A exatamente 30 dias do pleito, o arco de alianças que sustenta a coligação majoritária “Agora é o futuro” no Espírito Santo revela que a união entre os partidos existe predominantemente no papel. Na prática das ruas e nos bastidores partidários, a frente ampla formada por PSB, MDB, Podemos, PP, União Brasil, PDT, Agir e as federações PSDB/Cidadania e União Progressista funciona sob uma estrita aliança cartorial: serve para somar tempo de televisão, fundo eleitoral e cumprir formalidades do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas não reflete sinergia política.
O fosso entre a teoria e a prática ficou evidente nesta quinta-feira (3). Enquanto o ex-governador e candidato ao Senado, Renato Casagrande (PSB), cumpria agenda de campanha no município de Viana, o deputado federal Gilson Daniel, presidente estadual do Podemos, e candidato à reeleição, realizava um ato político paralelo, mas, distante.
Inclusive, o lançamento de sua candidatura à reeleição contou com a presença de Evair de Melo (Republicanos) — candidato a senador da coligação adversária. No palanque, aliados, o candidato à reeleição de governador, Ricardo Ferraço (MDB), e a também emedebista candidata a senadora Rose de Freitas.
Relatos de bastidores indicam uma saia-justa: Casagrande chagou a se aproximar do local, mas fez um recuo tático.
O cálculo da eleição dupla para o Senado
A frieza no relacionamento entre Casagrande e dirigentes de peso como Gilson Daniel (Podemos), Da Vitória (PP) e Marcelo Santos (União Brasil) não se restringe a episódios isolados. Como a eleição de 2026 prevê a escolha de dois nomes para o Senado Federal, os três líderes partidários vêm pedindo abertamente votos para uma combinação mista: Rose de Freitas (MDB), que integra a coligação, e o próprio Evair de Melo, que formalmente está no campo oposto.
Pragmaticamente, a manobra permite que esses dirigentes preservem a fidelidade formal à chapa do candidato ao governo, Ricardo Ferraço (MDB), enquanto acenam para eleitorados mais conservadores ou do agronegócio, sem gastar capital político com Casagrande — apontado nas pesquisas como franco favorito para uma das vagas.
Boicote silencioso e fogo amigo no PSB
A distância física se reflete na gestão de campanha. Candidatos a deputado do Podemos, por exemplo, evitam frequentar o comitê central de Ricardo e Casagrande, inclusive para a retirada de materiais de panfletagem. Fontes partidárias apontam que as rusgas vêm do tempo em que o socialista comandava o Palácio Anchieta, marcadas por alegados descumprimentos de acordos políticos e espaço na máquina pública.
Nem mesmo o PSB escapa das tensões. A opção de Casagrande por centralizar sua agenda ao lado de Ricardo Ferraço e da candidata a deputada federal Emanuela Pedroso (PSB) gerou ruídos com outros postulantes da legenda à Câmara dos Deputados, que veem no privilégio de imagem um desequilíbrio na disputa proporcional.
A equação municipal
Entre os gestores locais, o pragmatismo fala mais alto. O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), presidente estadual do partido federado ao Cidadania, mantém apoio formal à chapa majoritária para assegurar a continuidade de investimentos estaduais no município. Ao mesmo tempo, mantém interlocução com a base de Evair de Melo, acomodando forças heterogêneas no seu palanque regional.
Faltando quatro semanas para a abertura das urnas, a coligação “Agora é o futuro” evidencia a lógica do pragmatismo eleitoral contemporâneo: chapas amplas garantem tempo de antena e viabilidade legal, mas a conquista do voto segue o rastro de alianças locais, interesses proporcionais e cálculos individuais de sobrevivência política.










