José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura
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Os ativos das telas e relatórios

Vivemos uma época em que o patrimônio parece ter perdido importância diante da promessa de rentabilidades extraordinárias. O dinheiro passou a ser tratado como um fim em si mesmo, quando, na verdade, sempre foi apenas um instrumento para produzir riqueza.

Desde os primórdios da civilização, o capital financiou impérios, governos, guerras, grandes navegações e revoluções industriais. Sempre foi indispensável ao desenvolvimento. Mas havia uma característica comum: por trás do dinheiro existia um ativo real, alguém produzindo, construindo, plantando ou fabricando.

Hoje, boa parte do patrimônio mundial existe apenas como registros eletrônicos. Trilhões de reais circulam diariamente sem que um único tijolo seja assentado, uma única tonelada de aço seja produzida ou um único hectare seja cultivado. A velocidade do capital passou a ser infinitamente maior que a velocidade da economia real.

Nesse cenário, o verdadeiro empresário tornou-se quase um figurante.

É justamente ele quem assume riscos, investe, contrata trabalhadores, paga impostos, produz alimentos, constrói infraestrutura, fabrica bens e movimenta a economia. Entretanto, frequentemente é tratado apenas como a fonte de recursos destinada a remunerar estruturas financeiras cada vez mais sofisticadas.

Surge então uma pergunta inevitável:

Quem produz os juros que remuneram aplicações muito acima da capacidade de crescimento da economia?

A resposta é simples.

Não são as telas dos computadores.

Não são os algoritmos.

Não são as estruturas financeiras.

Quem produz essa riqueza é a economia real. São milhões de empresários e trabalhadores que acordam cedo todos os dias para gerar valor.

Quando o sistema financeiro cresce em velocidade muito superior à produção de riqueza, cria-se uma ilusão perigosa. A história econômica está repleta de exemplos.

Foi assim na crise das tulipas na Holanda, em 1637.

Foi assim na bolha dos Mares do Sul, em 1720.

Foi assim na quebra de 1929.

Foi assim com a Enron, que parecia valer muito mais do que realmente produzia.

Foi assim com o Lehman Brothers, cuja queda desencadeou a maior crise financeira desde a Grande Depressão.

Mais recentemente, novos episódios voltam a despertar preocupações. Os casos envolvendo o Banco Master e as notícias relacionadas à Apex recolocam em debate uma velha questão: até que ponto determinadas promessas de rentabilidade possuem sustentação na economia real?

Independentemente do desfecho de cada caso, uma verdade permanece imutável: sempre que a remuneração prometida se distancia excessivamente da riqueza efetivamente produzida, o risco cresce na mesma proporção.

Não existe mágica financeira.

Existe produção.

Existe trabalho.

Existe geração de riqueza.

O empresário que possui uma fábrica, uma fazenda, uma construtora, uma transportadora ou qualquer negócio produtivo possui algo que nenhuma tela consegue substituir: um ativo que gera riqueza real.

Esse patrimônio pode atravessar crises, governos, moedas e ciclos econômicos.

Já o patrimônio baseado exclusivamente em expectativas pode desaparecer em poucos dias.

Por isso, antes de vender um patrimônio construído ao longo de décadas para entregar os recursos aos especialistas do dinheiro alheio, vale uma reflexão.

Quem realmente conhece o valor daquele patrimônio?

Quem o construiu ou quem apenas administra recursos de terceiros?

O dinheiro é extraordinário quando financia a produção.

Mas torna-se extremamente perigoso quando passa a acreditar que pode se multiplicar indefinidamente sem que alguém, em algum lugar, esteja efetivamente produzindo riqueza.

A economia real sempre cobra a conta.

E a história demonstra que ela nunca deixa de cobrar.

O patrimônio produtivo pode oscilar de valor, mas continua existindo.

Já o patrimônio sustentado apenas por expectativas pode desaparecer na velocidade de um clique.

Afinal, o ativo mais seguro nunca foi o saldo exibido em uma tela e balanços fictícios.

Sempre foi aquele que se pode ver, tocar, produzir e transmitir às próximas gerações.

José Carlos Chamon
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José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura

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