Naquele dia fomos a Termas.
Era longe. Quase duas horas de estrada até um vale escondido entre montanhas, desses lugares que parecem ter sido guardados pela natureza para quem aceita o trabalho de chegar.
Fazia frio. Ventava. E, no meio daquele vale gelado, corria um rio de águas quentes. Só isso já me parecia uma espécie de parábola: era preciso atravessar o frio para encontrar o calor.
A van estava lotada. Dezoito pessoas espremidas naquele pequeno espaço, cada uma carregando sua mochila, seu casaco, suas expectativas e — descobri depois — um pouco de sua própria maneira de estar no mundo.
Porque viagens têm dessas coisas.
Achamos que estamos indo conhecer um lugar, quando, na verdade, às vezes estamos indo conhecer pessoas. E a nós mesmos.
Naquela van estava quase toda a humanidade.
Havia os insatisfeitos. Esses carregavam uma espécie de fome que nenhuma paisagem conseguiria saciar. O banco não era confortável. A estrada era longa. O vento era forte. O frio era demais. O almoço poderia ser melhor. O horário poderia ser outro.
Pensei que talvez existam pessoas assim também fora das viagens: gente que atravessa a vida inteira olhando para aquilo que falta. Recebem o vale e perguntam pela cidade. Recebem o rio e reclamam da temperatura. Recebem o dia e perguntam por que não veio outro.
Há nelas um buraco estranho, infindável, onde vão depositando desejos que nunca conseguem preencher. E talvez por isso não consigam apenas contemplar.
Depois havia as alcateias. Ah, as alcateias eram divertidas. Riam alto, contavam histórias, faziam fotografias, dividiam comida, piadas e segredos. Eram pessoas alegres e certamente tornavam a viagem mais engraçada.
Mas havia algo curioso nelas. Estavam tão juntas que, sem perceber, construíam muros. O grupo se fechava sobre si mesmo. E quem chegava sozinho, ou em dupla, às vezes precisava contornar aquela pequena muralha humana para conseguir alcançar o rio, a conversa, a paisagem.
Não era maldade. Talvez fosse apenas excesso de pertencimento. Há quem goste tanto de estar entre os seus que se esquece de deixar uma cadeira vazia para quem chega.
Também havia os que se importavam. Esses quase nunca eram os mais barulhentos. Queriam aproveitar o passeio, claro. Tinham pago pela viagem, acordado cedo, enfrentado a estrada e também queriam mergulhar nas águas quentes daquele rio. Mas possuíam uma espécie de visão periférica da alma.
Enquanto se divertiam, conseguiam perceber quem estava sozinho. Enquanto comiam, percebiam quem ainda não havia comido. Enquanto caminhavam, olhavam para trás.
São pessoas raras.
Elas compreenderam alguma coisa que talvez levemos uma vida inteira para aprender: ninguém perde a própria alegria porque ajudou alguém a encontrar a sua.
Ao contrário. Talvez seja justamente aí que a alegria ganhe sentido. Essas pessoas mantêm o mundo hígido. São elas que, silenciosamente, impedem que a humanidade adoeça por completo.
Na van também estavam os críticos. Eles conheciam todos os defeitos da viagem. O guia poderia ser melhor. A van poderia ser melhor. A estrada poderia ser melhor. O piquenique poderia ser melhor. Provavelmente o vento também poderia ter soprado de outra maneira, se lhes tivessem perguntado.
O curioso é que raramente faziam alguma coisa. Não ajudavam a carregar. Não propunham uma solução. Não ofereciam uma ideia. Apenas julgavam.
E comecei a pensar no peso que deve ser viver assim. Porque quem transforma tudo em tribunal acaba condenado a passar a vida sentado na cadeira do juiz. Enquanto os outros vivem.
Talvez Narciso não tenha morrido diante do lago. Talvez apenas tenha trocado a água pelo espelho de nossas próprias certezas.
Mas havia ainda um último tipo de viajante. Eram aqueles que tinham ido ao vale e permitiam que o vale entrasse neles. Conversavam com as pessoas dali. Perguntavam os nomes das coisas. Provavam sabores desconhecidos. Observavam costumes. Escutavam histórias.
Olhavam demoradamente para as montanhas como quem compreendia que algumas paisagens não foram feitas para fotografias, mas para silêncio.
Entravam no rio. Sentiam a água quente correndo pelo corpo enquanto o vento frio atravessava o vale. E, por alguns instantes, não precisavam de mais nada. Nem de outro lugar. Nem de outra vida. Nem de outro dia.
Estavam ali. Inteiros. Talvez seja isso viajar. Não colecionar lugares, mas permitir que alguns lugares nos desorganizem por dentro.
Voltei para a van pensando naquelas dezoito pessoas.
Éramos desconhecidos que, por algumas horas, compartilhávamos a mesma estrada, o mesmo frio, o mesmo vale e o mesmo destino.
Depois cada um seguiria sua vida. Provavelmente nunca mais nos encontraríamos.
Mas alguma coisa daquela pequena humanidade sobre rodas ficou comigo.
Porque talvez a vida seja exatamente assim. Uma grande van de viagem.
Entramos sem escolher todos os passageiros. Encontramos os insatisfeitos, as alcateias, os críticos, os que cuidam e aqueles que se deixam transformar.
Às vezes nos irritamos com uns. Às vezes somos acolhidos por outros.
E, se formos suficientemente atentos, perceberemos algo ainda mais desconcertante: em diferentes momentos da vida, somos cada um deles.
Já reclamamos quando deveríamos agradecer. Já fechamos nossos grupos sem perceber quem ficou do lado de fora. Já criticamos sem ajudar. Já estendemos a mão.
E, felizmente, algumas vezes também tivemos coragem de simplesmente entrar no rio.
No fim, talvez a pergunta mais importante de uma viagem não seja:
“Aonde fomos?”
Mas: “Quem fomos nós enquanto estivemos na van?”
Porque os lugares passam.
As estradas terminam.
As fotografias envelhecem.
Mas há viagens que, de alguma maneira misteriosa, nos colocam em concerto com o Divino.
E então voltamos para casa. Aparentemente os mesmos.
Mas já não somos.









