Tantas coisas de Rosana

Escrever sobre Entre Tempo e Coisas, mostra de Rosana Paste que fala sobre seus quarenta anos de percurso, exige um abandono da distância costumeira da crítica. Rosana é um evento-vida em movimento, e aproximar-se de seus trabalhos é em grande parte compreender esse modo de ser.

Ela nasceu em Venda Nova do Imigrante. Seu avô, Angelo Pasti, desembarcou em terras capixabas em 1894. Essa data é a régua com que ela mede outros tempos que são também seus. Quando diz que celebra quarenta anos de ilha em Vitória e, em simultâneo, reconhece um tempo mais antigo, o de Venda Nova, ela recusa a linha reta do calendário e propõe outra geometria, espiral, na qual início e fim se tocam sem se confundir. Essa continuidade aparece, literalmente, no Ouroborus, círculo de ferro fraturado em duas pontas que quase se encontram. A serpente que morde a própria cauda vira aqui uma ferida que nunca cicatriza de todo, uma fome autoexpansível. É curioso presenciar a ação incontida de visitantes que atravessam esse círculo-portal. É escultura, mas também outras coisas.

Tantas coisas de Rosana

A formação de Rosana não seguiu o caminho de uma só técnica, de um só meio. Ela se formou no mesmo Centro de Artes da UFES no qual se tornou artista-professora, mas o que ficou daquela época não é o domínio de pintura ou gravura, como bem ressaltou a o texto curatorial de Agnaldo Farias, mas o convívio com colegas de dois grupos informais (Balão Mágico e Eden Dionisíaco do Brasil), quando discutiam fora dos manuais oficiais. Dessas conversas nasceu a ideia de ressonância, a certeza de que somos afetados por quem existiu antes de nós e afetaremos quem virá depois. De ouvir Rosana falar, reconheço a ideia mesmo quando ela não a nomeia, presente no jeito como guarda objetos de gente morta e os envolve de valor.

A trajetória de materiais que atravessa a obra de Rosana conta uma história paralela à da matéria familiar. No início dos anos 1990, ela trabalha o chumbo, metal pesado, opaco, resistente à luz. Depois passa ao ferro, ao alumínio, ao inox, superfícies que ganham brilho e permitem ao olho deslizar sem atrito. Mais tarde entram o vidro soprado e a pele, materiais que trazem de volta o calor e a fragilidade que o metal polido tinha afastado. Em 2004, o corpo se torna, ele próprio, suporte: a tatuagem que registra uma linha nas costas, depois repetida em parentes e amigos, inaugura um tempo em que a memória deixa de caber somente no metal e passa a morar nas superfícies do eu. Essa linha reaparece em Escultura, prestes a girar em torno do próprio eixo enquanto nos recepciona nas escadarias do Museu de Arte do Espírito Santo. A coluna vertebral, órgão que sustenta enquanto limita, retorna como imagem em Mão de Caranguejo, linha metálica que sai da parede e se volta contra si, ponta que toca de leve a superfície de onde partiu, à maneira de uma arma que hesita antes do gesto final.

Tantas coisas de Rosana

Em Corpo Ilha, nove arcos de ferro se sobrepõem na parede, cada diâmetro correspondente a uma parte do corpo de Rosana, da testa aos pés. O resultado é um molde negativo, uma ausência que insiste em ocupar espaço. Esgarça o Tempo une cobre, chumbo e algodão numa pele rota, pendurada e quase solta, que fala de abrigo e de ruína ao mesmo tempo, do jeito como qualquer corpo, o de Rosana, o meu, o de quem visitar a mostra, se desgasta e ainda assim segue de pé. Por vezes aos trancos e barrancos, quase sempre sustentado por abraços.

Já Cipó nasceu de uma perda recente. Ela conta como sua mãe sentava-se sob uma mangueira para tomar sol. Após seu falecimento, a irmã da artista podou o cipó que crescia sob a árvore. Parte dessa planta virou escultura em bronze e sopro de vidro. Rosana descreve o cipó como algo que vive com pouco e se une a outras árvores para não cair. Não precisaria repetir a comparação com o cordão umbilical, mas é bom fazê-lo, dado o quão significativa é essa continuidade visceral para o seu trabalho.

Tantas coisas de RosanaTantas coisas de RosanaObjetos que Valem Ouro reúne uma caneca de ágata, herdada da avó paterna, o garfo trazido na mala do avô Angelo, o sugador de leite usado pela avó parteira Vitória Perim, a agulha com que o pai cosia sacos de aniagem para o café e o milho da lavoura, os noivinhos do bolo de casamento dos pais em 1953, o primeiro par de sapatos de Rosana e o “coração” de sua mãe. Cada objeto recebe agora pequenas gotas de ouro para marcar o que resistiu ao uso e ao tempo. Ver o garfo ali suspenso produz um estranhamento que nenhuma legenda de museu consegue traduzir por completo.

Na sala do educativo, quem visita a exposição pode sentar-se num almofadado batizado de “o braço que abraça”, que reproduz a pele do cotovelo da mãe de Rosana, e praticar crochê com fio de cobre. O gesto mundano e repetitivo do crochê, desenvolvido por tantas gerações majoritariamente femininas, volta como prática coletiva, aberta a estranhos, no mesmo espaço onde os lutos pessoais viraram escultura. Essa sala prova algo que todas as pessoas que conviveram com Rosana podem atestar: para ela, ensinar, tecer e esculpir nunca foram atividades separadas, mas variações do mesmo gesto de circular de encontro.

Os múltiplos de sete que voltam em sua obra, sete objetos, sete pontos, sete gestos, respondem a uma necessidade de contar e conter aquilo que se expande sem parar: a filha que vira mãe, a mãe que vira avó, o medo do fim disputado, todo dia, contra a coragem de continuar em produção apesar dele.

É necessário entranhar esses ciclos para compreender o que Rosana quer dizer quando afirma que artistas têm território, sem nos rendermos aos universalismos fáceis: o território dela é feito de lugares em que se pisa e de pessoas com nome, sobrenome e apelidos carinhosos. Entre Tempo e Coisas celebra o fato de que uma vida inteira, com suas mortes e seus nascimentos, segue dentro de um pedaço de ferro dobrado, de um fio de cobre torcido entre os dedos de um visitante qualquer, de uma linha tatuada que atravessa a pele de quem a artista ama.

Revisão e fotografias: Alana de Oliveira

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

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