Há crises que reorganizam votos. Outras mobilizam sentimentos — e, na política, estas podem ser ainda mais decisivas. A crise do Supremo Tribunal Federal (STF), até aqui, pertence ao segundo tipo. Não retirou multidões de uma candidatura para depositá-las em outra, mas reforçou convicções, reanimou ressentimentos e devolveu à direita um adversário capaz de reunir suas diferenças. Em uma eleição apertada, isso é parte do resultado.
Medir o impacto de uma crise apenas pela transferência de votos é um erro elementar de leitura eleitoral. Convencer o eleitor adversário representa apenas uma parte do trabalho de campanha e, em disputas polarizadas, talvez nem seja a maior. Eleições também são vencidas quando uma candidatura mobiliza os seus, desmobiliza o outro lado e oferece ao eleitor uma razão emocional para sair de casa. O voto pode continuar no mesmo candidato e adquirir outro peso político.
O eleitor não examina uma crise como um jurista consulta um processo. Não separa com precisão cada denúncia, personagem, competência ou prazo. As controvérsias que colocaram Alexandre de Moraes, André Mendonça e Daniel Vorcaro no mesmo noticiário acabam reduzidas a uma percepção simples: no andar de cima da República, todos parecem envolvidos e ninguém consegue explicar inteiramente o que aconteceu.
Essa percepção pode ser injusta com os fatos, mas é real em seus efeitos. Quando uma instituição perde o benefício da dúvida, cada silêncio parece ocultação; cada demora, proteção; cada esclarecimento, defesa corporativa. A suspeita não precisa provar tudo. Basta corroer a confiança.
Minha leitura é direta: neste momento, o desgaste do STF beneficia mais a direita.
Não porque esteja produzindo uma conversão em massa ao bolsonarismo, mas porque confirma o argumento que sustentou sua relação com a própria base durante os últimos anos. Bolsonaro apresentou o Supremo como um poder sem limites, seletivo nas decisões e disposto a interferir no jogo político. Agora, cada novo episódio é recebido por seus seguidores não como um fato isolado a ser apurado, mas como a confirmação de uma história que eles já conhecem — ou acreditam conhecer.
O bolsonarismo não precisa explicar a crise. Precisa encaixá-la na narrativa da perseguição. E, nesse terreno, a versão simples costuma derrotar o fato complexo antes mesmo de o fato encontrar advogado.
Existe ainda um efeito político mais amplo. A direita brasileira está dividida entre candidaturas, projetos pessoais e egos que, como de costume, se apresentam ao público sob o nome mais elegante de divergência estratégica. O desgaste do Supremo oferece a essas correntes um adversário comum. Quando falta um líder capaz de unificar um campo político, um inimigo compartilhado costuma fazer o serviço.
A crise começa, assim, a ultrapassar a fronteira do bolsonarismo. Parte do eleitorado de direita que rejeita o confronto permanente com as instituições já admite que existe algo errado no comportamento do tribunal. Não é preciso concordar com Bolsonaro para desconfiar do STF. Esse deslocamento importa porque transforma uma bandeira antes restrita aos mais fiéis numa dúvida aceitável entre os moderados.
A esquerda enfrenta problema inverso. Depois de transformar o Supremo numa espécie de muralha de contenção contra Bolsonaro, tornou-se difícil criticar os excessos de seus ministros sem parecer validar o adversário. Se defende o tribunal de forma automática, assume um desgaste que não produziu sozinha. Se passa a atacá-lo apenas quando a crise ameaça o governo, descobre que conveniência não é exatamente sinônimo de coerência — embora Brasília se dedique diariamente a aproximar as duas palavras.
A mudança de tom de Lula revela que o presidente percebeu a armadilha. Ao cobrar explicações e criticar condutas de Moraes e Mendonça, tenta separar a defesa das instituições da proteção pessoal aos ministros. A distinção é necessária, mas chega depois de anos em que parte da esquerda tratou qualquer crítica ao STF como ameaça à democracia. O escudo agora apresenta a conta.
Moraes e Mendonça tornam tudo ainda mais desconfortável. Um foi convertido em símbolo do enfrentamento ao bolsonarismo; o outro chegou ao tribunal indicado por Bolsonaro, embora também conduza decisões que alcançam Flávio. Cada lado seleciona, então, a indignação que lhe convém e administra o silêncio que lhe interessa. Princípios continuam sendo indispensáveis na política brasileira, sobretudo para cobrar o adversário.
O eleitor independente não precisa aderir à direita para produzir prejuízo ao governo. Basta concluir que os lados se parecem, que as instituições protegem seus integrantes e que o discurso moral utilizado contra Bolsonaro perdeu parte de sua autoridade. A descrença institucional nunca distribui seus custos com equilíbrio. Quando se espalha a ideia de que todos abusam do poder, o transgressor deixa de parecer uma exceção perigosa e passa a ser visto apenas como a versão menos envergonhada do sistema.
Também existe um limite na pergunta feita pelas pesquisas: poucas pessoas admitem que foram influenciadas. O eleitor prefere acreditar que chegou sozinho às próprias conclusões, mesmo quando repete a narrativa que ouviu na noite anterior. Ele raramente declara que mudou por causa de um episódio; primeiro muda e, depois, reorganiza as razões para convencer a si mesmo de que sempre pensou daquele modo.
Por isso, afirmar que o voto permanece igual não significa ausência de efeito eleitoral. Um eleitor pode conservar seu candidato e perder entusiasmo. Pode continuar rejeitando o adversário, mas deixar de temê-lo. Pode trocar militância por silêncio, comparecimento por abstenção ou desconfiança por tolerância. Nenhum desses movimentos aparece com nitidez quando a pesquisa pergunta apenas em quem a pessoa pretende votar.
A crise também arrastou o Supremo para dentro do calendário eleitoral. Decisões, investigações, quebras de sigilo, vazamentos e atrasos processuais serão traduzidos pelas campanhas segundo a conveniência de cada lado. O Judiciário pode falar por meio dos autos; o eleitor receberá uma versão editada em poucos segundos, sem contexto e certamente sem nota de rodapé. Um despacho não nasce como propaganda, mas nada impede que termine no horário eleitoral.
Isso não significa que o STF deva paralisar suas atividades. Significa que o tribunal já não pode se permitir inocência comunicacional. Suas decisões têm repercussão política, seus silêncios produzem narrativas e a falta de transparência deixa espaços que serão ocupados por quem gritar primeiro. A toga não transforma ministros em candidatos, mas tampouco os retira da disputa de percepção.
A direita pode desperdiçar essa vantagem se transformar uma crítica legítima numa campanha de vingança contra o tribunal. O bolsonarismo tem certa vocação para exagerar bons argumentos até convertê-los em problema. Ainda assim, hoje é a oposição que possui a narrativa mais fácil de compreender: o sistema perdeu seus limites e tenta proteger a si mesmo. Ao governo restou explicar que as instituições continuam funcionando justamente quando parte do país deixou de acreditar nelas.
O STF talvez não reorganize os votos. Já está, porém, mobilizando sentimentos — e são os sentimentos que levam uma preferência declarada a se transformar em presença, militância e decisão.
A urna conta votos com frieza. Quem os conduz até ela jamais foi a razão sozinha.









