O pedido de Recuperação Judicial do Grupo Apex — conglomerado financeiro nascido no Espírito Santo e com forte expansão no mercado de capitais regional — ganhou novos detalhes nesta segunda-feira com o aditamento à petição inicial enviado à Vara de Recuperação Judicial e Falência da Comarca de Vitória. Em documento assinado pelo advogado José Carlos Stein Júnior, a defesa sustentou que a empresa atravessa uma grave crise de liquidez e de estrutura de capital, mas que seu modelo de negócios permanece operacionalmente viável e gerador de valor. O pedido foi feito na noite de segunda-feira (14).
A manifestação buscou demonstrar ao Poder Judiciário e aos credores que o grupo não se encontra em situação de inviabilidade econômica irreversível, mas sim vitimado por um “descasamento temporal” entre obrigações financeiras de curto prazo e ativos de maturação mais longa, somado a choques reputacionais e graves falhas na governança que culminaram na recente destituição de seus fundadores e executivos.
Um império regional de R$ 17 bilhões sob supervisão
Fundado em Vitória em 2013, o Grupo Apex construiu sua tese de negócios no atendimento aos chamados “mercados regionais” — estados fora do eixo Rio-São Paulo que, embora respondam por cerca de 60% do PIB brasileiro, 85% da energia gerada e 96% do território nacional, historicamente recebiam menor atenção da Faria Lima e do Leblon.
Com o passar dos anos, o grupo diversificou suas atividades até consolidar um ecossistema estruturado em quatro grandes verticais operacionais:
Gestão de Recursos (Asset Management): Responsável por R$ 5,2 bilhões sob gestão, alocados em fundos de investimento com teses focadas no mercado imobiliário (Real Estate), participações em empresas privadas (Private Equity), Venture Capital e Crédito Privado.
Advisory (Gestão Patrimonial e Consultoria): Atende uma base ativa de 7.620 clientes e supervisiona um volume de R$ 11,8 bilhões. Oferece soluções de Wealth Management, atendimento Private e assessoria a empresas regionais. Nos 12 meses anteriores ao pedido, a área captou cerca de R$ 6 bilhões em captação líquida (Net New Money).
Investment Banking: Voltado a operações de Fusões e Aquisições (M&A) e mercado de capitais, com um histórico de R$ 1,7 bilhão em mandatos e carteira ativa com potencial de geração de receitas via success fees.
Research: Área dedicada à produção de dados e inteligência setorial econômica, reforçada pelas aquisições do instituto Futura Pesquisa e da Carbyne Investimentos em 2020.
Ao todo, a plataforma movimentava ou supervisionava aproximadamente R$ 17 bilhões em ativos. No exercício social de 2025, o consolidado do grupo registrou uma receita bruta de R$ 141,5 milhões, tendo recolhido R$ 12,3 milhões em tributos sobre serviços (ISS) e provisionado R$ 18,9 milhões em IRPJ/CSLL.
M&As ousados, juros altos e o “efeito tesoura”
Conforme a peça defensiva, a crise começou a ser gestada nos últimos 18 meses devido a uma combinação de ventos contrários no cenário macroeconômico e estratégias agressivas de expansão:
Juros altos e garantias firmes: A manutenção da taxa Selic em patamar restritivo encolheu a captação de investimentos alternativos (Real Estate e Private Equity). Para honrar garantias firmes em ofertas de investimento cuja demanda do mercado frustrou as expectativas, a tesouraria do grupo recorreu ao capital próprio.
Captação cara via debêntures: Para cobrir o caixa, o grupo emitiu dívidas privadas, incluindo debêntures a taxas de juros elevadas. O resultado foi o chamado “efeito tesoura”: despesas financeiras crescentes enquanto a geração operacional sofria pressão.
Expansão sem sinergia imediata: Em 2024 e 2025, a Apex adquiriu a Stark Investment Banking, a Contea Capital, a Alphamar Investimentos e iniciou a expansão internacional da Carbyne em Portugal. As sinergias e receitas dessas aquisições não vieram no ritmo projetado, mas seus custos aumentaram imediatamente a estrutura pesada do grupo.
Deterioração da carteira: No primeiro semestre de 2026, a carteira de ativos realizáveis das empresas sofreu um deságio de 27,3% — caindo do valor nominal de R$ 261,5 milhões para uma estimativa realista de R$ 190,1 milhões.
A corrida bancária de agosto e a troca de comando
O ápice da crise ocorreu na primeira semana de agosto de 2026. E a partir dela, foi registrada uma corrida de resgates e exigências de vencimentos antecipados.
Somente na emissora de debêntures Rhino (com mais de R$ 450 milhões emitidos), os pedidos de resgate imediato somaram R$ 83,3 milhões. Somaram-se a isso outros R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate com vencimentos críticos entre 12 de agosto e 30 de setembro de 2026. “Evidentemente, não há estrutura empresarial, por mais sólida que seja, capaz de absorver a antecipação simultânea de um passivo dessa ordem”, sustentou o advogado Stein Junior na petição.
Além do ambiente externo, o documento aponta uma severa crise de governança. A gestão do grupo era hipercentralizada no presidente destituído, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e o ex-diretor financeiro Eduardo Costa Constâncio Siqueira. Os controles internos não acompanharam o crescimento veloz do negócio, impedindo que conselhos e diretores vislumbrassem a real gravidade do problema.
O ecossistema de SPEs e a separação dos investidores
Um dos trechos mais detalhados da peça jurídica trata do abrangente perímetro de empresas e veículos de investimento que compõem o polo ativo da Recuperação Judicial. Para proteger os projetos imobiliários e os ativos das empresas investidas, a Apex requereu a inclusão das Sociedades em Conta de Participação (SCPs) e das SPEs sob o regime de consolidação processual (art. 69-G da Lei de Falências). O ex-presidente, contudo, em contestação à Justiça, disse que isso poderá causar colapso no mercado imobiliário capixaba.
A defesa faz questão de sublinhar a segregação patrimonial:
Investidores de SCPs: Aportaram recursos atrelados diretamente a projetos imobiliários (Real Estate) ou empresas privadas (Private Equity). Eles assumiram o risco do empreendimento subjacente, e não o risco de crédito do Grupo Apex.
Credores Financeiros (Debenturistas e Bancos): Assumiram o risco de crédito da holding e das operacionais, amparados pelo patrimônio do grupo.
Segundo José Carlos Stein Júnior, a inclusão desses veículos na Recuperação Judicial não busca misturar patrimônios ou criar confusão societária, mas garantir ambiente protegido e transparente para impedir que a derrocada da gestora afete o andamento de 26 empreendimentos imobiliários e investimentos em empresas locais (como A2 Aviation, Natufert, Great Schools, Zé Coxinha, MyDoor, entre outras).
O plano de reestruturação
Para fundamentar o pedido de deferimento do processamento da RJ, a defesa argumenta que o alívio temporário nas cobranças (stay period) de 180 dias permitirá à nova administração:
Concluir a auditoria das demonstrações contábeis (afetadas pelo afastamento do antigo CFO);
Desinvestir e alienar ativos de forma ordenada, evitando liquidações forçadas com deságios agressivos (que variam de 30% a 60%);
Apresentar, no prazo legal de 60 dias, um Plano de Recuperação Judicial focado na repactuação de prazos e taxas, direcionando a geração contínua de receitas operacionais do grupo para o pagamento organizado da coletividade de credores.
“A situação atual deve ser compreendida como uma crise de liquidez e de estrutura de capital incidente sobre um negócio ainda operacionalmente viável, e não como manifestação de inviabilidade econômica definitiva”, concluiu a defesa, ao pedir o processamento definitivo do caso na Justiça do Espírito Santo.










