Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
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Sinfrônio vem aí!

De plano, os registros. Primeiro: não sei quem é o dono — ou os donos — desse nome que escolhi para batizar o texto; escolhi-o justamente na aposta de que poucos o usariam num processo eleitoral, e, se algum Sinfrônio de carne e osso se sentir atingido, receba desde já minhas desculpas e, quem sabe, minha simpatia. Segundo: sei bem que esse expediente do “fulano vem aí” é receita antiga do pessoal de marketing para tornar conhecido do eleitor alguém que, até a véspera do registro da candidatura, precisava usar crachá em casa para ser identificado pela parentada. Terceiro — e isso é sério —: votar e candidatar-se são direitos fundamentais, e seu exercício não pode ficar jungido a exigências além daquelas postas pela Constituição e pela legislação eleitoral.

O problema, portanto, não está no nome, não está na pretensão, não está no adesivo. Está no colossal vazio que vem depois do anúncio.

Deixemos por um instante a candidatura de lado e olhemos a “lógica” que sustenta a atitude. Quem pretende lançar à venda alguma coisa inédita, supõe-se, informa-se antes sobre o tamanho da demanda, o ambiente e as circunstâncias do mercado — visto que, ouso o exemplo, pouco sucesso teria o empresário que se dispusesse a oferecer gorro e cachecol numa praia ensolarada de verão. Se ainda assim quiser insistir, sabe-se lá se visionário ou apostador numa súbita tempestade de neve, o segundo passo será escolher as características mais relevantes do produto, aquelas que evocam exclusividade, que despertam no sujeito completamente calvo o desejo incontrolável de comprar um pente, ou que convencem o banhista a pagar alguns reais por um litro de água salgada diante do mar. Superados esses desafios, o corajoso empreendedor cuidará de enaltecer a excelência da mercadoria, sua valia, sua utilidade sem paralelo, semeando no imaginário dos “alvos” a ideia de que nunca antes tiveram diante de si oportunidade tão boa, tão barata, tão adequada — com direito a depoimentos de como aquilo já salvou vidas, mudou destinos e passou em testes feitos nas circunstâncias mais adversas.

Pois a eleição dispensa tudo isso. Eleição se move a paixão, não a razão.

Por isso nenhum desses cuidados precede a adesivação dos Sinfrônios: basta colar o santinho nos vidros dos carros de alguns amigos constrangidos — ou da meia dúzia de entusiasmados, alguns deles desencorajados de fazer o mesmo — e vamos à luta, à cata daqueles que se desvencilham de seus votos gastando apenas a energia de apertar uns botões, até porque alternativa mais interessante não haveria para aqueles quinze minutos de fila.

O produto, no caso, é o próprio candidato. E ninguém perguntou se havia demanda.

Aos adesivos sucedem comportamentos curiosos. Os bordões “o seu amigo” — ou “a sua amiga” — e “o amigo da polícia”, como se surreal não fosse justamente um candidato apresentando-se como inimigo da corporação. Os apelidos que lembram o ofício de origem, “fulano do INSS”, “beltrano despachante”, como se ser reconhecido como barbeiro caprichoso, médico competente ou vizinho atencioso fosse atestado de competência legislativa, ou brevê para pilotar o orçamento de um município. E, coroando essa esquizofrenia contagiosa, a ideia de que a genética garante ao descendente as qualidades do parente já eleito — uma espécie de direito divino à sucessão, como ainda se vê nas monarquias sobreviventes, com a diferença de que lá, ao menos, ninguém finge que houve eleição.

Há ainda uma circunstância paradoxal: em vez de usarem o pouco tempo disponível para falar de si — nem que fosse inflando atributos ou inventando qualidades mais sedutoras —, esses Sinfrônios e Sinfrônias preferem enaltecer os candidatos que encabeçam suas chapas, atribuindo-lhes virtudes que nem as próprias mães reconheceriam, ou então desancar os adversários, imputando-lhes defeitos que nem seus inimigos históricos imaginariam. E, quando sobra um minuto, nossos “amigos de sempre”, os famosos “quem?”, escolhem a dedo, numa planilha de ocasião, os temas do momento: aquele que ouviu dizer que a pauta agora é segurança pública passa a lembrar que, quando criança, conversava muito com o guarda da esquina; o que soube que o assunto é a educação de pessoas com deficiência recorda a quantia que doou certa vez a uma instituição, da qual guarda, emoldurado, o diploma de honra ao mérito.

Já uma frase completa sobre o que fazer caso eleito — essa não sai.

Ou o candidato confunde instâncias e competências, protagonizando caricaturas como a do “Vereador Federal”, ou simplesmente ignora o que cabe à função pretendida, encarnando a imagem do cachorro que caiu do caminhão de mudança. Isso quando não confunde prerrogativa com licença para delinquir, quando não usa o mandato para locupletar-se de recursos e oportunidades ou, pior ainda, quando se prevalece dele para atentar exatamente contra o sistema democrático que lhe garantiu a cadeira.

O mais doloroso, porém, é constatar que, goste-se ou não, nenhuma dessas figuras chegou lá pela janela. Foram todas eleitas, legitimamente, por seus “amigos de infância” de poucos dias de campanha. E a isso se soma o esquecimento quase absoluto desses mesmos amigos sobre quem elegeram dois ou quatro anos antes para a mesma função — o que permite concluir, com alguma segurança, que o problema nunca foi quem vem aí, mas quem sempre esteve por aqui. Daqui a um tempo até se poderá negar a recondução ao Sinfrônio passado, elegendo em seu lugar o Sinfrônio da ocasião; a sinfronice, essa, segue reeleita por unanimidade.

Sinfrônio vem aí, sim. Vem porque, a cada dois anos, somos nós que abrimos a porta.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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