O Espírito Santo quer aproveitar o fluxo de peregrinos que participa da Festa da Penha para ampliar a permanência dos visitantes no Estado. A estratégia é criar roteiros e pacotes que combinem a programação religiosa com experiências culturais, históricas e de lazer em outros municípios capixabas.
A proposta foi apresentada pelo gerente da Regional Metropolitana do Sebrae/ES, Leonídio Pinheiro, durante o 1º Fórum da Região Sudeste de Turismo Religioso, iniciado nesta terça-feira (11), em Vitória.
Atualmente, parte dos visitantes chega ao Estado em caravanas pela manhã, participa das atividades da Festa da Penha e retorna para casa no mesmo dia. A intenção é fazer com que esse público permaneça mais tempo, aumentando a procura por hospedagem, alimentação, passeios e outras experiências turísticas.
“Na Festa da Penha, por exemplo, é uma visita rápida. Ele já vem em uma peregrinação, em uma caravana, chega de manhã e vai embora à tarde. A discussão é como conseguimos reter esse turista que vem por sua fé, mas que também pode conhecer outros ambientes de lazer e cultura, relaxar e aproveitar mais o destino”, explicou Leonídio.
Um levantamento técnico apresentado pelo CEO do Fórum Nacional de Turismo Religioso, Sidnésio Moura, aponta que a Festa da Penha reuniu 2,7 milhões de participantes em 2025. Entre quatro grandes destinos analisados, a celebração capixaba ficou atrás de Aparecida, em São Paulo, com 10,4 milhões, e Trindade, em Goiás, com 4,3 milhões. O Círio de Nazaré, no Pará, aparece na sequência, com 2,6 milhões.
Os números foram consolidados pelo próprio Fórum Nacional de Turismo Religioso a partir de informações dos destinos. O levantamento não representa um ranking oficial de todas as manifestações religiosas do país, mas dimensiona o público movimentado por quatro dos principais destinos analisados.
Apesar da dimensão da Festa da Penha e da existência de igrejas, santuários e caminhos de peregrinação, o Espírito Santo ainda não possui uma base específica sobre o tamanho do turismo religioso no Estado. Não há, por exemplo, um levantamento que indique quantas pessoas viajam motivadas pela fé, quanto tempo permanecem ou quanto movimentam na economia dos municípios.
“A gente ainda não tem esse dado concreto no Estado. O Fórum é esse pontapé inicial para começarmos a debater o turismo religioso de forma mais profunda”, reconheceu Leonídio.
Roteiros
Uma das iniciativas em andamento é a consolidação do roteiro jesuítico, que reúne locais como o Santuário Nacional de São José de Anchieta, o Palácio Anchieta, a Igreja dos Reis Magos e a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Araçatiba, Viana, recentemente restaurada.
Empresas de turismo receptivo já oferecem pacotes relacionados a esse patrimônio. A ideia é ampliar a oferta e conectar os atrativos aos grandes eventos religiosos realizados no Estado.
A própria Festa da Penha começa a ser trabalhada como ponto de partida para outras experiências. A proposta é aproveitar a viagem motivada pela celebração para apresentar destinos que possam ser visitados antes ou depois da programação religiosa.
“Nós já temos empresas de receptivo especialistas nesse trabalho e pacotes sendo comercializados. A própria Festa da Penha também conta com roteiros de visitação no seu entorno durante o período do evento”, afirmou Leonídio.
Para aproximar os destinos capixabas de operadores de outros estados, o Sebrae/ES promoveu um Famtour, viagem de familiarização destinada a profissionais do setor. Sete agências e operadoras especializadas em turismo religioso participaram da ação e conheceram atrativos que poderão ser incorporados aos pacotes comercializados fora do Espírito Santo.
A expectativa é que os resultados apareçam já na próxima edição da Festa da Penha. “Se consolidarmos o movimento realizado neste ano, já poderemos ter novos pacotes sendo comercializados para a Festa da Penha. Acredito que esse retorno começa a aparecer no próximo ano”, projetou Leonídio.
A Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES) também começou a testar ações para ampliar o fluxo de visitantes. Em uma das iniciativas, a entidade levou 150 pessoas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná para a Festa da Penha. Neste ano, cerca de 900 moradores do interior capixaba participaram da mobilização.
O presidente da Fecomércio-ES, Idalberto Moro, avalia que o trabalho ainda está no início.
“O turismo religioso está apenas começando no Espírito Santo. São os primeiros passos, e a gente sabe que ainda tem uma jornada muito grande pela frente”, afirmou.

Arquidiocese anuncia criação da Pastoral do Turismo
A Arquidiocese de Vitória vai criar uma Pastoral do Turismo para participar de forma permanente das discussões sobre o segmento no Espírito Santo. O anúncio foi feito pelo arcebispo metropolitano, Dom Ângelo Mezzari, durante a abertura do fórum.
“Uma das iniciativas, desde que eu cheguei, é criar a pastoral. E eu creio que hoje a gente pode dizer isso: nós vamos criá-la”, declarou.
Ainda não foram divulgados prazo, composição ou formato de funcionamento da nova estrutura. A proposta é estabelecer um canal de diálogo entre a Igreja e os setores envolvidos na organização dos destinos turísticos religiosos.
Dom Ângelo afirmou que a Igreja Católica precisa participar da discussão por ser responsável por parte significativa do patrimônio religioso capixaba. Ele citou a presença histórica de jesuítas e franciscanos e os templos reconhecidos como patrimônios nacional, estadual e municipais.
Para o arcebispo, ampliar a visitação não significa transformar a fé em um produto comercial. Segundo ele, a atividade precisa preservar a espiritualidade, a memória e a relação das comunidades com os locais sagrados.
“Turismo religioso é turismo de paz, é turismo de diálogo. Não serve apenas àquela visita, àquela oração ou àquela celebração. Inclui outros aspectos, passa pela gastronomia, pela visita a monumentos, por espaços de encontro, confraternização e lazer”, afirmou.
A criação da pastoral havia sido sugerida durante a abertura pelo presidente da Fecomércio-ES, Idalberto Moro. A proposta é que a Igreja tenha um interlocutor oficial nas discussões que envolvem instituições religiosas, gestores públicos e o setor turístico.
Para Leonídio Pinheiro, do Sebrae/ES, a decisão representa um dos primeiros resultados concretos do fórum.
“A criação da Pastoral do Turismo já é o primeiro ganho que o Fórum está trazendo. A partir daqui, essa discussão começa a ficar mais permanente”, avaliou.

Fórum reúne 279 participantes
O 1º Fórum da Região Sudeste de Turismo Religioso chegou a 279 inscritos, acima da expectativa inicial de receber entre 200 e 250 participantes. Além do Espírito Santo, o encontro reúne representantes de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Segundo a coordenadora do evento e analista da Regional Metropolitana do Sebrae/ES, Renata Bromonschenkel, o convite foi encaminhado aos 78 municípios capixabas. Caravanas de diferentes regiões também participam da programação, mas ainda não foi informado quantos municípios estão efetivamente representados.
Ao longo dos dois primeiros dias, o público acompanha palestras, painéis e apresentações de destinos. Entre as experiências capixabas estão os Caminhos da Sabedoria, o Caminho dos Jesuítas e a Festa da Penha.
Minas Gerais apresenta o Caminho de Santa Rita de Cássia, Congonhas, o Caminho da Agonia e a Rota das Rosas.
Segundo Renata, os casos foram escolhidos para apresentar diferentes formas de organização e ajudar outros territórios a transformar seus atrativos em experiências turísticas.
“A ideia é apresentar diferentes modelos e experiências que possam inspirar outros destinos na estruturação e no fortalecimento do turismo religioso”, afirmou.
A programação também contempla manifestações de diferentes religiões. Para a coordenadora, fé, cultura, história e espiritualidade fazem parte da identidade dos territórios e devem ser consideradas de forma ampla.
“O Forsetur trabalha a temática do turismo religioso a partir de uma perspectiva ampla, considerando as diferentes manifestações de fé, cultura, história e espiritualidade”, explicou.
Na quinta-feira (13), os participantes farão uma vivência técnica no Convento da Penha, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Igreja dos Reis Magos e no Santuário Nacional de São José de Anchieta.
“Ao final, foram escolhidos esses locais buscando apresentar diferentes manifestações do patrimônio religioso, histórico e cultural capixaba”, disse.
O trabalho deverá continuar após o encerramento do encontro. O Sebrae/ES já mantém consultores atuando no fortalecimento da organização dos destinos e na criação de produtos ligados ao turismo religioso.
Ainda não há definição sobre a periodicidade das próximas edições nem sobre qual estado receberá o próximo fórum. Segundo Renata, o Espírito Santo tem interesse em voltar a sediar o evento, embora a alternância entre os estados também seja considerada importante para a integração regional.










