação das lavouras podem repercutir não apenas na colheita imediata, mas também nos ciclos seguintes. Técnicos da Secretaria de Estado da Agricultura já apontavam, em junho, que o Espírito Santo começava a sentir os efeitos do El Niño, com previsão de inverno mais quente e chuvoso e primavera mais quente e seca.

Em uma análise apresentada sobre o cenário econômico do cooperativismo na manhã desta quinta-feira (24), o analista de Estudos Econômicos do Sistema OCB Nacional, Arthur Nery, colocou os fatores climáticos entre os pontos de atenção para o Estado, especialmente para a cadeia do café.

El Niño ameaça safra de conilon no Espírito Santo em 2026

“O clima expõe muito o crédito rural, e a florada do conilon e as condições esperadas pelo desenvolvimento do grão” estão entre os fatores que precisam entrar no planejamento estratégico do setor, afirmou Nery.

A preocupação ganha dimensão econômica porque o Espírito Santo é o principal produtor brasileiro de conilon. Segundo o Incaper, o Estado responde por aproximadamente 70% da produção nacional da variedade, com cerca de 286 mil hectares plantados em 68 municípios. O valor da produção do conilon representa 38% do PIB agrícola capixaba.

A safra de 2025 havia representado uma recuperação importante. A primeira estimativa da Conab apontava produção de 11,8 milhões de sacas no Espírito Santo, alta de 20% sobre as 9,8 milhões de sacas colhidas em 2024. O resultado de 2025 também foi marcado pelo avanço da produtividade. Dados do Incaper apontam que a produtividade média do conilon chegou a 49 sacas por hectare, recorde da série histórica estadual.

Agora, porém, a projeção para 2026 é de retração. A Conab calcula que a produção estadual de conilon cairá 14,3%, enquanto a produção brasileira da variedade deverá recuar 6,6%, para 19,4 milhões de sacas.

O impacto potencial ultrapassa as propriedades rurais. O café é o principal produto da pauta de exportações do agronegócio capixaba. Entre janeiro e agosto de 2025, o Estado exportou 206 mil toneladas de café e derivados, que renderam US$ 1,1 bilhão. O café em grão respondeu por US$ 966,9 milhões, com 81% das exportações correspondentes ao conilon. O café capixaba chegou, naquele período, a 74 países. Entre os principais destinos estavam Turquia, Estados Unidos e Bélgica.

O risco climático, portanto, chega a uma cadeia que já tem forte exposição ao mercado externo. Em 2024, o Espírito Santo exportou mais de 8 milhões de sacas de conilon, segundo dados do Governo do Estado, gerando receita próxima de US$ 1,8 bilhão.

Para Nery, a questão climática precisa ser considerada ao lado de crédito, custos e demais variáveis econômicas na definição das estratégias do cooperativismo. Segundo ele, o cenário reúne fatores positivos e negativos que exigem planejamento, especialmente nos setores mais expostos ao clima e ao crédito rural.

O próprio Incaper vem tratando o El Niño 2026/2027 como um risco para o agronegócio capixaba. Em programação técnica realizada neste ano, o instituto incluiu entre os temas uma apresentação específica sobre os riscos do fenômeno para a agricultura e a pecuária do Estado.

Para o conilon, o tamanho da exposição ajuda a dimensionar o problema: além de representar parcela expressiva da produção nacional, a atividade está presente em cerca de 49 mil propriedades rurais capixabas.

A Conab ressalva que o impacto do El Niño sobre a produção ainda depende da evolução das condições climáticas. No cenário mundial, a previsão do fenômeno para o ciclo 2026/27 é apontada pela companhia como um dos fatores que podem afetar negativamente a produção em diferentes países e contribuir para a sustentação dos preços internacionais do café.

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